PARTE II DA FASE PÓS-CONTENCIOSA DO PROCESSO POR INCUMPRIMENTO E DOS
1.2. O caso vertente: Comissão c Portugal
2.2.2. Qual o acórdão a que o Estado-membro deve dar cumprimento?
Sobre o primeiro argumento, começemos por referir que a interpretação do Advogado-Geral parece dizer mais respeito ao art. 260.º, n.º 2 TFUE, do que ao n.º 1 do mesmo preceito. Isto porque o n.º1 versa sobre o 1.º acórdão de incumprimento, proferido no âmbito do 1.º processo iniciado de acordo com o art. 258.º, n.º 1 TFUE ou, acrescentemos, no caso dos processos por incumprimento com regime derrogatório de tal fase, dos arts. 108.º, n.º 2, 114.º, n.º 9 e 348.º, 2.º parágrafo, todos do TFUE (como aliás o Advogado-Geral bem refere, pelo menos quanto aos arts. 108.º, n.º 2 e 348.º,
460 Idem, parágrafo n.º 82.
461 No mesmo sentido se pronuncia PÅL WENNERÅS, Making an effective..., p.88, referindo que a
redação e objetivos do art. 260.º, n.º 2 TFUE acomodam a possibilidade de a Comissão iniciar uma 3.ª ação por incumprimento ao abrigo dessa disposição. DIDIER BLANC (Ombres et lumières..., pp. 297- 298) mostra-se também a favor da propositura de uma 3ª ação ao abrigo do art. 260.º, n.º 2 TFUE, por considerar esta disposição lex specialis por comparação ao art. 258.º TFUE, que ao mesmo tempo melhor se insere na evolução de incremento sancionatórios e de simplificação processual, ao mesmo tempo que defende não que, na senda das Conclusões do Advogado-Geral N. Jääskinen, entende não ser aplicável ao processo por incumprimento do art. 260.º TFEU (enquanto via especial de execução) o princípio do ne bis idem, ao mesmo tempo que entende não se violar o princípio do caso julgado por o fracasso da execução de um acórdão sancionatório em 2.º grau deslocar a questão do objeto declarado no 1.º acórdão do art. 258.º. Por fim, entende também este autor não se encontrarem violados os direitos de defesa dos Estados-membros, por tais situações evidenciarem uma má-fé persistente do Estado-membro infrator, a qual põe em causa o princípio da cooperação leal, assim como a aplicação uniforme do Direito da União.
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2.º parágrafo), podendo ainda incluir o processo por incumprimento diferenciado do art. 271.º, al. a) TFUE e o processo por incumprimento especial por défices excessivos (quer ao abrigo do art. 126.º TFUE, quer nos casos do art. 8.º do Tratado Orçamental) 462-463.
Relativamente ao n.º 2 do art. 260.º TFUE, este é que diz respeito a um 2.º acórdão que manda executar o 1.º acórdão de incumprimento, sendo assim a possível sede normativa para a propositura de uma terceira ação com vista ao proferimento de um 3.º acórdão de incumprimento (cujo processo seguiria o regime do 2.º processo por incumprimento) que executa o 2.º e 1.º acórdãos. Este preceito (mais especificamente o 2.º parágrafo do n.º 2 do art. 260.º TFUE) é que poderia ser interpretado no sentido de não referir qual o acórdão do TJ que deve ser concretamente executado, por apresentar as expressões “medidas necessárias à execução do acórdão do Tribunal” e “seu
acórdão”. Uma interpretação mais lata deste preceito (e não do n.º1 do art.
260.º TFUE) é que poderia permitir a propositura de uma 3.ª ação para execução de um acórdão de incumprimento anterior do TJ, independentemente de se tratar do 1.º acórdão (proferido no âmbito do processo iniciado ao abrigo do art. 258.º TFUE ou dos arts. 108.º, n.º 2, 114.º, n.º 9 e 348.º, 2.º parágrafo, 271.º, al. a) 126.º, todos do TFUE, e ainda do art. 8.º do Tratado Orçamental) ou do 2.º acórdão (o acórdão proferido ao abrigo do art. 260.º, n.º2 TFUE e que manda executar o 1.º acórdão). No entanto, uma interpretação sistemática do artigo parece não acompanhar tal posição. Com efeito, o art. 260.º, n.º1 TFUE respeita ao proferimento de um 1.º acórdão de incumprimento, quer porque vem na senda do processo proposto segundo os arts. 258.º e 259.º TFUE (se bem que esse não é o fator decisivo, uma vez que já vimos que também abrange os processos que derrogam tal
462 Sobre estes regimes, vide respetivamentes os pontos 3.4., 3.5. e 3.6., 3.3. e 3.7. da Parte I, supra. 463 PÅL WENNERÅS (Making an effective use..., p. 81) defende igualmente que o âmbito de aplicação
do art. 260.º, n.º 1 TFUE não se restringe aos acórdãos proferidos em processos por incumprimento iniciados ao abrigo do art. 258.º TFUE, mas também nos casos de processos por incumprimento com regime derrogatório da fase pré-contenciosa. O autor defende ainda (pp. 81-83) defende ainda a inclusão dos acórdãos prejudiciais do TJ no âmbito do art. 260.º, n.º 1 TFUE, o que não acompanhamos, sem prejuízo de tais acórdãos poderem formar a base de um futuro processo por incumprimento declarativo. ALICJA SIKORA (Financial penalties..., pp. 327-328) expressa posição coincidente com a nossa.
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fase), quer porque, como o próprio Advogado-Geral admite464, tem como fim
“declarar verificado que um Estado-membro não cumpriu qualquer das obrigações que lhe incumbem por força dos Tratados”. Ou seja, é uma decisão
declarativa, não uma decisão condenatória/sancionatória (como a do 2.º acórdão) e que declara pela 1.ª vez qual o incumprimento em causa, tendo por base um alegado incumprimento material (apresentado pela Comissão ou por um Estado-membro) e não um incumprimento objetivo e formal já previamente declarado (que corresponderia à parte decisória de um acórdão anterior). Em conclusão, o art. 260.º, n.º2 TFUE não dirá respeito a qualquer acórdão do TJ, mas antes ao acórdão proferido segundo o número anterior, que corresponde ao 1.º acórdão de incumprimento. Como argumento literal, veja-se também que o n.º 2 fala em “execução do acórdão do tribunal” e não em “execução de um acórdão do tribunal” (ênfases nossos), dizendo respeito a uma decisão bastante concreta – a do número anterior. Assim, o n.º 2 parece cingir-se ao proferimento de um acórdão sobre um primeiro acórdão de incumprimento declarativo (ou seja, o proferimento de um 2.º acórdão de incumprimento, este sancionatório) e não a um acórdão sobre um acórdão sobre um outro acórdão (i.e., um 3.º acórdão de incumprimento). Do exposto resulta que não se pode extrair a existência de um princípio relativo à admissibilidade de um processo por incumprimento sancionatório sobre a execução de acórdãos de incumprimento já de si também condenatórios/sancionatórios (independentemente de serem proferidos no âmbito de uma primeira ou segunda ação de incumprimento).
Concluindo: o art. 260.º, n.º 2 TFUE parece dizer apenas respeito ao proferimento de um 2.º acórdão de incumprimento relativo à execução de um 1.º acórdão declarativo de incumprimento, proferido ao abrigo do art. 260.º, n.º 1 TFUE (quer o mesmo venha no seguimento do procedimento descrito nos arts. 258.º e 259.º TFUE ou dos arts. 108.º, n.º 2, 114.º, n.º 9 e 348.º, 2.º parágrafo, 271.º, al. a) 126.º, todos do TFUE, e ainda do art. 8.º do Tratado Orçamental). Assim, à partida, parece não fazer sentido admitir a propositura
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de uma 3.ª ação que siga o mesmo regime da 2.ª ação (i.e., o regime do art. 260.º, n.º2 TFUE). Mas analisemos os restantes argumentos também.