TERCEIRO PRINCÍPIO
5. O PERCURSO DO PROGRAMA UFBA EM CAMPO – ACC (ATIVIDADE CURRICULAR EM COMUNIDADE)
5.1. PROGRAMA UFBA EM CAMPO
Em 1997, na gestão do reitor Felippe Serpa, deu-se início ao Programa UFBA em Campo, vinculado a Pró-reitoria de extensão da UFBA, cujo intuito era buscar novas formas de interação da Universidade com a sociedade, ou seja, experimentar uma maneira diversificada de interagir com o meio social, sem estar apenas prestando algum serviço a ele de forma assistencialista. Na verdade, as idéias começaram a surgir no final de 1996 e no dia 17 de maio de 1997 houve a primeira solenidade do Programa UFBA em Campo, realizado na reitoria18. Nesse
encontro houve também o depoimento de 15 professores, expondo sobre a universidade que eles gostariam de ver.
O Programa UFBA em Campo é uma atividade extensionista que já começou diferenciada das costumeiras atividades deste caráter que a UFBA vinha desenvolvendo, pois como bem assinala Bela Serpa, coordenadora executiva do
18 Participaram desse encontro Pedro Demo (sociólogo), Mãe Stella de Oxóssi (sacerdotisa do Candomblé de São Gonçalo do Retiro), Felippe Serpa (ex-reitor da UFBA), Paulo Lima (ex-pró-reitor de extensão), dentre outros professores.
Programa UFBA em Campo II no período, por ele ter sido originado e administrado na PROEXT (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA, 2001, p.17). O mais corriqueiro é os projetos, os programas partirem das diversas unidades de ensino e/ou grupos de pesquisa da UFBA e a PROEXT apenas administrar.
Essa experiência foi bem sucedida, é o que se supõe e pode ser ratificado pelos relatos dos atores envolvidos nos relatórios de publicação, por ela ter sido desenvolvida em três versões: Programa UFBA em Campo I, Programa UFBA em Campo II e Programa UFBA em Campo III, além de servir de inspiração para institucionalização de atividade semelhante na UFBA – a ACC.
Como já mencionado, o Programa UFBA em Campo I ocorreu em 1997 com a participação de 200 estudantes e 50 municípios baianos. Em maio do referido ano houve a inscrição para o programa com um braço no interior e um braço na capital. O braço no interior era chamado “Programa UFBA em Campo: pulando a fogueira”. Para cada município foram quatro estudantes de cursos diferentes. Eles permaneceram nos municípios durante 15 dias, de um período que antecedeu e sucedeu o São João, pois a intencionalidade do programa foi que estes vivenciassem a densidade desta festa, onde fizeram uma abordagem preliminar de temáticas ligadas às necessidades do município, sem a presença dos professores, mas teve um trabalho de preparação de três meses que começou no dia 17 de maio. A preparação ocorreu aos sábados, com reuniões e trabalhos em grupos na Faculdade de Arquitetura com a participação de 12 a 15 professores.
Segundo o Professor Paulo Lima (Pró-reitor de Extensão da UFBA / 1997 – 2002),
Para muitos foi a primeira experiência de projeto acadêmico que estava na mão deles, não era pesquisa, não era extensão, era de tudo, tinha a responsabilidade que depois identificamos como o mais importante de tudo, e também eles se sentiam representantes da universidade, representante do conhecimento... Era uma estratégia de enponderamento que resultou em um trabalho enorme. Tinha uma caravana que foi para um município muito longe e chegavam no município de madrugada, na época de São João, e já ficam trabalhando, entrevistando todo mundo, a cidade também abraçou os estudantes de uma maneira muito carinhosa, foi um negócio muito feliz (informação verbal).
Sobre o fato dos estudantes terem ido sozinhos aos municípios, sem professores, o que caracteriza mais uma ousadia do programa, o próprio Felippe
Serpa, reitor da UFBA no período, relatou tal fato em um dos seus escritos ao afirmar que “[...] Eu avisei a eles [estudantes] que aquela seria a oportunidade de derrubar o reitor, porque bastaria alguma anomalia para que isso ocorresse, porque a mídia e a comunicação não me poupariam” (SERPA, 2004, p.291).
Quem conhece o pensamento de Serpa sabe que para ele, quem faz a Universidade são os estudantes. Talvez tenha sido isso um dos motivos desse formato do programa, além dos projetos terem sido concebidos pelos próprios estudantes, o que possibilita certo grau de autonomia destes no seu desenvolvimento acadêmico.
Outro dado relevante acerca dessa primeira versão do programa é o fato de ter sido realizado sem nenhum financiamento externo. Isso provoca no mínimo duas nuances. A primeira é óbvia, pois a Universidade não possui recursos financeiros em abundância para realizar de forma plena atividades desta natureza. A segunda é que sem regras do financiador a instituição possui autonomia para produzir e socializar o conhecimento por caminhos que considere mais ricos, gratificantes.
A segunda versão do programa, Programa UFBA em Campo II, realizado em 1999, trouxe algumas novas configurações: financiamento externo, bolsas de extensão para estudantes de graduação, envolvimento de professores juntamente com os estudantes...
O objetivo do programa foi nas palavras do Professor Paulo Lima (Pró- reitor de Extensão da UFBA / 1997 – 2002), “[...] sedimentar as soluções recém- criadas na UFBA, permitindo que ousadias metodológicas e mecanismos tradicionais da academia dialogassem livremente” (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA, 2001, p.11). Percebemos assim o reconhecimento de uma prática extensionista não mais puramente embasada nas prestações de serviços aos menos favorecidos (financeiramente, intelectualmente...), mas sim na possibilidade de trocas reais dos que tiveram o privilégio de acessar a Universidade com aqueles que, ás vezes, a idealizam como um mito.
Com o financiamento via parceria entre a UFBA e CADCT/SEPLANTEC foi possível oferecer condições mais adequadas dos projetos se desenvolverem, sem mencionar que alguns estudantes foram contemplados com bolsas de extensão, o que de fato aumenta a disponibilidade do estudante se dedicar a esse tipo de experiência.
Graças a essa parceira, cada projeto desenvolvido na capital contava com aproximadamente R$ 750,00 (setecentos e cinqüenta reais) e R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais) para os projetos que aconteciam no interior do Estado, para custear despesas com materiais de consumo, transporte, alimentação e hospedagem. É necessário frisar que nesta parceira a contrapartida da UFBA foi de disponibilizar docentes, além da utilização dos espaços físicos da instituição.
O número de participantes envolvidos reduziu para 111, 33 professores e 26 projetos em comunidades do interior e da capital do Estado da Bahia. A limitação de recurso financeiro é uma possível explicação desta redução.
Durante o Programa UFBA em Campo II, ocorreu no período de 13 e 14 de dezembro de 1999 o I Seminário Estudantil de Extensão intitulado “O estudante e a sociedade: formação e compromisso”, realizado pela Pró-Reitoria de Extensão com o apoio do CADCT/SEPLANTEC.
Esse evento teve o objetivo de
agregar diversos grupos de estudantes, de origens acadêmicas diversas, para intercambiar experiências, confrontar metodologias, identificar afinidades temáticas e indicar perspectivas e rumos não só dos trabalhos que estão desenvolvendo mas, sobretudo, para fortalecer o processo de institucionalização da participação estudantil em atividades de extensão universitária (PROEXT/UFBA, s.d, p.3).
Já no Programa UFBA em Campo III, o que temos notícia é que a única diferença deste da segunda versão é o fato das bolsas de extensão para estudantes de graduação originar-se da própria UFBA no mesmo valor da bolsa de IC, permanecendo a parceria com a CADCT/SEPLANTEC.
Mesmo que de forma tímida, o valor das bolsas para os estudantes que participam de atividades de extensão ou de IC serem iguais evidencia uma preocupação da Universidade em não reforçar a concepção que a extensão universitária tem menor prestígio que a pesquisa.