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Rama: a moral e o alvo

“Dónde el error?”

3.4 Rama: a moral e o alvo

À medida que avançamos na leitura do Diario, podemos ter uma idéia mais precisa do quanto Rama realmente sofria com o peso de tais rejeições. Talvez, se possa pensar aqui na presença um tanto quanto obscura do medo do outro. A questão convoca Kant. Para o filósofo alemão, o homem não deve ser visto ou tratado simplesmente como um meio. Se assim o for, só poderemos reter dele uma faceta, quer dizer, uma equivalência com um determinado preço. Isso significa que, para Kant, o homem deve ser visto ao mesmo tempo como um fim.472 De fato, estes questionamentos clássicos de Kant se tornaram problemas de ordem prática na vida de Rama. Nesse quadro, o mesmo Kant observa que:

Na realidade, é absolutamente impossível encontrar na experiência com perfeita certeza um único caso em que a máxima de uma ação, de resto conforme ao dever, se tenha baseado puramente em motivos morais e na representação do dever. Acontece por vezes na verdade que, apesar do mais agudo exame de consciência, não possamos encontrar nada, fora do motivo moral do dever, que pudesse ser suficientemente forte para nos impelir a tal ou tal boa ação ou a tal grande sacrifício. Mas daqui não se pode concluir com segurança que não tenha sido um impulso secreto do amor-próprio, oculto sob a simples capa daquela idéia, a verdadeira causa determinante da vontade. Gostamos de lisonjear-nos então com um móbil mais nobre que falsamente nos arrogamos; mas em realidade, mesmo pelo exame mais esforçado, nunca podemos penetrar completamente até aos móbiles secretos dos nossos atos, porque, quando se fala de valor

470

MONTAIGNE, M., Op. cit., 1962, p. 312. 471

RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 124. 472

KANT, Immanuel. “Fundamentação da metafísica dos costumes”. In: Os Pensadores. Textos selecionados por Marilena Chauí; traduções de Tânia Maria Bernkopf, Paulo Quintela, Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1980, passim.

moral, não é das ações visíveis que se trata, mas dos seus princípios íntimos que se não vêem.473

A preocupação com a questão moral no Diario avança em várias frentes, chegando inclusive ao marketing político da Venezuela. Em um “pintoresco diálogo” com o amigo e desenhista gráfico argentino Juan Fresán,474 Rama ficara sabendo da imensa dificuldade encontrada pelos experts em publicidade para criar a imagem de Piñerúa Ordaz475 – o candidato da AD - Ação Democrática. Nessa construção de artifícios, valia (e vale) praticamente tudo: desde conferir “vida” a um sorriso até suscitar a “verdade” de um olhar. Em síntese, o que estava em jogo era a forja de uma “figura” como um todo:

Este modo planificado de forjar el candidato, “haciéndole una figura”, produce vértigo y horror de nuestra civilización. Conozco lo que Jacobo Borges ha venido haciendo de Teodoro Petkoff, para transformarlo en el Robert Redford de la política venezolana y lo que antes hizo con José Vicente Rangel, sugiriéndolo, por la vestidura y posición del cuerpo, como un símil del santón popular José Gegorio Hernández. Se trata de vender un producto: no hay ya ingenuidad romántica, salvo en los grupos de izquierda que son, a la vez, más puros y más arcaicos. La disociación entre Idea, carácter, cultura, doctrinas, proyectos, por un lado y aspecto-discursos-imagen, por outra, es propia de nuestro tiempo y patentiza su estructura compleja, artificial y fraudulenta. Es el fin de toda moral. 476 (grifos meus)

Rama aprofundou e aguçou a crítica à história presente. Não obstante, ele não encontrava motivos para seguir vivendo nessa luta constante que estava sendo a sua vida.477 A razão da gravidade - apontada no cenário político – ao ser transposta para o campo literário e cultural, resulta de sua aversão ao comportamento de alguns intelectuais, particularmente os intelectuais chilenos. Na verdade, essa aversão resulta de uma mudança de idéia em relação a esses mesmos intelectuais. A ótica do exílio parece ter sido aí decisiva. Rama resistia em aceitar que o exílio pudesse deformar o caráter de um intelectual, mas a realidade insistia em fazer oposição às suas convicções. A crítica aos chilenos não poderia ser mais incisiva:

473

KANT, Immanuel, Op. cit., 1980, p. 119. 474

Fresán foi o responsável pelo desenho da Biblioteca Ayacucho – exilado na Venezuela por aqueles anos. 475

Luis Piñerúa Ordaz concorreu a presidência da república em dezembro de1978, mas perdeu as eleições para o candidato social-cristão Luis Herrera Campins.

476

RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 71. 477

Quizás por percibirlos ahora en el exílio, sueltos, separados de su medio, sumergidos en outro distinto. Ahora me parecen “flojos”, bastante mal preparados intelectualmente, algo simples y cerradamente nacionalistas, con un horizonte acortado, frecuentemente reducidos a debates nimios como de pátio de vencindad y muy a menudo dotados de falsa cordialidad, como de un sistema defensivo (ofensivo) basado en la simpatia, tras del cual está agazapado un oportunismo primário. La tragedia política ha acentuado alguna de estas “imposibilidades” que diria Borges, pero los ha endiosado haciéndoles perder la timidez: entre otros exiliados asombra el desinterés chileno por toda otra tragedia que no sea la suya y su evidente voluntad de no asociarse con otros pueblos en reclamaciones dramáticas que pudieron empañar su papel protagónico. Una suerte de arrogancia portaliana, sólo que transportada ahora a la izquierda. 478

O que emerge desse balanço – que, de certa forma resulta numa posição acerca do “nacional” - é um incômodo estranhamento: Rama argumenta que, apesar de ter estado diversas vezes no Chile, não havia percebido nada parecido com o que decidiu, então, registrar no Diario. Sendo assim, interrompera a anotação deixando na forma de enigma uma pergunta que, mesmo a posteriori, permaneceria em suspenso: “Cambiaron ellos o cambie yo?”.479

Ora, para além de quem mudou ou não, a questão pode ser colocada em termos do progresso do livre-pensar:

Não se pode ilustrar melhor a diferença entre o livre-pensar de ontem e o de hoje do que recordando aquela frase que exigiu toda a intrepidez do século passado para ser compreendida e enunciada, mas que, medida pelo discernimento atual, reduz-se a uma involuntária ingenuidade – refiro-me a frase de Voltaire: “Croyez-moi, mona mi, l‟ erreur aussi a son mérite” [Acredite, meu amigo, também o erro tem seu mérito]. 480

Fica evidente, assim, mais uma vez, o diferencial que o Diario traz ao pensamento e à obra de Rama. Temos aí um movimento vivo de seu livre pensar atuando em várias frentes, seja em relação a si ou ao outro. Rama queria e sentia a necessidade de distinguir-se da postura assumida por esses intelectuais chilenos.

Se houve um amigo dos tempos uruguaios com o qual Rama conseguiu manter um vínculo mais estável, este foi Carlos Martínez Moreno. Embora tenha conquistado um respeitável reconhecimento como crítico teatral vinculado ao semanário Brecha, Martínez

478

RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 71. 479

Id., Ibid., p. 72. 480

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano II. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 18.

Moreno foi escritor, docente, além de famoso advogado. Desde a juventude, Martínez Moreno esteve muito próximo a Rama e o Diario vem precisamente homologar essa amizade duradoura. Em anotação de 06 de fevereiro de 1978, Rama não hesitou em traçar uma imagem muito particular do amigo. Embora a conversa tenha acontecido em Caracas, tudo se voltava para a presença, quase sempre, perturbadora do Uruguai:

Carlos Martínez Moreno es una portentosa colección de historias a cual más macabra o irracional sobre la represión militar, las que cuenta con toda precisión (fechas, nombres, articulación narrativa) y con una gozoza pasión literaria: son casos del código penal en la boca de un gran penalista, que me hacen pensar en Flaubert y que C.M.M. maneja tanto para informar de la dictadura militar como para construir su literatura. 481

A observação não poderia ser mais precisa: entramos no tema daquela que, talvez, seja a obra mais polêmica de Martínez Moreno: El color que el infierno me

escondiera. A obra foi publicada pela primeira vez no México, em 1981, e, no Uruguai,

por motivos óbvios, só apareceu em 1986. O livro trata dos anos trágicos da guerrilha Tupamara e cada capítulo vem acompanhado de epígrafes dos versos de Dante em sua famosa descida ao inferno. Mas, o inferno, nesse caso, se vive mesmo na própria terra e aparece carregado de perplexidades. Nesse sentido, um dos temas importantes do livro de Martínez Moreno gira em torno da execução de um carrasco. O tema se desdobra no problema da justiça que, aliás, é recorrente na obra de Martínez Moreno, podendo inclusive ser apreciado já em sua primeira novela El paredón (1960). Rama salienta ainda que, por sua

condición de abogado defensor dispone de un material asombroso y de un conocimiento interno de lo ocorrido. Y, cosa que me parece tan importante como eso, de una perspectiva equilibrada, atenta y cordial

para sus protagonistas pero a la vez consciente de los errones que permite la mejor restauración de la verdad histórica. 482 (grifos meus)

Por isso, entendo que a consciência dos erros e a restauração de uma verdade histórica foram questões que Rama perseguiu obstinadamente e dividiu esse interesse

481

RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 106. 482

com o amigo.483 Gostaria de resgatar uma reunião de almoço, ocasião em que Martínez Moreno havia relatado à Rama e a seu irmão Carlos o acontecimento que viria a ser a base para o enredo do livro que estava por vir, o já referido El color que el infierno me

escondiera. No centro da “história” deste acontecimento estava Espartaco, uma fazenda

que foi transformada num grande refúgio para o MLN (Tupamaros). As coisas ganharam um rumo inesperado quando, casualmente, chega à fazenda um peão que estava à procura de um animal desgarrado. Ao tomarem conhecimento do ocorrido e após o peão ser detido, uma discussão coletiva é convocada para saber o que será feito do pobre rapaz. Beirando a crueldade, a decisão fora taxativa: era preciso matar o peão. Assim, uma pessoa de Montevidéu é convocada para dar um fim ao caso. O dito “serviço” seria o de ministrar um veneno na corrente sanguínea do peão. Porém, passados alguns meses, os militares descobrem a fazenda e o caso volta à tona. Sob tortura alguns integrantes do movimento confessam, entre outras coisas, o assassinato do peão. Nessas condições, os militares descobrem não somente o lugar onde o corpo estava enterrado como a identidade do executante que, rapidamente, seria preso e condenado.

A partir daí, Rama observa:

Carlitos evoca el precedente de Sartre (Les mains sales) pero yo recuerdo a Dostoiewski (Los demonios, Crimen y castigo) y en general el drama de los movimientos revolucionários debatiendo entre fines y medios (Koestler). Es un tema terrible; en qué consiste una moral revolucionaria y en qué medida la hace, fuera de los precedentes y tradiciones, la circunstancia concreta y límite que se vive, ante la cual la conciencia se opaca por la perspectiva idealista y utópica de los fines? 484

Rama reconhece o emaranhado da questão, mas resiste em aceitar uma opacidade da consciência. O ano é 1978 e a sua permanência na Venezuela se tornaria cada vez mais (absurdamente) inviável. A utopia agora seria deslocada para ser pensada em termos pessoais: Rama e Traba se angustiavam por que viviam fazendo contas, vendendo livros e quadros, angariando recursos necessários, enfim, para garantir um “plano de liberdade” modesto, mínimo. Daí a necessidade de refletir sobre o seu destino. Prestes a deixar Barcelona, ele anotara: “Yo vuelvo a Caracas sin haber resuelto mi destino: vacilo entre la gana ardiente de vivir aqui, libre, leyendo y escribiendo, y la

483

Observo também, nesse elogio de Rama a Martínez Moreno, a presença de uma crítica sutil a um tipo de literatura “engajada” que, infelizmente, carece de uma perspectiva “equilibrada” e “cordial” que Rama aponta e admira nos escritos de Martínez Moreno.

484

inseguridad de perder mis ingresos por mis trabajos en Venezuela y encontrarme pronto en situación insostenible.”.485

Com essas palavras, penso no que Nietzsche definiu em termos de O pior destino de um profeta: “Ele trabalhou vinte anos convencendo seus contemporâneos a respeito de si – e finalmente teve sucesso; mas nesse ínterim também seus oponentes tiveram sucesso: ele já não estava convencido a respeito de si.”.486

Apesar de todas as dúvidas possíveis e imagináveis, Rama parecia ter chegado finalmente a um veredicto: “Pero aunque no cejaré en mi trabajo intelectual siento que el esfuerzo es, ahora, vano. No hay audiencia ni habrá la menor misericordia: es la guerra a muerte.”. 487 Ora, não há como relevar o grau de violência presente nessa espécie de vaticínio do crítico. O que se expressa nesse movimento, portanto, é que

Ninguém acusa sem o pensamento oculto do castigo e da vingança – mesmo quando acusa seu destino, a si próprio. – Queixar-se é sempre acusar, alegrar-se é sempre louvar: podemos fazer uma coisa ou outra, inevitavelmente responsabilizamos alguém. 488