2.2. Fontes de Vantagem Competitiva e a Resource Based View (RBV)
2.2.3. Recursos e Imobilidade
A imobilidade das condições de heterogeneidade está ligada aos mecanismos de proteção dos recursos valiosos e raros. Ou seja, tais recursos devem ser protegidos contra a imitação, que pode se apresentar na forma de duplicação direta ou substituição (BARNEY; HESTERLY, 2008)
Vale dizer que a imobilidade se preocupa com a vantagem competitiva sustentável (BARNEY; CLARK, 2007) e focaliza (1) a propriedade da imitabilidade imperfeita dos recursos bem como (2) se a organização está preparada para desenvolver o potencial oferecido por recursos valiosos, raros e imperfeitamente imitáveis.
2.2.3.1 Imitabilidade Imperfeita
De acordo com Barney e Clark (2007) ela ocorre por meio de três mecanismos: (a) condições históricas únicas, (b) ambiguidade causal e (c) complexidade social.
a) Condições históricas únicas
As condições históricas únicas são circunstâncias pelas quais os recursos foram adquiridos e que impedem outra maneira de aquisição à exceção do momento e da circunstância específica em que foi feita (BARNEY, CLARK, 2007).
Essa idéia está associada com a noção do “pioneirismo” e da “dependência do caminho”, esta última definida como a característica do processo cujos eventos iniciais e sua evolução tiveram efeitos relevantes sobre os eventos subseqüentes (BARNEY, 1991).
Com respeito ao pioneirismo, Besanko et al. (2004), elencam pelo menos três maneiras pelas quais as firmas sustentam suas vantagens competitivas.
A primeira é a curva de experiência que tem seu precedente na curva de aprendizado a partir dos trabalhos de Hermann Ebbinghaus (1936). Diz-se que “as empresas com maior experiência cumulativa podem assim lucrativamente fazer ofertas por negócios abaixo das suas rivais, aumentando mais seu volume cumulativo e aumentando sua vantagem em custo” (BESANKO et al, 2004, p. 432).
A segunda maneira diz respeito à incerteza do comprador associada à reputação do vendedor. Besanko et al. (2004), com base em Schamalensse (1982) defendem que “em casos de venda de bens de experiência – cuja qualidade não podem ser avaliadas antes de serem comprados e usados – a reputação de qualidade de uma empresa pode lhe conferir uma significativa vantagem de pioneirismo”.
A terceira maneira apontada por Besanko et al. (2004), para os quais o pioneirismo representa um mecanismo de proteção da vantagem competitiva, ocorre quando os compradores incorrem em custos importantes de troca de fornecedor, por motivos de know- how específico desenvolvido pelo fornecedor ou de padrões específicos do produto ou do serviço associado.
No entanto, de acordo com Besanko et al. (2004), embora as condições históricas sejam consideradas uma barreira à imitação por outro lado, elas podem limitar as oportunidades de crescimento de uma firma.
Os autores também afirmam que a dependência histórica pode ter um efeito reverso do apregoado como mecanismo de proteção da imobilidade, uma vez que a estratégia que levou a empresa ao desempenho superior pode ser viável apenas por um tempo determinado.
b) Ambiguidade causal
A ambiguidade causal (LIPPMAN; RUMELT, 1982) (REED; DeFILLIPPI, 1990) ocorre quando a associação entre os recursos controlados pela firma e a vantagem competitiva sustentável dessa firma não é compreendida ou é compreendida imperfeitamente (BARNEY; CLARK, 2007).
A idéia se prende também à incerteza sobre como imitar uma estratégia bem-sucedida e à própria origem da ambiguidade - se fundada em conhecimento tácito, nascido e desenvolvido a partir das rotinas e capacidades organizacionais (DOSI, NELSON, WINTER, 2000).
Conforme Lippman e Rumelt (1982), para que se configure a imobilidade, as firmas - que possuem determinados recursos e aquelas que não os possuem, mas procuram imitá-los - devem estar diante do mesmo nível de ambiguidade causal.
Barney e Clark (2007) reforçam que, se um firma com vantagem competitiva compreende a associação entre os recursos que controla e suas vantagens, então outras firmas podem também aprender acerca dessa associação, adquirir os recursos necessários e implementar as estratégias relevantes.
No mais, os autores entendem ser recorrente e plausível a existência da ambiguidade causal nas empresas:
The resources controlled by a firm are very complex and interdependent. Often, they are implicit, taken for granted by managers, rather than being subject to explicit analysis. Numerous resources, taken by themselves or in combination with other resources, may yield sustained competitive advantage. (BARNEY; CLARK, 2007, p. 63).
Por outro lado, conforme observam Bowman e Ambrosini (2000) a gestão das empresas, cuja vantagem está assentada em ambiguidade causal se mostra arriscada:
If the senior management of an organization do not know how they generate superior use values, it may inadvertently change something that is critical, e.g. through delayering, downsizing, or the crude imposition of business process reengineering. Similarly, if they are not knowledgeable of sources of past success, and of impediments to future success, it cannot know either what to change, or what to change it to. (p. 7).
Os autores, ademais, salientam que, frente às necessidades de ajustes e mudanças, as causas de mortalidade de empresas podem estar mais relacionadas com a ambiguidade causal do que com aspectos que denominam de “rigidez estrutural ou cultural”.
Besanko et al. (2004), por fim, salientam que “a ambiguidade causal não apenas pode ser um poderoso impedimento à imitação por outras empresas, mas também pode ser uma fonte importante de deseconomias de escala” (p. 429).
Citando Teece (1985), os autores, destacam que a ambiguidade causal pode, por exemplo, impedir a empresa de transferir o modelo de sucesso obtido em um de suas unidades de negócios para outras instalações.
c) Complexidade social
A idéia de complexidade social está associada com as relações interpessoais dos participantes de uma empresa bem como com as relações interpessoais destes com aqueles de seus fornecedores e clientes, envolvendo valores como reputação e confiança (BESANKO et al., 2004) (BARNEY; CLARK, 2007).
A complexidade social é um fenômeno que, embora seja conhecido, extrapola as habilidades das empresas de gerenciá-lo e influenciá-lo ostensivamente (BARNEY; HESTERLY, 2008).
Importante a observação de Barney e Clark (2007) de que a complexidade tecnológica não está incluída na categoria das fontes de recursos imperfeitamente imitáveis, pois embora complexos, os recursos como equipamentos automatizados, robôs, tecnologia de informação, são, por conceito, imitáveis, à medida que podem ser comprados. Por outro lado, ponderam os autores:
[...] the exploitation of physical technology in a firm often involves the use of socially complex firm resources. Several firms may all possess the same physical technology, but only one of these firms may possess the social relations, culture, traditions, etc. to fully exploit this technology in implementing strategies. (p. 65).
A complexidade social é mencionada por Barney (1986b) como mais uma das formas de impedimento à imitação enquanto Johnson, Scholes e Whittington (2007) a consideram uma espécie de ambiguidade causal.
Barney e Clark (2007) deixam claras as diferenças entre essas formas de proteção quando afirmam que na maioria dos casos de complexidade social é possível especificar como tais recursos agregam valor à firma, de modo que não existe ambiguidade envolvendo a associação entre o recurso da firma e a sua vantagem competitiva.
d) Outras formas de impedimento à imitação
Além das formas acima, Rumelt (1984), numa perspectiva econômica neoclássica, abordou o tema do impedimento à imitação por meio da criação dos “isolating mechanisms”, dentre os quais, ao lado das barreiras intangíveis, figuram mecanismos como: (a) restrições legais (patentes, direitos autorais e marcas registradas), (b) acesso superior a insumos ou clientes, além de (c) tamanho de mercado e economias de escalas (BESANKO et al., 2004).
2.2.3.2. Capacidade organizacional
De acordo com Barney e Clark (2007) os processos organizacionais provêm a quarta condição necessária para a realização da vantagem competitiva sustentável.
A questão organizacional está presente em ambas as generalizações que constituem a base da RBV (heterogeneidade e imobilidade) e é explicada pela verificação se a empresa está “organizada” para explorar ao máximo o potencial competitivo de seus recursos (BARNEY; HESTERLY, 2008).
Esse requisito compreende a avaliação das estruturas formais de reporte, os sistemas formais e informais de controle gerencial e até mesmo as políticas de remuneração congruentes com as estratégicas competitivas da empresa.
Esse mecanismo de proteção dos recursos foi reconhecido por Barney (1995) por influência dos trabalhos de Dierickx e Cool (1989) e Amit e Schoemaker (1993) os quais discutiram o papel dos ativos complementares na geração da vantagem competitiva.
recursos (BARNEY, 1986) com a afirmação de que o mercado de recursos é também incompleto, significando reconhecer que existem recursos que não podem sem vendidos ou comprados, mas são construídos e acumulados pelas organizações.
Amit e Schoemaker (1993) defenderam que determinados recursos tornam-se estratégicos quando combinados com outros recursos e capacidades, permitindo que sejam aproveitados em todo o seu potencial para a vantagem competitiva.