2. Condições de trabalho e os riscos profissionais no contexto da atividade
2.2 Relações com a empresa Antiguidade e reconhecimento
A profissão de motorista de matérias perigosas coloca o trabalhador diretamente ligado a uma entidade patronal, que assume uma organização do trabalho que perpassa tanto por normas intrínsecas a manipulação das matérias perigosas, como por exigências do mercado, que ditam o ritmo imposto ao trabalho. Como já referido, as tarefas exigidas no quotidiano da atividade sujeitam o trabalhador a mais responsabilidades, excesso de carga horária e riscos profissionais devido ao manuseamento das cargas perigosas (Gaiola et al. 2016). Essas condições de trabalho parecem dificultar a chegada de novos trabalhadores. Conforme relato de um dos motoristas:
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“Eu dei formação à pessoas, que alguns sentiam-se mal e outros até nem se adaptaram e foram embora, que aquilo é um obstáculo muito grande. Por exemplo, quem não souber conduzir e vier pra nossa profissão, de inicio, e apanhei alguns jovens - eu também sou jovem, mas já tenho muitos anos disso - mas chegar ali e aprender a conduzir, aprender a carregar, aprender a descarregar, eles dão um nó a cabeça. Nós não precisamos ser doutores e nem é nenhuma ciência aquilo, mas tem ali muita coisa, muita informação. Eu inicialmente quando começava a formação, gostava sempre de carregar o carro sozinho e pegar a pessoa a meio da viagem, tipo, já está o carro a carregar e está a descarregar, para eles não verem aquilo. Que na ilha [O local onde é feito o carregamento dos camiões nas petrolíferas dão o nome de ilha de carregamento] tem muitos braços, muitos produtos e o impacto de chegar ali e ver é muita informação. Cada braço é um produto e depois digitalizar os códigos para aceder à carga, e depois a segurança....”(B., 46 anos, 25 anos de antiguidade, referente ao transporte de combustíveis)
Esse relato também traz à tona questões sobre a antiguidade na atividade. A antiguidade parece ser um ponto fundamental para esses trabalhadores, pois é sobre ela que recaem questões sobre o envelhecimento na profissão. Palavras como “veterano” e “sênior” são proferidas por indivíduos de 46 e 51 anos. No caso destes motoristas a antiguidade confere-lhes um status, pois ao passar determinados anos exercendo a função o motorista pode ser formador de outros motoristas. Dos entrevistados, o mais novo, com 37 anos de idade e 10 anos de antiguidade era o único que não tinha ocupado a função de formador. Esta não é concedida pela idade biológica do trabalhador, mas por experiência. “Não tem um
centro de formação para esse trabalho específico, não existe. Esses motoristas sêniors, ou seja, sêniors somos todos aqueles se calhar com mais de 50 anos, ou com mais de 45 anos e com 20 anos naquele serviço, fazem a formação do mais jovem” (H., 57 anos, 33 anos de
antiguidade).
Assim, a antiguidade para os motoristas de matérias perigosas, pode tanto representar experiência, o que favorece a estratégias para lidar com os constrangimentos, riscos e penosidades, mas também é um fator de exposição prolongada a condições de trabalho propícias a um envelhecimento precoce. Neste caso, a experiência permite:
(...)adquirir saberes e saberes-fazer eficientes em cada situação: desde a tomada de
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até o controlo das situações que permitem realizar a tarefa lidando com os imprevistos, através da apropriação que permite encontrar a sua maneira de fazer” (Delgoulet, 2015, p.100).
A experiência também proporciona o reconhecimento de um saber, oferecendo ao motorista, como anteriormente referido, o lugar de formador. Porém, este lugar de reconhecimento está vinculado à entidade patronal, que é quem confere este reconhecimento ao trabalhador. O relato de um motorista, 46 anos, 25 anos de antiguidade na profissão, aponta para o prazer em ocupar a função e ao mesmo tempo sua relação com a empresa: “Eu
agora não dou formação porque estou de “castigo”. Eu era formador aqui na empresa, mas desde que aderi a greve, pronto, o patrão entende que não pode perdoar mais isso. Ele é que sabe, eu dei formação a muita gente que lá trabalha, porque tenho a prática e tenho a teoria. Gostava de fazer, pronto, eles tiraram-me isto, ok, tudo bem, há consequência e temos que aceitá-las.”
Da relação com a empresa, surge a perceção sobre as condições de emprego e o que disto assume viés de constrangimento, como apresenta a Tabela 7:
42 Tabela 7 - Perceção sobre as condições de emprego
Fatores de risco (INSAT, 2016) Percentagem de exposição (%) Verbalizações remuneração não permite ter um nível de vida satisfatório
90%
Temos que estar muito bem, o grau de exigência é muito grande, mas depois para pagar é 0 em relação a carga e a descarga e não pode ser, tem que se alterar isso (Excerto de motorista,49 anos)
Há 1 ano atrás a partir das 9 horas, ganhávamos horas extras, era a motivação, a pessoa sabia que ia fazermais 2 ou 3 horas, pronto, vou ganhar. Olha, não vou para casa, mas ganhava alguma coisita (52 anos)
Chegamos aos dias de hoje em que há 2 anos chegaram a correr para aumentar nosso vencimento para não estarmos a ganhar menos que o ordenado mínimo (Excerto de motorista, 57 anos)
Tinha a ilusão que se ganhava muito dinheiro em matérias perigosas, foi mesmo uma ilusão, não se ganha (Excerto de motorista, 51 anos)
sinto-me explorado 85,5%
Nos inicialmente reivindicamos o prêmio, porque nos retiraram os 7 euros dia, 140 Euros por mês e tentamos reivindicar, fizemos um abaixo assinado para a empresa, mas não deu em nada (Excerto de motorista, 48 anos)
O transporte está de tal maneira que o motorista é o objeto, eles até na brincadeira até diziam, que o motorista é a peça mais barata do camião. (Excerto de motorista, 52 anos)
A empresa acha que nos devemos trabalhar 14 horas. No sábado, há tipo um prêmio, se trabalhar 7 horas ganha-se um valor, se trabalhar 15 ganha exatamente o mesmo. Por isso é que quem trabalha muito está a ser prejudicado (Excerto de motorista, 46 anos)
não há preocupação por parte da empresa em relação ao meu bem estar
92,5%
Nós temos sempre os fatores físicos e psicológicos que podem provocar níveis de desgaste, os físicos serão essencialmente essas tampas e depois essas tampas tem uma parte física e tb psicológica, nós temos consciência que se as companhias petrolíferas quisessem investir um bocadinho de dinheiro, tem os postos equipados com formas de nós trabalharmos, ou seja eles tem um equipamento nos postos que nós não precisávamos abrir essas tampas para medir, mas é mais barato por o motorista a sondar, a medir os tanques (Excerto de motorista, 57 anos)
Eles querem saber se o camião chega mais ou menos direito, eles não querem saber da parte humana, nós somos um número, eles lá querem saber se aconteceu, se virou, se capotou, não querem saber disso para nada (Excerto de motorista, 48 anos)
Eles não dão a mão a palmatória que trabalhamos bastante e nós é que somos o pãozinho deles. Eles não nos valorizam, em nada. Às vezes nem um gesto... É uma arrogância. Chega ao fim do ano, nos sabemos por outros, deu ali uma prendinha aos da oficina e aos do escritório e a nós, nem um, nem um obrigado. (Excerto de motorista, 46 anos)
A perceção sobre a falta de reconhecimento da empresa em relação ao trabalhador pode ser um foco de penosidade quando este entende que a remuneração não se mostra suficiente (90%), ou sente-se explorado (85%) e que sente que a empresa não se importa com o seu bem estar (92,5%). O sentimento de que a empresa não se preocupa com o trabalhador é corroborado pela falta de valorização sentida no trabalho, visto que 57,5% dos participantes discorda que seu trabalho é valorizado, mesmo que 85% considere que seu trabalho é um
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contributo para a sociedade. O motorista relata que se sente pouco valorizado pelo facto da empresa não reconhecer o valor de seu trabalho nem a quantidade de trabalho feito. No caso, o camião, se destaca em termos do cuidado por parte da entidade patronal, fazendo com que o motorista se sinta diminuído frente à propriedade material da empresa. Sobre este assunto, mais de um participante repete a frase que dizem ser dita pelos patrões: “o motorista é a peça
mais barata do camião”.
A falta de reconhecimento também adquire um viés importante em relação aos riscos profissionais e os seus impactos na saúde do trabalhador. No caso, um participante da pesquisa diagnosticado com asma profissional relata a dificuldade de conseguir que a empresa contribuísse financeiramente com os filtros das máscaras protetivas.
“Comecei a ter problemas respiratórios, passei a usar máscara e trabalhei até
entrar em conflito com a entidade patronal. Uma das questões foi essa, eu não queria estar sempre a fornecer os filtros, pois todos os meses tinha que mudar os filtros. Como eu sabia mais ou menos que os filtros estavam gastos, quando eu começava a sentir a gasolina, a passar o cheiro para dentro da máscara eu tinha que mudar os filtros. Eu exigia que a empresa pagasse. Eu comecei a exigir os meus direitos, meteram um processo disciplinar. Quando a gente começa a exigir o que temos direito eles começam a ficar chateados.” A., 37
anos, 10 anos de antiguidade.
Para o profissional, não ter o respaldo da empresa em relação ao problema de saúde desenvolvido no âmbito laboral, além do desgaste financeiro e do prejuízo e agravamento do seu estado de saúde, o que fica visível é que a falta de reconhecimento atua como uma grande fonte de penosidade.