CAPÍTULO VI REFLEXÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS
16. Reflexão autocrítica: refletir, partilhar e criar
O objetivo deste trabalho foi analisar em que medida algumas experiências de AC poderiam ou não resolver alguns dos problemas que se foram detetando ao longo das aulas assistidas e também da caracterização efetuada da turma, nomeadamente problemas de autoestima dos alunos, alguma frieza entre estes e os docentes, dotando-os de algumas ferramentas para se sentirem como alunos que acreditam nas suas capacidades, em nada inferiores aos alunos do ensino regular.
As experiências de AC implementadas na turma revelaram-se positivas, situação que pôde ser confirmada na avaliação feita pelos alunos. Esta metodologia promoveu as aprendizagens, enfatizando o papel do outro nas mesmas. Existiram, no entanto, alguns entraves ao seu desenvolvimento, que se passa a descrever:
-A falta de recursos materiais disponíveis para este tipo de iniciativa (que ou não existiam ou levavam muito tempo a serem disponibilizados) condicionou o trabalho do módulo que, entretanto, tinha de ser lecionado.
-O fator tempo, pois os alunos não dispunham de manhãs ou tardes disponíveis para realizar estas tarefas devido ao seu horário sobrecarregado com aulas adicionais para conclusão dos módulos no final do 2º período. Este facto dificultou as saídas de campo dos pequenos grupos para aplicarem a técnica de AC no desenvolvimento dos trabalhos, designada de investigação de grupo que, algumas vezes, teve de ser realizada ao sábado, sacrificando-os ainda mais. Contudo, tudo fizeram para que se cumprissem os objetivos, sempre com alegria e boa disposição.
Também pela limitação da intervenção no tempo, não foi possível rodar os grupos como recomendam os autores que investigam esta temática da AC.
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Em relação às vantagens destas experiências de AC, destaque-se o desempenho dos alunos na execução do trabalho e na avaliação do seu desempenho, processo fundamental para que o puzzle ficasse completo. Este puzzle era constituído pelo mapa do itinerário turístico, pelos marcos de paragem obrigatória, pela recolha de informação para se experimentar o circuito turístico e
pela criação e desenvolvimento do site da turma em
http://linasilva6.wix.com/aprendizagemcoop.
Outro aspeto positivo prendeu-se com o facto de se usar a interdisciplinaridade da equipa técnico-pedagógica, sendo que quase todos os professores da turma aderiram a esta iniciativa, apoiando os alunos nestas atividades, desde os docentes de Português, Inglês, Alemão, Geografia ao docente de Informática, que deram preciosas orientações ao longo de todo o processo de ensino aprendizagem.
A diversidade de métodos de AC (sobretudo com a criação do site), também se revelou bastante profícua, já que os alunos iniciaram os trabalhos executando as tarefas em que se sentiam mais à vontade, ultrapassando-se assim, de forma gradual, as dificuldades. Desta forma, uns dedicaram-se mais ao site, outros ao mapa de circuito turístico, outros aos marcos de paragem e outros ainda à tradução do itinerário nas duas línguas-inglês e alemão. Todos os alunos organizados em pequenos grupos enfrentaram desafios e superaram os obstáculos com alegria e determinação! A “obra” nascia e os alunos viam o fruto do seu trabalho.
No que concerne às implicações da intervenção da mestranda supervisada nesta turma, relativamente à aprendizagem e desenvolvimento de capacidades sociais/relacionais, considera-se ter existido uma influência positiva, sobretudo pela forma como foi reforçada a importância do outro na aprendizagem.
Para a formação enquanto docente, esta prática de ensino supervisionada revelou-se uma mais-valia, já que este estudo da AC foi o aguçar de um interesse muito presente e que se pretende reforçar noutras turmas. A AC não é a única solução para o desinteresse demonstrado por parte de alguns alunos do ensino profissional, mas é mais uma ferramenta útil e eficaz que poderá enriquecer e diversificar o processo de ensino aprendizagem. Colocar o aluno no centro das suas próprias aprendizagens tendo como finalidade o seu desenvolvimento integral, promovendo-se um crescimento pessoal, social, afetivo e psicomotor, respeitando-
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se a diferença resultante da sua singularidade, eis alguns dos princípios que nortearam esta intervenção.
Conclui-se com o registo da autoavaliação da intervenção, considerada positiva e fundamentada pela extrapolação dos resultados obtidos através do inquérito aplicado à turma. Durante este percurso o objetivo foi manter dezoito alunos motivados e autoconfiantes, processo este que só foi possível graças à inter- relação mantida com o professor cooperante no e com o grupo.
Ser professor implica que se desenvolvam competências próprias, se transformem sonhos em realidades e, através da criatividade, da reflexão sistematizada e do respeito pelo outro, se contribua para uma cidadania responsável. Como refere Couvaneiro & Reis (2007, p.14):
(…) a pertinência dos saberes e a sua adequação às realidades; fazer associar as práticas quotidianas instaladas aos contextos teóricos revisitados, no sentido de se transformarem em melhores práticas e em estratégias mais operacionais de mudança; e ainda proporcionar um espaço de intervenção/acção em que o sentimento de pertença e de reciprocidade configurassem a expressão de um verdadeiro desenvolvimento societal.
A interação com outros tempos e espaços de aprendizagem e com outras lógicas de educação e formação deverão ser uma preocupação constante da vida profissional. Estas inquietações e reflexões estiveram na base da escolha deste mestrado que agora se conclui. Ser professor, entre tantas outras coisas, implica saber quem somos e impõe que o nosso discurso coincida com a nossa prática, condição sine qua non para o desenvolvimento da profissionalidade.
Paulo Freire, na sua vastíssima obra, atribui à “conscientização48”, a atitude de questionamento que leva ao confronto com as nossas praxis, a interpretação dos princípios que lhes subjazem e a sua reconstrução num novo caminho, com novas estratégias, tentando ser melhor hoje do que ontem e sempre com o objetivo máximo que são as aprendizagens dos nossos alunos. A este propósito, Freire (1999, p.51) diz-nos que:
(…) se o homem é capaz de perceber-se, enquanto percebe uma realidade que parecia “em si” inexorável, é capaz de objetiva-la, descobrindo sua presença criadora e potencialmente transformadora desta mesma realidade. O fatalismo diante da realidade, caraterístico da percepção distorcida, cede seu lugar à esperança. Uma esperança crítica que move os homens para a transformação. (…) O trabalhador social
48 Conscientização:”implica não apenas a consciência da realidade, mas também o engajamento na luta para transformá-la” (Streck, Redin & Zitkoski, 2010, p.88).
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que opta pela mudança não teme a liberdade, não prescreve, não manipula, não foge da comunicação, pelo contrário, a procura e vive.
Ser-se professor não é uma profissão fácil. Levar os alunos a quererem aprender, crescer e a serem bem-sucedidos em todos os domínios da sua vida também não é tarefa simples. Roldão (2009, p.23) a este propósito refere que:
O professor não é um substituto do aluno, nem um assistente passivo de uma suposta aprendizagem espontânea. Mas é o responsável da mediação entre o saber e o aluno, porque é suposto ser ele - e não outros - a saber fazê-lo, pela orientação intencionalizada e tutorizada de acções de ensino que conduzam à possibilidade efectiva de o esforço do aluno se traduzir na apreensão do saber que se pretende ver adquirido.
Este pensamento reflexivo, citando Alarcão (1996, p.181) “é uma capacidade. Como tal, não desabrocha espontaneamente, mas pode desenvolver-se. Para isso tem de ser cultivado e requer condições favoráveis para o seu desabrochar”.
Procurar, diariamente, o sentido desta profissão e descobrir-se como professor, num processo continuado e cheio de exigências, tão bem expresso na obra de Freire (2001), pois ensinar, entre tantas outras coisas, exige “rigorosidade metódica”,” pesquisa”, “respeito aos saberes do educando”, “criticidade, estética e ética”,”corporeificação da palavra pelo exemplo” (p.38), “risco”, “aceitação do novo”, “rejeição a qualquer forma de discriminação”, “reflexão crítica sobre a prática”, “disponibilidade para o diálogo”, “querer bem aos educandos e liberdade e autoridade”.
Como refere Day (2004, p.243-244):
Os professores com uma paixão pelo ensino são guiados pela esperança e não pelo optimismo. Trabalham arduamente, são pessoas práticas que conhecem a sua tarefa e conhecem os seus alunos. (…) Eles compreendem que o ensino é um trabalho emocional, intelectual e prático. Estes professores não são heróis ou heroínas, mas são heroicos.
O ensino é uma atividade de coragem que testa a energia, o comprometimento e a determinação. (…) A paixão não é um complemento, mas constitui, no seu melhor, o coração do ensino.
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