2.2. Fontes de Vantagem Competitiva e a Resource Based View (RBV)
2.2.2. Recursos e Heterogeneidade
A heterogeneidade na geração de valor econômico está ligada à existência de recursos valiosos e raros (PETERAF, BARNEY, 2003).
Assim, sendo a diferenciação dos recursos uma condição “sine qua non” da RBV (PETERAF, BARNEY, 2003), importa saber o significado desses atributos.
2.2.2.1. Recursos Valiosos
De acordo com Foss (1993) as diferenças na dotação de recursos idiossincráticos (WILLIAMSON, 1989) estariam relacionadas com a heterogeneidade na geração de valor econômico, significando dizer que o valor – nuclear no conceito de vantagem competitiva – é também um atributo dos recursos.
Sendo assim a análise do conceito de valor econômico seria aplicável aos recursos, como primeiro passo para o entendimento da vantagem competitiva na abordagem da RBV (BARNEY, 1991a).
Bowman e Ambrosini (2000), contudo, observam que os textos canônicos da RBV geralmente partem da presunção de recursos valiosos e passam a considerar a questão da heterogeneidade e imobilidade dos recursos. Por consequência, pouca consideração tem sido dada sobre o que faz com que os recursos sejam valiosos.
De igual modo, Kraaijenbrink, Spender e Groen (2010) registram que a imprecisão do conceito de valor dos recursos gera um dos maiores desafios para os autores da RBV, pois, sendo o valor um atributo do recurso (“explanans”), e também um atributo dos produtos e serviços, além da própria medida de diferenciação da vantagem competitiva da empresa (“explanandum”), estaria a RBV incorrendo em tautologia, ratificando as críticas de Priem e Butler (2001a, 2001b) e de Lockett et al (2009).
De fato, os principais autores da RBV deram pouca atenção ao conceito de valor. Barney (1991a) diz que os recursos são valiosos quando possibilitam a uma firma implementar estratégias que melhorem sua eficiência e eficácia, e se eles exploram oportunidades ou neutraliza ameaças (BARNEY, 1991b), numa alusão parcial à estrutura de análise SWOT (SELZNICK, 1957) (CHANDLER, 1962) (ANDREWS, 1971).
Amit e Schoemaker (1993) deram um passo adiante ao definir que o recurso é valioso em relação ao ambiente de um dado mercado, numa referência ao valor como uma variável exógena (BARNEY, 2001), em que pese a posição contrária de Makadok (2001a).
Barney e Clark (2007), ratificando o texto de Barney (1991b) e numa referência à Selznick (1957), Chandler (1962) e Andrews (1971), afirmam que:
Firm attributes may have the other characteristics that could qualify them as sources of competitive advantage (e.g. rarity, inimitability and organizational abilities/processes), but these attributes only become valuable resources when they exploit opportunities or neutralize threats in a firm´s environment. (p.57)
Na sequência, evidenciando a acolhida da definição de valor dada por Brandenburger e Stuart (1996), Barney e Clark (2007) afirmam que: “a value resource enables a firm to increase the economic value it creates by increasing the willingness of customers to pay, decreasing its cost, or both.” (p. 58).
Conforme já ponderado por Kraaijenbrink, Spender e Groen (2010), a imprecisão do conceito de valor dos recursos gera um dos maiores desafios para os autores da RBV, pois, sendo o valor um atributo do recurso (“explanans”), e também um atributo dos produtos e serviços oferecidos aos clientes, além da própria medida de diferenciação da vantagem competitiva da empresa (“explanandum”), estaria a RBV incorrendo em tautologia, o que reforça o argumento de Priem e Butler (2001a, 2001b) e de Lockett et al (2009). Dizem os autores:
If we are to consider the RBV a theory, we must find a way to decouple or deny the tautology. This would require that “value” means something different in the „explanans‟ than in the „explanandum‟ and thus that the value of a firm´s resources and capabilities must be determinable independently of the value of products or services delivered to the firm´s customers. (p. 357).
Por isso, Kraaijenbrink, Spender e Groen (2010) propõem uma noção mais subjetiva e criativa de valor como atributo de recursos. Eles acompanham a posição de Foss, Foss e Klein (2007) para os quais a avaliação prática dos recursos envolve subjetivismo, geração de conhecimento e julgamento empreendedor, o que se dá por meio de uma interação na qual os recursos moldam parcialmente os modelos mentais das pessoas e as potencializam a encontrar o valor nos recursos (FOSS; MAHONEY, 1995).
Pitelis (2009), numa abordagem ampla e subjetiva, propõe uma definição de valor conforme segue: “value is perceived worthiness of a subject matter to a socio-economic agent that is exposed to and/or can make use of the subject matter in question” (p. 1118).
Segundo o autor, tal conceito “…also allows for the possibility that some „subject matters‟ can have intrinsic value even when there is no market and/or someone who is willing to pay for them.” (PITELIS, 2009, p.1118). Mais adiante diz que “…advantages of the
proposed definition include the fact that it does not rely on the idea of „willingness to pay‟, which presupposes the existence of market prices” (p. 1118).
Por este abordagem, o conceito de valor dos recursos estaria acomodado com a noção de mercado incompleto de fatores de recursos (DIERICKX; COOL, 1989), donde se extrai a idéia de que grande parte dos recursos valiosos não é negociável no mercado, mas construídos e acumulados no interior da firma (VASCONCELOS; CYRINO, 2000).
Por fim, a alegação de tautologia do conceito de valor como variável “explanans” e “explanandum” é resolvida por Kraaijenbrink, Spender e Groen (2010) ao proporem que “the value of a firm‟s resources and capabilities at time t = x is considered the explanans (having VRIN resources) and the value at time t = x + 1 is considered the explanandum (SCA)” (p. 357).
Nesta dissertação, com base em Barney e Clark (2007), Pitelis (2009) e Kraaijenbrink, Spender e Groen (2010), consideram-se recursos valiosos aqueles diretamente associados com a geração dos benefícios percebidos pelos clientes e/ou com a diminuição dos custos econômicos da firma, mesmo que não haja relação direta com o mercado de fatores de recurso.
2.2.2.2. Recursos Raros
A segunda propriedade de um recurso como fonte de vantagem competitiva é a sua raridade (WERNERFELT, 1984) (BARNEY, 1991), que consiste em um atributo de escassez (PETERAF, 1993). Vale dizer que o recurso raro é aquele controlado por um pequeno número de empresas concorrentes. São mencionados exemplos de uma companhia com uma “marca poderosa” ou de uma loja de varejo instalada em local privilegiado (JOHNSON; SCHOLES; WHITTINGTON, 2007), ou do capital intelectual de empresas de serviços (PENROSE, 1959). Como competências raras, mencionam-se o gerenciamento de marca e a construção de relações com os clientes (JOHNSON; SCHOLES; WHITTINGTON, 2007).
Conforme Barney e Hersterly (2008), se um recurso “valioso” é comum no mercado, a situação será de “paridade competitiva” já que as condições de heterogeneidade não estarão presentes. Logo, a vantagem competitiva nasce a partir da “raridade”.
Em outros termos, enquanto recursos valiosos são responsáveis pela geração de valor econômico, será a raridade desses recursos valiosos que gerará a diferenciação de valor econômico (BARNEY, CLARK, 2007).
Por outro lado, “Resource scarcity alone is not sufficient to produce rents, unless the definition of scarcity is more narrowly restricted.” (PETERAF; BARNEY, 2003, P. 318). Significa dizer que o recurso pode ser escasso sem criar nenhum valor e nesse caso não será um recurso estratégico. Vale dizer, não há vantagem competitiva sem a raridade, mas este atributo só tem relevância no recurso que gera valor, e quando ambos os atributos conduzem a firma à geração de rendas econômicas.
Portanto, enquanto o valor dos recursos é pressuposto da vantagem competitiva a raridade é a sua condição.
Outros exemplos envolvendo a raridade são mencionados em casos de “acessos preferenciais” ou “contratos exclusivos” com clientes ou fornecedores, especificidades de máquinas e equipamentos que só servem para um determinado processo, cuja replicação ou transferência geram custos muito altos (JOHNSON; SCHOLES; WHITTINGTON, 2007).
Nesse último exemplo, há que ser observado o problema da redundância quanto à raridade dos recursos. É que as capacidades básicas podem se tornar “rigidez básica”, ante a dificuldade de serem mudadas, tornando-se fontes de desvantagem competitiva (JOHNSON; SCHOLES; WHITTINGTON, 2007).
Cabe também observar que a raridade não é um atributo absoluto. Conforme Barney e Clark (2007) “...it may be possible for a small number of firms in an industry to possess a particular valuable resource and still generate a competitive advantage.” (p. 59). No mesmo sentido Kraaijenbrink, Spender e Groen (2010) para os quais “...it is perfetcly possible to generate useful insights about degrees of resource uniqueness” (p. 353).
Em terceiro lugar, o atributo da raridade é também relativizado pela natureza do recurso, como é o caso específico de recursos intangíveis, como o conhecimento (KRAAIJENBRINK; SPENDER; GROEN,2010). Dizem os autores que:
The RBV literature suggests the main difference between knowledge and other types of resources resides in its intangibility. Another characteristic of knowledge and other types of resources resides in its intangibility. Another characteristic ok knowledge, hardly taken into account in the RBV, is its nonrivalrousness - meaning that its deployment by one firm, or for one purpose, does not prevent its redeployment by the same or another firm, or for another purpose (Winter & Szulanski, 2001). The distinction between rivalrous and nonrivalrous resources has axiomatic implications for the RBV (p. 362)
Os autores acrescentam que a lógica do mercado de fatores estratégicos (WERNERFELT, 1984) (BARNEY, 1991) assume que os recursos são escassos e as firmas devem competir pelos melhores recursos. Contudo, em se tratando de conhecimento, os processos de cooperação e co-desenvolvimento têm demonstrado serem efetivos meios estratégicos de obtenção de conhecimento. Dizem Kraaijenbrink et al (2010):
When knowledge increases after deployment, externalities can arise, and sometimes all can benefit from others´aplication of that knowledge. By engaging this distinction between rivalrousness and nonrivalrousness, the RBV ca better capture the fact that many firms nowadays cooperate intensively – while still competing (p. 363).
Portanto, a raridade de recursos valiosos é a função da heterogeneidade, mas a depender do tipo de recursos, a dimensão da raridade não se expressa no recurso por si próprio, mas nos diferentes modos como ele pode ser sociabilizado.
Nesses casos, a heterogeneidade, incluindo valor e raridade, estaria assentada no que Alchian e Demsetz (1973) chamam de direitos de propriedade socialmente reconhecidos. Portanto, “...it is what an individual firm or person is able and allowed to do with a resource that determines much of its value, as Coase (1960), suggested” (KRAAIJENBRINK; SPENDER; GROEN, 2010, p. 365).