• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 2: METODOLOGIA DA PESQUISA

2.4 Instrumentos de pesquisa

2.4.5 Protocolo verbal

Ao realizar um estudo como este, o qual tem por objetivo investigar de uma maneira mais aprofundada determinados aspectos da habilidade de leitura, um pesquisador deve ser cauteloso no que diz respeito à fonte dos dados, bem como os instrumentos utilizados para a coleta dos mesmos. É de suma importância, para a pesquisa, que se encontrem meios de registrar momentos diversos do processo de leitura, ou seja, a análise do produto final (como, por exemplo, as respostas dos alunos em um exercício de compreensão de texto) não é suficiente para fornecer subsídios para as respostas às perguntas que norteiam a pesquisa. Neste estudo, optei pela técnica do protocolo (ou relato) verbal como principal instrumento de elicitação de dados durante a segunda fase da pesquisa, pois técnicas introspectivas tais como os protocolos podem fornecer ricas descrições e insights sobre aprendizes em sua individualidade (CHAMOT, 2002). Sendo assim, o principal objetivo da implementação desse

instrumento foi registrar pensamentos e reações dos alunos durante o desenvolvimento de atividades de leitura em diversos momentos do processo, mais especificamente ao final de cada etapa da fase de intervenção.

Os protocolos verbais foram introduzidos na pesquisa qualitativa através dos estudos da Psicologia, na década de 80, como uma técnica para revelar os processos mentais (CAVALCANTI E ZANOTTO, 1994). No entanto, foi somente a partir do fortalecimento da corrente cognitivista como um paradigma que os protocolos verbais se firmaram como a principal fonte de dados para a pesquisa cognitiva (ERICSSON E SIMON, 1984). Desde então, o uso de tal técnica tem se expandido, indo além dos limites da psicologia cognitiva, e tem sido adotada pela área da Lingüística Aplicada, na qual os protocolos tornaram-se muito importantes, principalmente nas investigações acerca da leitura em LE. Aliás, de acordo com Cavalcanti (1989) e Paschoal (1988), a pesquisa sobre leitura constitui o principal campo de investigação no qual os protocolos verbais são usados.

Essa técnica qualitativa de coleta de dados consiste em gravar a externalização verbal do pensamento durante uma atividade (ERICSSON E SIMON, 1984), objetivando, assim, a observação das etapas que caracterizam o processo mental da atividade em questão. Acredita- se que a observação e a análise da verbalização espontânea do indivíduo possam fornecer informações sobre como o cérebro executa o processamento de informações durante a realização de uma tarefa como a da leitura, por exemplo. Ainda de acordo com Ericsson e Simon (op. cit.), o ser humano é capaz de externalizar seus processos mentais enquanto há informação em seu foco de atenção. Quando isso é feito de maneira consciente, os autores consideram que o indivíduo está “pensando alto”, o que nos possibilita definir os protocolos como relatos verbais dos processos mentais conscientes de uma pessoa.

Há que se ressaltar, no entanto, que, por muitos anos, pesquisadores debateram os méritos de dados de relato verbal como um instrumento de pesquisa (FIGUEIREDO, 2003).

Uma das críticas ao uso dos protocolos verbais está centrada no fato de que os relatos verbalizados serviriam, no máximo, como fonte de informação a respeito da maneira como os alunos (ou qualquer outro participante de uma pesquisa) usam aquilo que eles aprenderam, e não como um meio de descrever os sistemas responsáveis pelo desempenho da interlíngua (SELINGER, 1983a). Isso porque muito da aprendizagem de línguas ocorreria no nível inconsciente e, portanto, inacessível a sondagens (FIGUEIREDO, 2003). Além disso, segundo Chamot (2002), os relatos são subjetivos e a sua precisão depende da habilidade dos aprendizes para relatar seus próprios pensamentos e sensações.

Embora haja controvérsias quanto a sua utilização, a técnica do “pensar alto” pode abrir uma janela para os processos do pensamento do aprendiz, revelando suas estratégias, atitudes e proficiência na língua (op. cit.). Cohen (1998, p. 13) se posiciona a esse respeito afirmando que, apesar de toda a crítica ao uso do protocolo verbal como instrumento de pesquisa, essa técnica “tem fornecido numerosos insights sobre as estratégias utilizadas antes, durante e após atividades envolvendo aprendizagem e uso de línguas39”. Além disso, a verbalização do uso de estratégias ajuda o aprendiz a adquirir conhecimento metacognitivo, o qual auxilia na transferência de estratégias usadas anteriormente para a situação corrente, contribuindo, assim, para uma aprendizagem mais autônoma e eficaz (O’MALLEY E CHAMOT, 1994.).

Antes da realização da primeira sessão de protocolo com os IF, fizemos uma breve reunião, fora do horário de aula, durante a qual expliquei, detalhadamente, os procedimentos e objetivos da técnica em questão, uma vez que se tratava de uma atividade desconhecida pelos alunos. Feito tal detalhamento, solicitei aos mesmos que lessem o texto que havia selecionado para aquela ocasião, e verbalizassem qualquer tipo de “obstáculo” encontrado, interrompendo a leitura e mencionando, em voz alta, os pensamentos que lhes viessem à mente durante a

39 No original: “(…) has provided numerous insights about the strategies used before, during, and after tasks

atividade. Esse exercício funcionou como uma espécie de simulação do que efetivamente aconteceria nas sessões posteriores, e serviu como um treinamento para que os alunos se familiarizassem com esse tipo de técnica, o que foi de grande importância para o aproveitamento dos dados coletados posteriormente.

Como já mencionado nesta seção, os protocolos verbais foram utilizados ao longo da fase de intervenção e, assim como as entrevistas, os relatos verbais dos alunos foram todos gravados em áudio e, em seguida, transcritos para análise. As sessões, individuais, feitas com os IF, foram realizadas ao final de cada etapa desta segunda fase da pesquisa, com duração aproximada de 20 a 30 minutos cada, todavia não houve restrições ou imposições de tempo para sua realização. Visto que o objetivo das sessões de protocolo era a obtenção de dados que possibilitassem a verificação das estratégias de leitura utilizadas pelos alunos, bem como do nível de compreensão dos textos lidos, considerei adequada a aplicação dessa técnica ao término de cada etapa de conscientização das EA de leitura. Desse modo, poderia ter acesso à informações mais precisas sobre o aproveitamento ou não das estratégias trabalhadas explicitamente em sala de aula, além de ter uma visão do desenvolvimento dos leitores no que concerne ao nível de compreensão de leitura na língua inglesa. Durante as sessões, realizadas em uma sala da biblioteca da escola, fora do horário de aula, o aluno era requisitado (e encorajado) a verbalizar seus pensamentos, mencionando não somente os obstáculos e dificuldades que estariam causando interrupções na leitura, mas também os recursos por ele utilizados para solucionar os problemas de compreensão.

É importante ressaltar que os protocolos verbais produzidos pelos IF ao longo de toda a fase de intervenção constituem a principal fonte de informação (DP) sobre as estratégias utilizadas pelos alunos durante uma leitura em inglês.