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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA

2.3 Regras como reguladoras 13 para a Sociedade

Quando nos referimos a regras, vêm na lembrança boas maneiras, e, na história, boas maneiras estão diretamente relacionadas às regras de comportamento social onde o indivíduo vive. Elias (2011) refere-se a regras, não apenas sob a ótica da etiqueta, mas também, no que diz respeito à moral, à ética, ao valor interno dos indivíduos e aos aspectos externos que se revelam nas suas relações com os outros. Ao longo da história, nas sociedades, criam-se normas com a finalidade de orientar as relações entre grupos e pessoas.

A história das boas maneiras está diretamente relacionada a regras de comportamento social. Oliveira e Oliveira (2012) destacam que, apesar de “nem sempre procederem do Estado, alguns desses princípios impunham regras que se não fossem seguidas, implicariam

13 A atual difusão, no domínio educativo, do termo “regulação” está associada, em geral, ao objetivo de consagrar, simbolicamente, outro estatuto à intervenção do Estado na condução das políticas públicas. “Muitas das referências que são feitas ao “novo” papel regulador do Estado servem para demarcar as propostas de “modernização” da administração pública das práticas tradicionais de controlo burocrático pelas normas e regulamentos que foram (e são ainda) apanágio da intervenção estatal” (BARROSO, 2005, p. 727).

em penalidades que iam da desaprovação à exclusão daqueles que não as respeitassem” (p. 16).

A capacidade de diferenciação no comportamento humano foi uma constatação observada pelo autor num processo de longa duração. As regras são indicadores da capacidade de diferenciação entre os humanos. A capacidade de criar as regras, transmitir e incorporar pelas pessoas a longo prazo pode ser observada em todas as sociedades. O autor diz:

É característica do “homem civilizado” a atitude de autocontrole social, de como se comportar perante a sociedade. Exemplo de comportamentos reprováveis: escarrar em público, urinar em praça pública, “assoar abertamente o nariz no lenço, sem ocultar atrás doguardanapo, e enxugar o suor com ele” [...] todos os movimentos voluntários com o nariz, sejam feitos com a mão ou por outra maneira são indelicados (ELIAS 2011, p. 144).

Esses comportamentos, na visão de Elias, são considerados impróprios para o homem civilizado. O autor enfatiza que as mudanças são sociais e psíquicas e, portanto, a regra com o passar do tempo é interiorizada e passa a ser quase que natural no convívio contemporâneo das pessoas. A transformação acontece, de maneira geral, sem que pudéssemos prever o futuro a longo prazo. Considera o processo ‘cego’, mas nem por isso sem um princípio específico de ordem.

A história das boas maneiras está relacionada diretamente às regras do comportamento do indivíduo em convívio social. Na história, as sociedades criaram normas e princípios com a finalidade de orientar as relações entre grupos e pessoas conforme mencionado acima, “e essas normas não se constituem em uma simples sequência de mudanças caóticas não-estrutural, mas em transformações, em linhas gerais, a mudança histórica da sociedade civilizatória” (ELIAS, 2011, p. 194).

Para melhor compreensão, as regras, como exigências operantes na sociedade, são postuladas nas transformações e nos costumes dos indivíduos das mais variáveis situações e maneiras sobre o comportamento humano. Segundo esse autor, esses sentimentos de mudanças foram construídos nas relações sociais e transformações dos costumes em um tempo civilizado em que as mudanças não ocorreram aleatoriamente, mas, pelo sentimento de repúdio, pelo aumento de sentimento de desagrado em situações de sutilezas na civilização. Assim, na vida social, os indivíduos são formados pela sociedade e, permitem-se ser educados, mas, em situações de regras habituais e condicionadas como estrutura de personalidade como um todo.

A partir dessas discussões, Elias (1993) denomina as regras como formas de autocontrole e as relaciona como ligações,

A teia de ações tornou-se tão complexa e extensa, o esforço necessário para comportar-se ‘corretamente’ dentro dela ficou tão grande que, além do autocontrole consciente do indivíduo, um cego aparelho automático de autocontrole foi firmamento estabelecido. Esse mecanismo visava a prevenir transgressões do comportamento, socialmente aceitável mediante uma muralha de medos profundamente arraigados, mas, precisamente porque operava cegamente e pelo hábito, ele, com frequência, indiretamente produzia colisões com a realidade social (ELIAS, 1993, p. 196).

Dentre os estudos eliasianos, o que se observa, a partir das discussões e estudos é que a história dos costumes e das regras como condicionantes estão inseridas na sociedade e construídas pelos indivíduos. Retratam comportamentos cada vez mais diferenciados, complexos, aumentando as redes de interdependências.

Wlodarski e Cunha (2005) trazem elementos de justiça às regras. Entendem que o conceito formal de justiça está ligado ao que realmente pode ser considerado justo, ou seja, as ações que são determinadas por regulação, direcionadas a situações que apresentam as mesmas características, e, ainda, apropriam-se das palavras de Heller (s/a), ressaltando que, deixar de aplicar as regras de forma igual para os membros de um grupo exige um procedimento que é entendido como uma forma de injustiça e desigualdade.

Como as regras e normas são construídas socialmente, da mesma forma podem ser questionadas e até mesmo desativadas, quando consideradas uma forma de injustiça, porém, o conceito formal de justiça não pode ser questionado. A aplicação de normas e regras, também pode ser tendenciosa tratando casos iguais de forma diferenciada, o que é realizado de forma intencional e ideológica, sendo considerada injustiça (WLODARSKI; CUNHA, 2005, p. 10).

Elias esclarece que as mudanças realizadas exigiram conhecimento e controle emocional. As formas de controle de autorregulação foram transmitidas e incorporadas como costumes e leis. Com base em seus estudos, Elias (1993) acrescenta:

Mostramos como o controle efetuado através de terceiras pessoas é convertido, de vários aspectos, em autocontrole, que as atividades humanas mais animalescas são progressivamente excluídas do palco da vida comum e investidas de sentimentos de vergonha, que a regulação de toda a vida instintiva e afetiva por um firme autocontrole se torna cada vez mais estável, uniforme e generalizada. Isso tudo certamente não resulta de uma idéia central concebida há séculos por pessoas isoladas, e depois implantada em sucessivas gerações como a finalidade da ação e do estado desejados, até se concretizar por inteiro nos “séculos de progresso”. Ainda assim, embora não fosse planejada e intencional, essa transformação não constitui uma mera sequência de mudanças caóticas e não estruturadas (ELIAS, 1993, pp. 193, 194).

Habitus social é o termo eliasiano que mais se aproxima do conceito de cultura, pois refere-se à interiorização de conhecimentos, significados transmitidos de geração a geração.

A seguir, trataremos de alguns conceitos de cultura fundamentados na área antropológica que poderão colaborar na compreensão do lugar dos indígenas e a relação com o PBF. Nesse caso, preocupamo-nos, neste estudo, com as especificidades dos alunos beneficiários do PBF, pois são indivíduos que têm um histórico de direitos sociais negados e que apresentam peculiaridades que não podem ser desconsideradas e que são determinantes na compreensão dos conceitos deste estudo.