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4. Apresentação e discussão dos resultados

4.1. Histórico dos serviços/programas/projetos

4.1.2. Programa Canteiros Reconstituindo Vidas

Como já ressaltado anteriormente neste trabalho, o referido programa tem início em 1997 no município, com a nomenclatura Programa Canteiros da Cidadania, atuando com crianças em situação de rua (J. Silva, 2012). Pode-se fazer uma articulação com a fala de MNMMR2 acima mencionada quando ressaltou que, depois do movimento, outros programas sociais começam a surgir no município e os participantes do MNMMR veem a necessidade de abrir espaço para que o Estado assuma suas responsabilidades diante das sequelas da “Questão Social” para a criança e para o adolescente. Percebe-se que o programa apenas tem início no final dos anos 1990, deixando por muito tempo que apenas o “terceiro setor” assumisse o atendimento da população infanto-juvenil em situação de rua. Essa situação corrobora o contexto social, econômico, político que se estabelece no país, na década de 1990, com a agenda neoliberal de redução dos gastos sociais e incentivo do “terceiro setor”.

Quando questionados sobre o surgimento do programa no município, ambos os participantes não souberam precisar o momento exato em que isso ocorreu, uma vez que o programa já atuava antes da inserção deles nesse campo de trabalho. Contudo, Canteiros1 ressalta:

Não sei lhe informar. Mas ele já existia há alguns anos já de quando eu entrei, de forma pequenininha, né? Eu acho que era mais uma forma de dar uma satisfação, uma satisfação para a sociedade, para dizer que o trabalho existia. Porém, era muito pequeno, era incipiente. Em seguida, Canteiros1 ainda acrescenta que quando foi contratado para o programa, havia tido uma reestruturação do atendimento:

O programa já existia, agora, ele era em tamanho bem menor. Ele contava apenas com duas educadoras sociais e mais o coordenador. Era um programa assim, bem pequeno, que ficava numa sala menor que essa aqui. Aí, houve essa reestruturação por exigência da gestão da época, e foi aí que entrou, salvo engano, oito educadores (inclusive eu), inclusive em parceria com a polícia militar, para dar esse reforço aí de carros novos, enfim, para dar um reforço nessa parte de abordagem de rua realmente.

Essa afirmação corrobora a exposição de J. Silva (2012), quando relata que houve uma mudança de nomenclatura do programa, que passa a ser identificado como Canteiros Reconstituindo Vidas, e passa a atender um público maior, não mais se restringindo a crianças em situação de rua. Diante disto, compreende-se o aumento do quadro de funcionários para atuar no programa, como citado por Canteiros1. Este ainda ressalta que as ações passaram a abranger as famílias dessas crianças e adolescentes em uma tentativa de fortalecer a sua função protetiva e reduzir o número de crianças e adolescentes em situação de rua. Assim, o entrevistado pontua:

Aí, mudou-se a gestão e começou a se ver que estava precisando de um pouco a mais. Então, o que é que se começou a fazer? Como a gente sabia que eram as mesmas famílias, os mesmos núcleos familiares, começou-se a trabalhar o núcleo familiar. Começou a trazer:

“Ei, mãe, venha cá na secretaria!”, “Por que os seus filhos estão nas ruas?”. Vamos lá, vamos inserir essa mãe, vamos pegar essa mãe agora e vamos trabalhar ela. (Canteiros1)

No que se refere à inserção dos entrevistados no programa, ambos atuaram como educadores sociais e nunca haviam trabalhado nesse campo de atuação anteriormente, ou seja, não possuíam experiência nesse âmbito de trabalho com a população em situação de risco e vulnerabilidade social. A ausência de aproximação com a temática, seja teórica ou concretamente, pode contribuir para uma prática com dificuldades de direcionamento e, possivelmente, sem reflexões críticas sobre o seu processo do fazer. Ressaltam:

Teve uma seleção, né? Uma prima minha que já trabalhava na SEMTAS me indicou para lá, eu participei da seleção, participei das entrevistas e fui selecionado. (Canteiros1)

Eu sou da turma dos concursados de 2006, e na época a gente fez uma entrevista na SEMTAS e foram dadas opções para onde a gente queria ir. Na época, foi meu primeiro emprego, né? Eu tinha 18 anos, foi o ano que eu fiz 18 anos; então, eu não conhecia nenhum dos programas da prefeitura nem nada, e terminei indo para Casa de Passagem, a Casa 1. Casa de Passagem que hoje chama Casa de Acolhimento, né? Unidade de Acolhimento, mas antes se chamava Casa de Passagem. Só que eu não me adaptei lá. Então, eu passei cerca de um mês e pouco. Aí, pedi remanejamento e terminei indo para o Programa Canteiros. (Canteiros2)

No tocante aos objetivos do Programa Canteiros, ressalta-se a ausência de acesso a qualquer documento deste que possibilitasse vislumbrar os propósitos de sua atuação, permitindo realizar articulações com as falas dos entrevistados. Além do fato de os entrevistados terem citado o desconhecimento sobre qualquer documento que abordasse os direcionamentos do programa – o que será discutido posteriormente –, também não se conseguiu localizar esta informação no levantamento dos serviços/programas/projetos, fosse em documento digital ou físico. No entanto, cumpre destacar que os participantes sinalizam que a retirada de crianças e adolescentes das ruas era o mote principal de sua atuação e citam questões que merecem atenção:

Nosso serviço era fiscalizar, ver se tinha gente em situação de rua, e, quando tivesse, era descer e tentar fazer essa abordagem, né? [...] Que a preocupação maior das pessoas na secretaria era retirar o povo da rua, né? Não importa onde a gente fosse deixar. (Canteiros2) Agora se a gente visse, a gente tinha que, de alguma forma, retirar de lá. Não poderia deixar. Essa era a nossa orientação. (Canteiros1)

A questão alarmante que se coloca nos trechos das falas diz respeito a uma prática da retirada pela retirada, sem necessariamente haver uma rede de atendimento fortalecida que fornecesse o suporte a essa população, ou até mesmo processos mais aprofundados de orientação e de construção de protagonismos sociais que contribuíssem para vislumbrar formas alternativas ao estar na rua. Diante disto, o que se percebe é uma quebra de um processo político e militante de atuação, que vinha sendo desempenhado pelo “terceiro setor” por meio do MNMMR, para uma prática do poder público desvinculada de propostas que fossem mais elaboradas e que de fato culminassem na garantia de direitos. Outro ponto que merece destaque é o caráter fiscalizador do Programa Canteiros – questão já ressaltada neste trabalho quando são citadas as ações do Estado diante da população infanto-juvenil em situação de rua no país –, uma vez que se percebem ações que são muito mais violadoras e punitivas do que de fato de promoção de direitos ou atreladas à garantia da proteção integral (MDH, 2017).

Ainda segundo J. Silva (2012), o programa Canteiros Reconstituindo Vidas é extinto em 2009 e alguns aspectos são ressaltados por Canteiros2:

O Canteiros foi extinto em meados de 2009, que foi quando chegou a regularização para instituir os CREAS, né? Para abrir os CREAS. Então, em meados assim, de 2009. Aí, o Canteiros foi aos poucos se dissolvendo e incorporando o CREAS, né?

Assim, o município de Natal/RN passa a seguir uma padronização dos serviços da PNAS, incorporando os termos estabelecidos em documentos oficiais, como a Tipificação

Nacional dos Serviços Socioassistenciais (MDS, 2013a). Nesse ínterim, a SEMTAS, ao

adolescentes por alguns anos, uma vez que os CREAS passam a priorizar o PAEFI – principal serviço ofertado no âmbito da referida unidade. O PAEFI não possui a função de realizar abordagem de rua e compreende o atendimento e o acompanhamento de indivíduos ou famílias em situação de violação de direitos, abarcando um público-alvo maior. Os educadores sociais que atuavam no Programa Canteiros passam a ser incorporados em outros serviços da SEMTAS, em especial o próprio PAEFI.