CAPÍTULO 2 MUDANÇA EDUCATIVA
2.2. Mudança Educativa
2.2.1. O Currículo e a mudança educativa
2.2.1.2. Projetos curriculares de escola e de turma
“Organizar o currículo em contexto e geri-lo de forma flexível significa, antes de mais, tomar decisões face à pergunta em torno da qual se deve construir o projeto curricular: que proposta de trabalho curricular e de gestão conjunta julgamos ser a melhor para que o que estes alunos precisam de aprender faça sentido para eles e lhes permita adquirir as compe- tências de que precisam? Que opções e que prioridades, que modos de estruturar o trabalho e os saberes de todo o tipo que estão em jogo no currículo que queremos pôr de pé nesta escola ou situação” (Roldão M.C., 1999a,p.28)
Do que foi escrito anteriormente, infere-se que à escola de hoje não cabe o único papel de transmissão de conhecimentos e valores, definidos de forma centra- lizada e iguais para todos.
Hoje, a necessidade de ”corresponder às situações reais e de mobilizar os recursos locais passa pelo envolvimento das escolas e dos seus agentes na procu- ra de caminhos que propiciem uma formação com sentido para todos os alunos…”, de modo a “que incorpore a diversidade de situações e a flexibilização de percur- sos e meios de formação” (Leite C. 2002b, p.113-114).
São aquelas necessidades e princípios que estão na origem do Projeto Educa- tivo de Escola, documento produzido por toda a comunidade de uma escola, onde estão referenciados os princípios e valores pelos quais a escola se deve orientar, e se encontram definidas as metas e os objetivos a atingir, nos campos social, peda- gógico-didático e logístico, bem como as estratégias a desenvolver para os conse- guir, e o modo de avaliação do projeto. É, portanto, o conjunto de “caminhos” que a escola escolheu no sentido de dar resposta à diversidade e propiciar um ensino de qualidade para todos.
É a partir daquele documento e, tendo como base o “currículo nacional”, que a escola responde às seguintes perguntas (cf. Roldão, 1999): Ensinar o quê? A quem? Como? Com que finalidade? O quê, e como avaliar (cf. Diogo, 2006), que se desenvolve o Projeto Curricular de Escola120.
120 Alonso (Inovação Curricular, Formação de Professores e Melhoria da Escola – Uma Abordagem Reflexiva e Recons- trutiva Sobre a Prática da Inovação/Formação, p.393) defende a formulação das seguintes questões para a construção do Projeto Curricular: “porquê ensinar/aprender (princípios, valores); para quê ensinar/aprender (objetivos-capacidades a desen- volver); o quê ensinar/aprender (seleção, organização e sequencialização dos conteúdos);como ensinar/aprender (processos e metodologias); onde ensinar/aprender (espaços e contextos); quando ensinar/aprender (horários, sequência temporal, calendarização); com quê (recurso, meios e materiais); …a quem ensinar/aprender (escola, alunos).
O Projeto Curricular de Escola121 “estabelece o referencial de unidade para as
práticas curriculares a desenvolver na escola e torna-se, por essa via, num instru- mento destinado a dar coerência à atuação conjunta dos docentes “ (ibidem, p.208). Este Projeto Curricular define “As estratégias de desenvolvimento do currí- culo nacional, visando adequá-lo ao contexto de cada escola…” e no contexto de cada turma, aquelas são objeto de um Projeto Curricular de Turma, concebido, aprovado e avaliado pelo professor titular de turma, em articulação com o conselho de docentes, ou pelo conselho de turma, consoante os ciclos” (. D.L. nº 6/2001, de 18 de janeiro).
Ora, na escola, o conjunto de professores que constituem o conselho de uma determinada turma, após a análise das “ características dos alunos quanto ao con- texto socioeconómico, étnico-cultural e percurso escolar anterior” (Galvão, 2002,p.102), deve refletir sobre o caminho a realizar com aqueles alunos para levar à prática o preconizado no Projeto Curricular de Escola. Desenvolve-se, assim, um novo caminho, adaptado à turma, definido no Projeto Curricular de Turma122. O Projeto Curricular de Turma é consequentemente um trabalho partilhado por todos os professores da turma em torno de metas concretas e de questões e dificuldades reais a superar.
Para Gargaté C., citado por Roldão M.C. (2003), o Projeto Curricular de Turma “é a forma particular como, em cada turma, se reconstrói e se apropria o currículo face a uma situação real, definindo opções e intencionalidade próprias, e cons- truindo modos específicos de organização e gestão curricular, adequados à conse- cução das aprendizagens que integram o currículo para os alunos concretos daquele contexto” (p.5).
121 “No essencial, a conceção de um projeto curricular é uma forma de mobilizar os docentes em torno de objetivos con- cretos de cada área de saber, entendidos como capacidades a desenvolver pelos estudantes, bem como da desocultação dos modelos metodológicos que devem presidir ao desenvolvimento do processo de ensino /aprendizagem” (Morgado J.C., Martins F.B., Projeto Curricular: mudança de práticas ou oportunidade perdida? , p.6).
122 O Projeto Curricular de Turma parte das decisões constantes do PCE acerca do que é/deve ser comum à escola, ao ciclo de estudos e ao ano de escolaridade a que a turma pertence. E parte dessas definições para decidir qual o modo mais adequado de as concretizar nas condições concretas da turma, isto é, em função das características específicas dos alunos da turma. O Projeto Curricular de turma responde, então, às questões: o quê, como e quando ensinar nesta turma? O quê, como e quando avaliar nesta turma? Exprimindo um referencial de unidade destinado a garantir a coordenação e a conjuga- ção da ação de vários professores dos mesmos alunos, cada Projeto Curricular de Turma é, também, um instrumento de diferenciação, a partir do referencial comum a todos os projetos curriculares de turma (o Projeto Curricular de Escola”( Mor- gado J. Martins F.B. op .c., p.6).
Com o Projeto Curricular de Turma123 os professores realizam “a articulação
das várias disciplinas124, em termos de conteúdos e atividades e a articulação com
as áreas disciplinares e não disciplinares” (Galvão, 2002, p.106).
Podemos inferir, então, que o Projeto Curricular de Turma, para além de ser a “leitura” daquele grupo de professores, do Projeto Curricular de Escola, e do currí- culo oficial, é também o resultado das soluções encontradas para dar resposta
àqueles alunos da turma.
A legislação de referência a este estudo, corresponsabiliza todos os professo- res da turma pela elaboração e execução do Projeto Curricular de Turma, mas compete ao Diretor de Turma dinamizá-lo.
De uma forma prática o Projeto Curricular de Turma deve:
i- Fazer a síntese dos principais problemas da turma, através do diagnós- tico e caracterização da turma, a fim de serem encontradas soluções para a resolução das dificuldades e problemas detetados;
ii- Estabelecer um código de conduta comum a todos os professores, bem como a forma de responsabilizar os alunos pelo cumprimento das regras;
iii- Definir quais as competências a desenvolver bem como as atitudes e valores, que metodologias a aplicar de acordo com as características da turma;
iv- Incluir as atividades de complemento curricular;
v- Definir os critérios de avaliação, isto é, o que avaliar e como avaliar, inclusive, o projeto curricular de turma.
123 “…O projeto curricular de turma é um elemento central da gestão do currículo. É neste nível da turma que o conjunto das experiências de aprendizagem que se proporcionam aos alunos pode ganhar coerência e que a articulação entre as diversas áreas do currículo se pode tornar realidade” (Abrantes, Princípios Medidas e Implicações. Decreto- Lei:6/2001,2001,p48).
124 “A organização do currículo é mais do que a articulação das áreas de conhecimento: é o processo de estruturar e sequenciar os elementos que constituem o currículo de um sistema educacional os quais compreendem tanto planos de ensino e de aprendizagem como materiais e equipamentos, técnicos e especialistas de ensino.” (Fontoura, M., Do Projeto Educativo de Escola aos Projetos Curriculares, pp.54-55).
Para cumprir aqueles desideratos, os professores têm de mobilizar práticas colaborativas de trabalho em grupos diversificados bem como abandonar a posição de executores do currículo oficial, tornando-se construtores e gestores do currículo.