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PARTE III – ANÁLISES

CAPÍTULO 5 – ANÁLISE ESTRUTURAL: OS PROTOCOLOS DO AT-9 E

5.6 PROTOCOLO AT-9: DONA DEDE

Identificação: D. Dede; 74 anos, solteira, baiana, grau de escolaridade ensino médio; católica praticante; reside sozinha e com Deus.

IIª PARTE: Você tem 30 minutos para fazer um desenho com os seguintes elementos: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorante, alguma coisa cíclica (que gira, que

produz, ou que progride), um personagem, água, um animal (pássaro, peixe, réptil ou mamífero), fogo.

Segue ilustração:

IIIª PARTE: Escreva aqui a história do seu desenho.

Uma senhora caiu do ônibus enquanto descia do ônibus. Ela estava com uma espada na mão, foi recolhida por alguém e colocou-a num refúgio enquanto chegava o socorro, mas o monstro do motorista não a socorreu. Uma senhora que estava passando de bicicleta prestou socorro. Um pássaro cantava também, creio que era um aviso do que estava se passando.

IVª PARTE: Responda de modo preciso às seguintes questões:

A Sobre que idéia você centrou sua composição?

Falta de cuidado do motorista com uma pessoa idosa

B. Você foi eventualmente inspirado?

Convivência do dia a dia

C. Entre os nove elementos do teste de sua composição indique:

1. Os elementos essenciais em torno dos quais você construiu o desenho:

Personagem idosa, monstro, pássaro e uma senhora que socorreu

Peixe, porque não tinha água

Espada, porque a senhora idosa não anda com espada

D. Como acaba a cena que você imaginou?

A senhora sendo socorrida

E. Se você tivesse que participar da cena composta onde você estaria? O que faria?

Socorrer ou chamar alguém para prestar socorro

No quadro seguinte, você deve especificar:

1. Por meio de que você representou os 9 elementos do teste (coluna A).

2. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações (coluna B). 3. O que simboliza, para você, cada um dos 9 elementos do teste (coluna C).

Elemento A. Representado por B. Função/Papel C. Simbolizando

Queda Senhora Pedir socorro Sofrimento

Espada Espada Nada Nada

Refúgio Casa Guardar do sol Refúgio

Monstro Motorista Não dirigiu com cuidado Falta de atenção

Cíclico Bicicleta Levar a senhora para socorrer a outra Meio de transporte

Personagem Senhora idosa Sofrer um acidente Ser humano

Água - - -

Animal Pássaro Avisar o perigo Amor

Fogo - - -

Análise:

D. Dede, é uma idosa solteira, com 74 anos de idade, nascida em Ipiaui na Bahia . D. Dede cursou até o 2º grau e diz praticar a religião Católica. Ela relata morar sozinha e com Deus.

Ela desenha no protocolo do AT-9 um ônibus do qual a senhora idosa (personagem) cai ao desembarcar (representação do elemento queda). A personagem não está em pé no desenho do teste, encontra-se desenhada deitada, (indício de antifrasia) e carregava na mão uma espada (representação do elemento espada, desenhada fora das mãos da personagem) o

que depois é dita sem sentido pelo sujeito-autor do teste, pois uma senhora idosa não anda

com espada. O elemento monstro é representado pela imagem do motorista do ônibus com

função de não dirigir com cuidado e simbolizado por falta de atenção. O elemento monstro está representado antropormoficamente o que pode ser um indício do receio com a sexualidade, pois o motorista (monstro) trata-se de um homem. Ela diz:

Eu não quis mais saber de ninguém depois porque quando eu fiquei sem meus avós eu já tinha 51 anos, estava muito cansada, trabalhava em hospital na área de fisioterapia que é uma área de cansaço terrível. Então eu chegava em casa e não tinha mais vontade de nada, ainda tinha que lavar, passar,cozinhar. E aí eu fiquei só e depois com 51 anos eu vi que não queria mais nada.

Talvez porque ela também alega ter sentido muita dor na primeira vez.

Na história imaginada ela alude a queda de uma idosa. A queda em idosos é algo preocupante e assim a atenção dos idosos precisa ser redobrada, bem como os motoristas precisam estar preparados para lidar e amparar passageiros idosos. No seu imaginário o

monstro do motorista não a socorreu. D. Dede representa o elemento cíclico, a

temporalidade, por uma bicicleta, meio de transporte (movimento) conduzida por uma senhora que socorre a idosa colocada em um refúgio (elemento refúgio, desenhado como uma casa, com função de guardar o sol) para aguardar o socorro. De acordo com Bachelard (1988), o canto de uma casa, o ângulo de um quarto ou qualquer pequeno espaço onde gostamos de recolher-nos em nós mesmos, é, para a imaginação, uma solidão.

Os elementos água e fogo não aparecem no quadro final do teste, eles não são representados a não ser o fogo no desenho, não lhes é atribuída função, nem estão simbolizados. Ao responder uma das questões do teste ela imagina o animal como peixe, mas diz que quer eliminá-lo porque na historia imaginada não aparece água. No discurso do teste, a personagem desce do ônibus e cai. Na parte pictórica do teste a personagem está deitada, e é socorrida por uma senhora que passava de bicicleta (elemento cíclico - actante interativo). Ela acaba socorrida, acaba bem.

D. Dede diz, positivamente, que socorreria ou chamaria alguém para socorrer. Ela pensa em lutar na situação, mas imagina chamar alguém para lutar por ela. Imagina a espada e o monstro o que remete a esquizomorfia, bem como a representação do elemento animal (elemento complementar) pássaro, que ajuda a avisar o perigo e simboliza amor, mas o refúgio (casa) também é lembrado assim como a ciclicidade, com a presença da bicicleta, meio de transporte.

Logo no início da entrevista depois da realização do AT-9 percebe-se que D. Dede se afasta da sexualidade para cuidar de pessoas idosas:

[...] eu tive que cuidar da minha família, aí eu desisti, fui cuidar de pessoas idosas, era gente da família e aí eu não procurei mais ninguém. Fiquei só. Hoje eu não tenho ninguém, não quero, entendeu?

Na sua fala ela se mostra assustada com a ideia de ser roubada ao entabular um relacionamento:

[...] se alguém viesse atrás de mim é pra explorar o que eu tenho. [...] O povo só tá interessado no dinheiro, não respeita mais pai, não respeita quem criou, não respeita ninguém.

E assim como cai do ônibus na narrativa do teste ela conta que ao decidir casar com o namorado, seis anos mais velho que ela, ela ouve o que não queria, que estava muito velha para ele que ainda queria ter filhos que ela não poderia lhe dar.

Ele olhou pra mim e disse assim: olha, eu quero me casar com uma menina nova agora, porque eu quero ter filho e você está muito velha. E ele era só 6 anos mais velho do que eu! Sabe o que eu fiz? Falei pra ele que pra mim ele morreu, e tirei ele da minha cabeça.

Ela estava envolvida abnegadamente com os cuidados com a família, um pai de 100 anos e uma mãe de 94, depois de ter passado a vida cuidando de outros familiares. Ela tenta lutar e aceita misticamente as situações da vida esquecendo-se de si mesma. D Dede diz não sentir falta de sexo. Ela foge do assunto se amparando na dedicação à família. Na última resposta ao questionário do teste, que se refere ao que ela faria se tivesse que participar da cena composta, ela diz:

Socorrer ou chamar alguém para prestar socorro.

Trata-se assim de um imaginário com traços de heroísmo e de misticismo, sendo, portanto um imaginário com ESTRUTURA MÍSTICA IMPURA.

CAPÍTULO 6 – QUADRO SÍNTESE COM OS DADOS CONTIDOS NOS SEIS