5. Para compreender a pesquisa
5.1 Processos metodológicos
Procedemos primeiro a uma análise exploratória dos materiais produzidos nos dois jornais. Dessa forma, buscamos identificar signos lexicais e/ou semânticos
referentes ao universo temático que nos propomos estudar. Em tal análise excluímos as seções relacionadas a cultura e esporte por considerar que nelas é menos provável encontrar discursos com incidência na construção de representações sociais referentes a transexualidade e travestilidade.
Devido ao parco material que era expectável encontrar, e devido ao tempo exigido para tal, decidimos balizar o período de análise entre janeiro de 2014 e janeiro de 201569, perfazendo assim o total de um ano e um mês. Também devido a essa possibilidade, de (quantitativamente) encontrarmos pouco material para análise, optamos por não delimitar o material em termos de géneros textuais (entrevista, reportagem notícia), mesmo reconhecendo que as estratégias argumentativas e características organizacionais variam entre eles. Excluímos contudo os textos considerados opinativos (nessas seções dos jornais localizados), uma vez que o nosso foco é na informação considerada ‘noticiosa’, ‘fatual’ (por isso a sintetizamos no termo ‘notícia’).
Finalizada essa etapa, localizámos 30 textos para análise: 20 no JC, 11 no Aqui PE – na seção 6.2 procedemos à sua organização, tendo em conta as categorias identitárias e cadernos em que surgem.
Procedemos depois à análise discursiva com recurso à noção de formação e sequência discursiva. Por formação discursiva (FD) compreendemos
uma espécie de região de sentidos, circunscrita por um limite interpretativo que exclui o que invalidaria aquele sentido – este segundo sentido, por sua vez, constituiria uma segunda FD. No mapeamento dos sentidos, é preciso limitar o campo de interpretações aos “sentidos nucleares”, isto é, a reunião, em torno de uma FD, de diversos pequenos significados que constroem e consolidam aquele
sentido nuclear. […] um sentido sempre vem representar aquilo que
poderia ser dito, naquela conjuntura especifica, por aqueles sujeitos em particular, instados ideologicamente a dizer uma coisa, e não outra. Por isso, conceitua-se uma formação discursiva como aquilo
que pode e deve ser dito, em oposição ao que não pode e não deve ser dito (BENETTI, 2010, p.112, grifos da autora).
De sequência discursiva (SD), apelidamos os trechos que “recortamos para análise e depois utilizamos no relato de pesquisa” (BENETTI, 2010, p.113). Esperamos assim tornar mais acessível, porque mais organizado, o corpus da pesquisa.
69 Estas datas estão relacionadas ao fato de, desde 2004, 29 de janeiro ser celebrado como o Dia Nacional da Visibilidade Trans.
Sobre a investigação que propomos, é importante também frisar que, de acordo com os pressupostos teóricos em que nos apoiamos, será feita uma análise tendo em conta não apenas aquilo que está posto textualmente, mas – articulando essas presenças (e ausências) com as características (e acontecimentos) sociopolíticas do brasil a respeito das pessoas trans (assunto discutido no primeiro capitulo) – aquilo que não está presente, que significa pela ausência. Assim, pretendemos uma análise que não seja limitada às palavras, mas que procure compreender os significados que são produzidos na seleção, interpretação e construção dos discursos jornalísticos. Tomando como ponto de partida os signos textuais, teremos em consideração os contextos socialmente situados, definidores (mas não irremediavelmente determinantes) dos discursos e de suas interpretações. Desta forma, tentamos contemplar as relações de ‘mão dupla’ que são estabelecidas entre – e definem – os aspetos textuais, cognitivo-discursivos e sociopolíticos. Importaremos então alguns dos componentes do esquema de trabalho elaborado por Azevedo (2008, p.115), que julgamos pertinentes para a análise discursiva que propomos:
Os temas discursivos desempenham um papel fundamental na comunicação/interação social. Como coloca Van Dijk (2003a, p.152, tradução nossa),
os temas representan o assunto «de que trata» o discurso, uma vez que, normalmente, incluem a informação mais importante de um discurso e explicam a coerencia geral dos textos e das interações (Van Dijk, 1980). Os temas são o significado global que os usuarios de uma
Temas discursivos
(Organização global do texto jornalístico e estrutura de relevância)
Unidades de ações legitimadoras
(Rede lexical; verbos indicadores de ação dos sujeitos reportados)
Representações sociais
(Enquadramentos interpretativos; acesso discursivo; artigos e nomes utilizados para identificar pessoas não-cis; intertextualidade e interdiscursividade)
língua estabelecem mediante a produção e compreesão de discursos, e
representam a «essência» do que mais concretamente subentendem
.
Compreendemos então que a relevância dos temas está relacionada, principalmente, aos significados e modelos mentais a eles atrelados (condicionando o interesse e atenção que os sujeitos lhe poderão atribuir), mais do que aos conteúdos específicos de cada um dos discursos que neles se inscrevem. Nesta perspectiva, não compreendemos os temas como
estruturas textuais, mas sim elaborações discursivo-cognitivas que, em geral, orientam a construção das estruturas de relevância do texto. […] Daí ser essa uma categoria que opera na transição da estratégia global do discurso para as estratégias mais específicas da produção textual, como a organização sintática, por exemplo (AZEVEDO, 2008, p.73)
Defendendo que a compreensão dos temas é um trabalho que resulta da inferência dos leitores, neste trabalho teremos em particular atenção os caracteres que nos textos jornalísticos ocupam um grau de relevância maior: título e lead.
As unidades de ações legitimadoras estão atreladas à significação dos textos. Com a proposta de estudarmos a rede lexical (e não apenas o léxico), pretendemos colocar em destaque a ideia de que a escolha e utilização das palavras não é feita de forma automática, emanando naturalmente, nem aleatoriamente, dos sujeitos, mas que estão imbrincadas numa rede sociocognitiva que orienta a ação discursiva. Assim, as construções e conexões lexicais não devem ser percebidas como estando subjugadas a relações estruturais prévias, mas sendo construídas no “’mundo textual’. Daí sua força na construção do discurso e dos seus efeitos de sentido” (AZEVEDO, 2008, 128). Estas considerações remetem-nos para as concepções que Marcuschi tece a respeito da relação entre língua, significado e interação: “a língua em si mesma não providencia a determinação semântica para as palavras e as palavras isoladas também não nos dão sua dimensão semântica, somente uma rede lexical situada num sistema sócio-interativo permite a produção de sentidos” (MARCUSCHI, 2005 apud AZEVEDO, 2008, p.130).
Neste trabalho, por representações sociais compreendemos os saberes construídos em torno das ‘teorias’, elaboradas e compartilhadas coletivamente, que sustentam a construção e interpretação da realidade social no conhecimento popular e senso comum. Este conceito mostra-se então incompatível com a noção positivista de que a linguagem e a produção de conhecimento são espelhos do real, ao mesmo tempo que coloca em destaque as complexas relações sociocognitivas que conspiram para a
constituição de tais saberes. Segundo Wodak e Meyer (2009, p.26) podemos mesmo considerar que as representações sociais formam o link entre o sistema social e o sistema cognitivo individual e performam a tradução, homogeneização e coordenação entre as condicionantes do meio social e as experiencias subjetivas. Dinâmicas, mutáveis e situadas, as representações sociais são então constituídas por conceitos, opiniões, atitudes, valores, conhecimentos, normas, imagens e explicações, não- monolíticas mas que apresentam estabilidade suficiente para que os sujeitos/grupos encontrem nelas sentido para o seu agir social. Salientamos então para os nossos propósitos que “estudar as representações sociais é buscar conhecer o modo como o grupo humano (sic) constrói um conjunto de saberes que expressam a identidade de um grupo social” (OLIVEIRA; WERBA, 1998 apud AZEVEDO, 2008, p.41).
Por entendermos que é uma das categorias que interessa investigar na construção das representações sociais, nos interessa analisar a participação dos grupos/sujeitos na construção dos discursos jornalísticos em que são referidos. Para tal, teremos em consideração os dois tipos de acesso discursivo definidos por Van Dijk: o que se dá através da voz reportada e o que se dá através da construção predicativa. Enquanto no primeiro caso “os jornalistas usam o discurso de tal grupo – quando o reporta ou entrevista – no segundo […] o texto criado no jornal constrói a imagem desse grupo através de predicações, ou seja, como esse grupo é comentado” (MELO, 2012, p.64). Em ambos os casos, é preciso notar, o acesso ao discurso é regulado, resultando no controle das vozes, temas e representações que podem ser tornadas públicas. Como veremos, interessa assim refletir sobre o acesso diferenciado ao discurso, ou seja, sobre “quem pode falar e escrever para quem, sobre o que, quando e em que contexto, ou
quem pode participar desses eventos comunicativos nos mais variados papéis de ouvintes […]” (VAN DIJK, 2010, p.89, grifos do autor).
Seguimos a sugestão de Rosalind Gill (2002, p.265), quando esta assinala a importância de apresentar os materiais analisados aos leitores/participantes/sujeitos da pesquisa, de forma a permitir que estes façam a sua própria avaliação e, se quiserem, apresentarem interpretações alternativas. Referimo-nos, portanto, ao contato com os sujeitos envolvidos na produção dos materiais analisados. Dessa forma, ambicionamos produzir um material que leve em conta diferentes vozes e, simultaneamente, retirar a pesquisa de um ambiente acadêmico fechado, dando a conhecer as nossas reflexões
àqueles/as sobre os quais discursamos (percebendo neste processo dialógico a potencialidade de transformações mútuas).
Realizamos entrevistas semi-estruturadas com uma repórter especial (do JC) e seis editoras/es: 3 do JC – dois dos cadernos Brasil/Política/Internacional (os três cadernos funcionam como se de um apenas se tratasse, construídos que são pela mesma equipa) e um do caderno Cidades –, 2 do Aqui PE – editor geral e editora dos cadernos Cidades e Polícia – e 1 do Diário de Pernambuco (DP) – editora executiva. Para selecionar os/as entrevistados/as tivemos em conta dois critérios fundamentais: os cadernos onde mais encontrámos notícias – que no JC seria Brasil (9) e Cidades (4), e no Aqui PE, Geral (3), Polícia (3) e Cidades (3) – e o cargo desempenhado – no caso, editores/as, principalmente. A posição hierárquica apresenta-se como importante por dois motivos: 1) a grande maioria dos materiais recolhidos não tinham assinatura do/a jornalista, sendo assim muito difícil mapear os/as produtores/as de cada matéria. Mesmo que tal fosse possível, ainda que entrevistas com tais sujeitos, possivelmente, se revelassem interessantes, é sabido que as redações são constituídas por posições hierarquicamente organizadas. Assim, consideramos que 2) os/as editores/as dos cadernos, pela posição que ocupam, podem oferecer-nos melhores índices para compreender as construções discursivas sobre travestilidade(s) e transexualidade(s).
Salientamos contudo que a disponibilidade dos sujeitos para ceder entrevista acabou por também se constituir como fator fundamental: no JC, apesar das várias insistências, não conseguimos obter resposta de Betânia Santana (também editora do caderno Cidades); no Aqui PE, devido há muito menor dimensão da equipa – para além do editor geral, era/ é formado por apenas mais três editores/as assistentes, sendo que apenas uma, Cleide Galdino, em 2014, se dedicava aos cadernos Cidade e Polícia (os cadernos que identificamos como interesse de entrevista) –, tivemos maiores dificuldades: Humberto Santos, que em 2014 desempenhava o cargo de editor geral, recusou, por vários motivos, a ceder entrevista. Assim, face á escassez de entrevistados (apenas dois), optamos por também entrevistar Paula Losada, editora do DP – essa decisão é, no nosso entender, válida por os dois jornais (Aqui PE e DP) pertencerem à mesma empresa, sendo que a grande maioria das matérias publicadas no Aqui PE (entre 80 e 90%, segundo relato de Rodolfo Bourbon), ainda que editadas, são oriundas do DP; mais: hierarquicamente (segundo a mesmo fonte), os/as editores/as do DP estão localizados acima de todos/as os/as editores/as do Aqui PE, podendo interferindo (ainda
que por norma isso não aconteça), ou contribuindo, nas/ para as decisões editoriais deste.
No JC, uma das entrevistas escapa ao critério de posição: sendo repórter especial, não editora, decidimos entrevistar Fabiana Moraes devido ao seu historial, inclusive com trabalhos de fundo realizados com foco na(s) travestilidade(s) e transexualidade (s) – um dos últimos, a reportagem com foco numa mulher transexual do agreste pernambucano que procura realizar a cirurgia de redesignação genital, foi vencedora do Prêmio Esso.