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EDUCAÇÃO SUPERIOR TOTAL

3.3 QUALIDADE EM CONTEXTOS EMERGENTES INTERNACIONALIZADOS

Contextos emergentes são configurações em construção na educação superior observadas em sociedades contemporâneas e que convivem em tensão com concepções pré-existentes, refletoras de tendências históricas. (MOROSINI, 2014, p. 386).

Discutir contextos emergentes113 inclui colocar em pauta o papel das universidades diante de mundo globalizado e de uma educação internacionalizada. As IES e as sociedades em que elas estão inseridas vivenciam um processo de transformação global que atinge as especificidades do local. “Se a ES tem um papel a desempenhar no seu mandato de gerar e disseminar conhecimento para a sociedade como um todo, este deveria ser o de servir a um bem comum, em uma época em que é difícil definir o que é ‘bem’ e ‘comum’.” (ESCRIGAS, 2009, p. 7). Esse cenário representa as tensões no campo dos paradigmas que envolvem a ES no Brasil e no mundo.

Santos (2009, p. 45) afirma que “[a] globalização neoliberal implica a erosão de

projetos nacionais. A globalização contra-hegemônica da universidade como bem público [...] defende a ideia de projetos nacionais. Esses projetos, entretanto, são concebidos de uma forma não nacionalista, não autárquica”. Sem projetos nacionais, o paradigma do crescimento

112 Entende-se por variável qualquer descoberta que pode ser expressa como mais que um valor ou em vários valores e categorias. A variável proxy compreende uma “[...] medição indireta da variável que o investigador pretende estudar. É usada quando o objeto de estudo é difícil de medir ou de observar” (DICIONÁRIO DE VARIÁVEIS, 2015, sem paginação). Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/15886719/Dicionario-de-tipos- de-variaveis#scribd>.

113 Cabe lembrar o conceito de contexto emergente apresentado nas discussões introdutórias: “[...] configurações que são observadas em sociedades contemporâneas e que convivem em tensão com concepções pré-existentes, refletindo as tendências históricas e emergentes” (RIES, 2013 apud MOROSINI, 2014, p. 386). Recomendo leitura da figura 1 para maiores esclarecimentos sobre essa temática.

econômico vai continuar a alocar e distribuir recursos que podem impulsionar o fator econômico. Este se apoia

[...] em primeiro lugar, nos altos níveis de consumo por parte de uma

minoria cada vez menor, cujos níveis de renda continuam a crescer – são os

mais ricos do mundo – e, em segundo lugar, em maior produtividade (por

unidade de produto e por unidade de produtor), a qual está diretamente relacionada à globalização econômica neoliberal, levando a uma redistribuição de riqueza cada vez mais deficiente, feita durante e com o resultado desse crescimento. (VALLS, 2009, p. 47).

Cabe, então, ressignificar a função crucial da ES e definir com clareza o caminho a ser seguido em mundo repleto de epistemologias contraditórias. Para o autor, a ES precisa ter por objetivo a construção de um paradigma que não seja o de crescimento econômico. Seria necessário adotar uma “[...] era intangível e imaterial de conhecimento, equanimidade e solidariedade na utilização e distribuição de recursos; dois objetivos vinculados de forma inextricável” (p. 48).

Morosini (2011, p. 94) entende que a globalização da ES abrange questões complexas a partir de “[...] uma diversidade de termos relacionados, como mundialização, internacionalização da ES, cooperação internacional, que, similar a outros fatos sociais, sofre interferência de tempo e espaço”. Para esse cenário, a autora cita três dimensões: a internacional, a educação internacional e a internacionalização. A primeira faz-se presente no século XX, sendo uma etapa mais incidental do que planejada; a segunda trata de uma atividade organizada, tendo como base as razões políticas e segurança nacional; e por fim, a

terceira que emergiu após a guerra fria, como um “[...] processo estratégico ligado à globalização e à regionalização das sociedades e seu impacto na ES” (p. 94).

Em outro estudo, Morosini (2012) apresenta indicadores de internacionalização universitária: transnacional, nacional, institucional. A primeira dimensão contempla maior amplitude da tipologia. Isso significa que exigem complexas abrangências frente à soberania dos estados envolvidos. A dimensão nacional tem como enfoque a pesquisa que possibilita uma comparabilidade de qualidade entre as IES internacionais, por meio do ensino (centraliza-se nas características dos estudantes e do desempenho); da investigação (baseia-se nos estudantes e nos docentes com vistas à formação de novos pesquisadores e nas atividades de orientação de doutorado, financiamento e produtividade); e a terceira trata dos recursos (estudantes por docente, estudantes por não docente, docentes por funcionário não docente; despesa com estudante e recurso material por estudante). Ver na figura 18 uma síntese desses conceitos:

Figura 18 – Indicadores de Internacionalização Universitária

O mapa clarifica as inter-relações existentes entre cada tipo de indicador. Destaco que a dimensão institucional caracteriza-se, ainda, por

[...] indicadores de redes que têm como foco preferencial a pesquisa. Tal especificidade é explicável, pois se parte do princípio que uma instituição universitária tem como principal função a produção do conhecimento, via investigação. E, para a produção do conhecimento o processo de internacionalização é imprescindível e vem imbricado ao amadurecimento do conhecimento com base em descobertas e reflexões anteriores, realizadas em qualquer parte do planeta e dissiminado entre as IES. [...] Os

indicadores que têm foco na instituição [...] estão ligados à gestão e podem

ser divididos em indicadores que avaliam a internacionalização universitária na instituição como um todo – visão total e indicadores que avaliam um foco da instituição universitária – visão pontual. (MOROSINI, 2012, p. 36-41 grifo nosso).

Uma das conclusões de Morosini (2012) após o estudo aponta que a estratégia de internacionalização incorpora abordagens inovadoras para o desenvolvimento do currículo, do apoio ao estudante e de mecanismos de iniciativas voltadas à formação acadêmica. Além disso, a relação entre internacionalização e qualidade da ES não se evidenciou com clareza, ficando ainda mais complexa quando associada aos desafios da ES neste século. A ideia de qualidade compreendida, aqui, respalda-se em considerar o estudante como um cidadão de mundo que

[...] defende e propaga os ideais de um mundo sustentável – um mundo justo, equitativo e pacífico no qual as pessoas se preocupam com o meio ambiente para contribuir a equidade intergeracional; leva em consideração o contexto social, econômico e o meio ambiente e configura o currículo como o programa para refletir essas condições específicas. (MOROSINI, 2009, p. 173).

Frente a essas questões, cabe destacar uma pesquisa de Morosini e Nascimento (2015) acerca da aprendizagem na ES em contextos emergentes internacionalizados que aborda as inter-relações entre a apropriação do conhecimento (aprendizagem significativa) em currículos internacionalizados e redes colaborativas a partir de uma qualidade compreendida na dimensão equidade.

As autoras sinalizam que a qualidade da ES dentro desse contexto está fundada pela internacionalização, principalmente por intercâmbios estudantis e docentes, currículos e estágios mais aprimorados por meio das redes. Taylor (2009) retrata dois impulsos que determinam a natureza dos currículos dentro da perspectiva aqui abordada.

O primeiro impulso tem como foco promover nos estudantes uma aprendizagem para a efetividade (eficiência e eficácia). As “coisas” com menos custos e em um mundo

competitivo, tendo na sua força de trabalho a oportunidade de conquistar “bons” empregos e melhores salários. Essa dinâmica aumenta a demanda por uma educação que as IES possam oferecer. No segundo impulso, os currículos adotam a concepção de

[...] um entendimento do desenvolvimento humano e social [...], no qual o questionamento científico e acadêmico não necessita ser objetivo. Ao invés disso, esse questionamento também deveria possibilitar a visão e a imaginação; criar elos com o espiritual, emocional e ecológico; abraçar a incerteza e a possibilidade de alternativas; e abranger uma pluralidade de pontos de vistas. (TAYLOR, 2009, p. 54).

A crescente internacionalização no cenário globalizado e as mudanças tecnológicas têm corroborado para um currículo marcado pela efetividade descrito no primeiro impulso de Taylor (2009). A ênfase nesse tipo de ES tem feito acender a volatilidade dos processos do mercado de trabalho, dando origem a novas exigências que a concepção econômica não consegue atingir.

Dentro de outra proposição, torna-se relevante apresentar os planos em que a internacionalização pode ser analisada: plano do sistema de ES e o plano da instituição universitária. “Em termos de compreensão da internacionalização da educação, esses planos estão interconectados porque as instituições estão alocadas em um país, [...] que regula, avalia e supervisiona a ES” (MOROSINI, 2011, p. 94).

A internacionalização no plano dos sistemas adota dois modelos: Cooperação Internacional Tradicional (CIT) e Cooperação Internacional Horizontal (CIH). Ver figura 19 com a caracterização de ambos.

A internacionalização por sistemas na análise do modelo CIT em vez de “[...] estimular o desenvolvimento de capacidades locais na criação e difusão de conhecimento e estender a possibilidade de desenvolvimento com equidade, bloqueou essas possibilidades,

fortaleceu a privatização, a desigualdade e o atraso em ES e pesquisa científica”

(DIDRIKSSON, 2009, p. 89). Em contrapartida, o tipo de análise CIH permite

[...] a implementação de projetos e estratégias sustentáveis de desenvolvimento humano que visam reduzir o vácuo cognitivo entre setores, instituições e países. Isso leva a mudanças nas estruturas institucionais e na natureza das funções básicas das IES. Outras mudanças são ocasionadas pela implementação de novas maneiras para que elas efetuem cooperação internacional, estabeleçam redes e criem vínculos com variados setores sociais e econômicos, com os quais não se imaginava possível colaborar há alguns anos. (HERRERA, 2009, p. 41).

Figura 19 – Internacionalização na Educação Superior – Tipos de Análise

Fonte: Autora a partir de Morosini (2011).

A distinção entre os tipos de cooperação clarifica a compreensão das inter- relações que sustentam o processo de internacionalização, bem como das mais variadas epistemologias presentes no campo da educação. Nessa direção, internacionalizar a ES seria um caminho à cooperação internacional e ao desenvolvimento da equidade social, dando à educação o status de bem público.

Retomando o plano da internacionalização na perspectiva institucional, Morosini

(2011, p. 96) retrata os modelos central e periférico. O primeiro congrega “[...] uma dimensão

internacional, intercultural ou global aos objetivos, funções e organização da educação [...]”. O segundo apresenta atividades internacionais em alguns setores da IES.

Dada o enredamento e a diversidade dos sistemas, bem como os modelos

possíveis em uma sociedade globalizada, “[...] a ES deveria preparar a humanidade a lidar

com questões contemporâneas que, na sua complexidade, representam claras ameaças a

modos sustentáveis de ser” (BAWDEN, 2009, p. 11).

O espaço da ES deve, assim, incrementar a cultura global entrelaçada a uma formação cidadã aberta e de inclusão social e científica, sendo pertinente perguntar: uma formação voltada à cidadania em um tempo globalizado atende a que valores? Essa discussão irá permear a próxima seção que tematizará sobre a ES, a formação universitária cidadã e de qualidade.