Duelos entre experiências
2.4 Rama e Gide: o compromisso de sinceridade do escritor
O que nos mata não é o que calamos, como escreveu alguém; é o que dizemos para esconder o que calamos. (Godofredo Filho, poeta baiano. In: Diário íntimo, 11 de maio de 1962)
A inteligência é uma categoria moral. (Theodor Adorno)
311
RAMA, Á., Op. cit., 1991, p. 70. 312
Rama menciona nesse caso o uso refinado de uma violência no teatro de Rafael Barret. 313
Aos vinte anos de idade, André Gide (1869-1951) iniciava uma obra, supostamente, voltada para um autêntico exame de consciência e nitidamente pensada como matéria própria para lidar com as diversas perguntas sem as devidas respostas que o autor trazia à tona com um voraz apetite interior.314 Refiro-me a essa espécie de máquina
de destruir hipocrisias, o exuberante Journal do escritor francês, diário escrito com intermitências 315
entre os anos de 1889 e 1949.
Em resposta a uma amiga que, então, o aconselhava a se dedicar mais ao seu diário, Gide expõe sucintamente a exigência de seu próprio pensamento ao mesmo tempo em que suscita o desafio que é lançar esse olhar sem complacência a si mesmo: “Não há dúvida de que ela tem razão; mas o que faz a qualidade deste diário é precisamente que eu só o escrevo para atender a um apelo íntimo e premido por uma espécie de necessidade interior.”.316
Em fins da década de trinta, uma parte considerável do diário de Gide vem à lume e o escritor passa a ser o primeiro a conseguir - ainda em vida - esse feito.317 Há que
se observar que as suas conquistas não pararam por aí. Na verdade, elas foram muitas, como observa Catherine Millot: “Gide foi o vivo desmentido do lugar-comum que quer que não se possa ter tudo: conheceu o amor com sua mulher, as alegrias da paternidade com uma outra, o prazer com os rapazes.”.318 Ainda, cabe assinalar aquela que, talvez,
seja a sua qualidade maior: Gide conseguiu estabelecer uma relação de cumplicidade com o tempo.319 Não procurou evadir-se do tempo, assim como não quis vencê-lo, tal como
314
Em “Cinco llaves de acceso a Gide” o escritor Michael Tournier ao relatar o encontro de Gide com a sua “hada maligna” chamada anorexia, afirma: “Que tal encuentro sucediera en la antesala de la muerte no es una causalidad, porque Gide, muerto de anorexia, sólo vivió y escribió por “orexia”, palabra que sólo acuñaríamos para él y que no tiene equivalente en francés. De modo grosero podríamos traducirla por apetito, pero ya la teologia antigua recurría a concupiscencia – a la que Bossuet le ha consagrado un tratado - , entendiendo por ello, primero, todo que forma parte del amor a la vida, luego la apetencia carnal y la avidez de ternura y finalmente la curiosidad intelectual y la voluntad de saber, todas ellas condenables, desde el punto de vista de la moral católica.” In: El vuelo del vampiro. Tradução de José Luis Rivas. México: Fondo de Cultura Econômica, 1996, p. 186.
315
A justificativa a respeito dessas intermitências é preciosa. Em uma anotação de 3 de junho de 1893 Gide diz: “Inútil escrever seu diário a cada dia, cada ano; o que importa é que neste momento da vida ele seja muito íntimo e escrupuloso. Se eu parei de escrever, durante um longo tempo, é porque minhas emoções tornaram-se muito complicadas...”. Citado por Carla Milani Damião, Sobre o declínio da sinceridade, p. 105.
316
OLINTO, Antonio. O “journal” de André Gide. Ministério da Educação e Cultura, Departamento de Imprensa Nacional, 1955, p. 7.
317
Mas será somente mais tarde, em 1951, após a morte do escritor, que aparece a publicação integral desses escritos pessoais.
318
MILLOT, Catherine. Gide, Genet, Mishima: inteligência da perversão. Tradução de Procopio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004, p. 15.
319Michel Tournier se refere a essa grandeza de Gide da seguinte forma: “(...) una especie de consustancialidad con el tiempo que está pasando. Al contrario de Proust, que vuelve la espalda al presente para mejor sumergirse en su arqueología familiar, o de Paul Valéry, impacientado por el éxtasis del instante
Rama parece ter pretendido fazer. Portanto, o diário de Gide reflete tanto uma dedicada pesquisa sobre si mesmo quanto requer do leitor a observação paciente de certa composição do “eu” que norteia a idéia moderna de sujeito.
Em seu Diario, Rama anotou uma insinuante comparação entre Gide e Blanco- Fombona. A princípio, estaria em jogo a memória de uma leitura apaixonada da adolescência (Gide) em contraste com a leitura rigorosa do presente (Blanco-Fombona). Mesmo concebendo Gide como o maior egoísta de seu tempo, Rama manteve um profundo respeito pelo escritor francês. A base desse respeito repousava em uma virtude especial: assumir-se verdadeiramente artista. Sendo assim, Rama revelou a sua preferência sem o menor disfarce:
Un par de veces arremete rencorosamente contra el mayor egotista de su tiempo, A. Gide, al que parece no haber leído, sin contar que en general Rufino Blanco Fombona careció de gusto seguro en materia de estética y no llegó a desarrollar una cultura artística. Fue historiador, sociólogo, frustrado hombre de acción, pero supo poco qué es ser un artista. El encuentro de Gide me agito: la resurrección de una apasionante lectura de la adolescencia, en especial justamente sus Diarios. Por ellos intente ser “diarista” de joven y abandone presto (volublemente) el intento.320
Desde a sua primeira edição, o Journal de Gide se transformou não só em um texto de referência para muitos leitores/escritores de diários como, também, em um ponto de inflexão para a literatura ocidental. Discorrendo sobre essa questão, Jacques Lacan aponta o que, em verdade, de agora em diante, pode ser posto em causa também em relação ao Diario de Rama:
O que, no tocante à obra publicada, a crítica produziu por seu recurso à vida privada do escritor permaneceu até hoje, quanto à naturalidade dos resumos críticos, bastante evasivo. Mas esse hábito, ao qual todo protesto em nome de uma decência qualquer só responde lateralmente, gerou, inversamente, uma revolução nos valores literários. Isso, introduzindo num mercado cujos efeitos eram há quatro séculos regulamentados pela técnica da impressão um novo signo de valor: o que chamaremos de as notinhas. O manuscrito, que o impresso havia recalcado na função do inédito, reaparece como parte integrante da obra, com uma função que merece exame.321
eterno, Gide supo involucrar al tiempo en su juego.”. In: TORNIER, Michel. El vuelo del vampiro. Traducción de José Luis Rivas. México: Fonde de Cultura Económica, 1996, p. 201.
320
RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 33. 321
LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 752- 753.
Podemos constatar que além de ter escrito o Journal ao longo de sua vida,322 Gide manteve também o hábito de escrever outros diários paralelos. Assim, isso tanto acontecia no processo de escrita de suas obras como durante as suas viagens mais importantes. O escritor manteve, ainda, outro diário exclusivo para cobrir o período da Segunda Guerra Mundial. Fora isso, mas não menos relevante,
Em suas obras, os próprios personagens possuem diários e algumas narrativas são construídas com base no diário das personagens. Nessa prática de escrita de múltiplos diários, o interessante é notar que não são obras publicadas postumamente, como costumam ser os diários, mas faziam parte da relação de Gide com o leitor, amigos e inimigos.323
Através de seu próprio Diario, Rama recuperava seu interesse por Gide que remontava à sua juventude e ao seu período de formação na cidade de Montevidéu. Vale notar que, com apenas vinte e quatro anos, ele já publicara no Semanário Marcha a sua primeira “nota” sobre o escritor francês.324
A admiração de Rama pelo “artista” 325 se ampliaria, ainda mais, nos anos posteriores. Em 1977, por exemplo, rendendo uma homenagem ao amigo falecido, Carlos Real de Azúa, Rama vivificaria a figura de Gide em seu excêntrico compatriota:
Esa existencia llena de entusiasmos, posiciones y beligerancias, pronto reconvertidas, estoy por decir escurridas, para adquirir una nueva
disponibilidad, sin que esto afectara una raigal conducta moral que
hacía de la función intelectual una ética (por lo cual se le podía emparentar al zigzagueante camino de André Gide y su misma persecución de la autenticidad en mundo cuya opacidad exigía constantes esfuerzos de reconversión y adaptación), contribuyó a desarrollar un pensamiento siempre crítico, forzosamente independiente, cuyo campo de ejecución sólo podía ser el de la oposición: de ahí que sus mejores contribuciones se desarrollen mediante el enfrentamiento con tesis o sistemas, los cuales sometía a nervioso análisis y los invadía de un pensamiento desarticulante y problematizador.326
322
Sem esquecer que esse diário de tempos em tempos recebia acréscimos do seu autor – as chamadas “novas páginas” do diário.
323
DAMIÃO, Carla M., Op. cit., 2006, p. 100. 324
RAMA, Ángel. “André Gide”. In: Marcha, n. 515, 10 de fevereiro de 1950. 325
Gide afirma em seu diário: “Los buenos sentimientos son las tres cuartas partes de las veces, sentimientos de confección. El verdadero artista, conscientemente, sólo viste a la medida”. In: http://gatopardo.blogia.com/2008/012401-diarios-andre-gide.php.
326
RAMA, Ángel. “Carlos Real de Azúa (1916-1977)”. In: Revista Escritura: Teoría y crítica literaria, Año II, n. 3, Caracas: enero/junio de 1977, p. 35.
Vejamos, agora, o significado mais abrangente dessa incansável “busca de autenticidade”, segundo as mordazes palavras do próprio Gide:
Los sentimientos auténticos son extremadamente raros, y la mayoría de los seres humanos se contentan con sentimientos convencionales, que se imaginan experimentar realmente, pero que adoptan sin pensar ni un instante en poner en tela de juicio su autenticidad. Creen experimentar el amor, el deseo, la repugnancia o los celos, y viven de acuerdo con el modelo estándar de humanidad que se nos ha presentado desde la infancia. Sensaciones e ideas forman paquetitos de asociaciones más o menos arbitrarias, a las que los nombres que les damos terminan por prestarles una apariencia de realidad. La admirable máxima de La Rochefoucauld: "Hay personas que jamás se habrían enamorado si no hubieran oído nunca hablar de amor", es aplicable a muchos otros sentimientos; quizás a todos. Hace falta una mente extraordinariamente perspicaz para advertirlo. Y sería un profundo error creer que los seres menos cultos son los más espontáneos y sinceros. Lo normal, por el contrario, es que sean los menos capaces de crítica, lo que más a la merced están del modelo, los más dispuestos, por debilidad o por pereza, a adoptar sentimientos por convención, y a expresarlos con frases hechas, que les ahorran el esfuerzo de buscar otras mas precisas, para deslizarse en ellos adoptando la forma de este caparazón de alquiler.327
É interessante cotejar essa longa citação de Gide, novamente, com o testemunho de Rama sobre o amigo Carlos Real de Azúa. Rama assinalava precisamente que a consciência sempre inquieta de Real de Azúa (re) atualizava de algum modo a
disponibilidade gideana:
Efectivamente, su contribuición crítica rotó en torno de dos ejes animadores: la historia y la cultura, como función de esa misma historia, en circunstancias y sociedades determinadas cuya originalidad defendió ardientemente oponiéndose a la aplicación de rejillas importadas que distorsionaban la realidad en beneficio de un orden ficto, clarificador y útil sólo a la ación. Por lo cual debió elegir una marginalidad operativa que le permitiera comprender el complejo proceso histórico en su intrarrealidad (para usar un término de sus educadores iniciales, de Unamuno a Keyserling y Martínez Estrada), cosa que podía cumplir mejor referiéndose a un pasado lejano visto desde la perspectiva de un puro conocimiento intelectual, que se debía realizarse en el confuso presente. Hablo, es cierto, desde el ángulo de mis discrepâncias políticas, es decir, desde mi percepción del proceso histórico, mucho más anclada en la confianza en los esquemas sociales marxista que la suya, débilmente económica y más instalada en la creencia en el voluntarismo y la originalidad de los hombres como hacedores de ese proceso. Pero también hablo pensando en su misma conducta, que en los años turbulentos de la juventud lo integró al
327
movimiento falangista español, hipnotizado por la personalidad de José Antonio, y dos años después del triunfo franquista lo aparto de esa militancia mediante en libro, España de cerca y de lejos, que parecia dar una réplica paralela al libro publicado por André Gide, Regreso de la URSS. Outra vez la disponibilidad. 328
Postulo que a estimada independência intelectual de Rama – marca indelével de sua existência - pode ser aproximada à noção de disponibilidade gideana. Um traço comum as mantém unidas: uma fuga à escolha ou à “tomada de posição” que não implicasse numa falta de compromisso com a verdade. O objetivo comum das duas disposições consiste na afirmação desse contínuo criar-se a si mesmo. Nesse sentido, quando o sujeito é impelido a escolher ou assumir uma determinada posição se retira dele precisamente a possibilidade de conceber-se como multiplicidade: “Em Gide, a disponiblidade é um esforço mental de não-entrega. Uma resistência a tudo o que possa prender o homem.”.329
Como veremos, no próximo capítulo, a morte aparece como uma oportuna exceção. É preciso esclarecer que, quando penso na independência intelectual e na disponibilidade, estou referindo-me a um valor moral e não somente a uma conduta ligada a uma situação específica. É, pois, uma relação com o outro:
A relação com o outro não pode, portanto, prescindir da felicidade individual que marca toda busca, uma felicidade particular e incomparável que deve se alcançar, que não é nem superior nem inferior, mas uma felicidade particular, presente em todas as etapas do desenvolvimento. Por isso, ao indivíduo, sempre que queira sua felicidade, não deve interpor-se-lhe nenhuma norma no caminho da felicidade a reger essas contraposições, pois a felicidade individual mana de leis próprias, desconhecidas aos demais e, por conseguinte, querermos nos pautar por regras que se coloquem acima de nós é nos tornarmos levianos e apartar-nos de nossos fins. 330
Nesse sentido, tanto a independência intelectual de Rama quanto a
disponibilidade de Gide não podem ser vistas como sinônimos de descompromisso social
e político. Assim, o importante seria estar disponível com aquilo a que o próprio sujeito se obriga e não com aquilo a que esteja obrigado. Como ensinou Nietzsche, um sujeito decididamente não pode e não deve renunciar a si mesmo.
328
RAMA, Ángel. “Carlos Real de Azúa (1916-1977)”. In: Escritura, año, II, n. 3, Caracas, enero/junio de 1977, p. 35-40.
329
OLINTO, A., Op. cit.,1955, p. 24. 330
MELO, Eduardo Rezende. Nietzsche e a justiça: crítica e transvaloração. São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 73.
Esse jogo haverá de ser, assim, uma relação de afirmações individuais em contraposição. Se ele não se pauta por regras únicas, com autoridade superior, Nietzsche deixa claro que isso não implica prescindir de um dever e de uma lei sobre nós, embora não no sentido, regida pelos velhos ideais, mas, sim, com essa consideração da
necessidade da própria confrontação, com a autoridade e sabedoria
indicadas, o que afasta qualquer consideração de “amoralidade” em seu pensamento, tanto assim que o filósofo sustenta que muitas ações que se chamam não-éticas devem ser evitadas e combatidas, como muitas das que se dizem éticas devem ser feitas e fomentadas, mas por razões distintas das que vêm sendo seguidas. 331
Se, para Fombona, o “sal da vida” coincidiria com a “personalidade” de um autor, para Gide - e Rama - ela coincidiria com a sua insubmissão, quer dizer, com a sua incompletude:
La fascinación de los aeropuertos. Es la recuperación íntegra de la disponibilidad. Ahora comienza todo y todo será posible. Voy al Zulia por dos dias, a dictar dos conferencias simplemente. Pero hace meses (desde enero) que no subo a un avión y esta eventualidad aparece como más excitante debido a este largo período sedentario. 332