José Miguel Gonçalves Nascimento
Relatório de acompanhamento psicológico (Jorge - 24/04/2015)
O relatório desta sessão carece do seguinte enquadramento prévio tendo em conta o tempo transcorrido desde a última sessão de acompanhamento psicológico. A última sessão de acompanhamento realizou-se no dia 26/03 não havendo lugar a acompanhamento durante as últimas três semanas devido a condicionantes que se impuseram, nomeadamente a quebra de algumas regras da comunidade terapêutica por parte do utente que resultaram na aplicação de instrumentos afetos à própria comunidade – “Reflexão”; “Experiência Educativa” – impedindo o acompanhamento. Assim convém também salientar que neste período a mãe do utente foi internada com suspeita de tuberculose, acontecimento que motivou a fuga do utente – para a ir visitar – e por conseguinte a quebra de uma das regras fundamentais do regime de internamento.
Esta sessão foi iniciada por dar um espaço livre e de compreensão empática ao utente estimulando-o a partilhar aquilo que sentisse como importante quer quanto a este acontecimento particular, quer quanto a outros. O Jorge falou então sobre como tinha sido receber a notícia da mãe, a vivência deste acontecimento ao nível emocional e as razões pelas quais decidiu fugir da comunidade. Procurei naturalmente explorar e aprofundar com o utente a sua experiência pessoal deste acontecimento que se presume significativo ao que o Jorge referiu repetidamente a necessidade sentida de estar próximo da mãe, de poder prestar-lhe apoio e dar-lhe carinho. Tendo em conta as últimas explorações da dinâmica familiar e da história de vida realizadas em acompanhamento psicológico é notória a mudança de discurso do utente concretamente relativo à sua mãe, membro ao qual imperava até ao momento um corte relacional deliberado por parte do Jorge que verbalizava inclusivamente não pretender estabelecer qualquer contacto com a progenitora, sendo este “um assunto encerrado”. Deste modo e percebendo toda uma nova abertura do utente em abordar este assunto confrontei-o com a posição rígida e de corte dos últimos meses, desde o início do acompanhamento psicológico, procurando fomentar a reflexão e o autoquestionamento. Em verdade o utente refletiu sobre esta questão acabando por afirmar convictamente que o facto de saber que a mãe poderia morrer mudou totalmente o panorama: “Pus tudo isso – a raiva, a frustração contra a minha mãe – automaticamente de lado, (…) o que interessava era que a minha mãe precisava que eu estivesse lá e eu tinha de estar lá para ela” – disse o utente.
ͳͳ Com estes dados e com um pouco mais de exploração percebe-se claramente a pressão de transformação exercida por este evento na relação mãe-filho e, neste caso em concreto, tendo em conta a possibilidade de aporte de uma transição fundamental do ciclo vital e do próprio desenvolvimento da família – a morte (Andolfi, Menghi, Nicoló, & Saccu, 1994; Carter & McGoldrick, 1995; Minuchin, 1990; Walsh & McGoldrick, 1998). Este tipo de eventos que constituem pontos de transição são definidos por Minuchin (1990) como “fases na própria evolução natural da família que exigem a negociação de novas regras familiares” (p. 67) e produzem stresses de acomodação à nova situação. Não é por isso também surpreendente que Scabini e Cigoli (2000) conceptualizem as transições como “a epifania das relações familiares” que provocam alterações tão profundas e significativas como as observadas entre o Jorge e a mãe num momento crítico. De acordo com os autores, a família é um corpo vivo no qual o tecido relacional-simbólico não se apresenta imediatamente visível no quotidiano mas é antes posto a descoberto nas transições que colocam à prova a qualidade das relações, colocando em evidência a estrutura relacional da família. De tal forma as transições agitam todo o sistema pondo em causa o seu equilíbrio, dando vida ao caos que pode criar a transformação ou tornar-se igualmente no precipício (Scabini & Cigoli, 2000). Deste modo foi compreendido em sessão que apesar de todos os cortes, oscilações e incertezas que pautaram a relação entre o Jorge e a sua mãe, ou seja, apesar do pacto expresso manifestar sucessivas roturas, o pacto secreto manteve-se no entanto a par desta lealdade invisível entre mãe e filho (Boszormenyi-Nagy & Spark, 1984; Cigoli & Scabini, 2006).
Num segundo momento da sessão foi retomada a abordagem da transição do Jorge para o pós-comunidade, nomeadamente a mudança de residência para junto do pai ou da irmã, dando continuidade aos conteúdos trabalhados na sessão anterior e ao acompanhamento que tem vindo a ser realizado neste sentido. Tendo em conta um desentendimento ocorrido entre o Jorge e a irmã num dos fins-de-semana em que o utente foi a casa foi também abordada essa questão no acompanhamento. É de salientar que se verifica que o Jorge apresenta uma tendência relacional de corte quando exposto a situações de alguma disrupção, reproduzindo uma tendência transgeracional verificada através do genograma e da história de vida do utente. Deste modo, procurei sensibilizar o utente para esta realidade estabelecendo um paralelismo e colocando-o a realizar uma breve releitura do seu percurso familiar neste sentido. Isto permitiu consciencializar o utente para a necessidade de se colocar numa outra perspetiva perante a irmã, bem como perante outras relações significativas, no sentido de se posicionar perante pontuais atritos de uma forma relacional, construtiva e não de corte.
ͳͳͺ
Referências bibliográficas
Andolfi, M., Menghi, P., Nicoló, A., & Saccu, C. (1994). La Interaccion de los Sistemas Rigidos: Modelo de Intervencion en la Familia con Paciente Esquizofrénico. In A. Ackermans & M. Andolfi, La creación del sistema terapéutico (pp. 31-63). Barcelona: Paidós.
Boszormenyi-Nagy, I., & Spark, G. (1984). Invisible Loyalties. Levittown: Brunner Mazel. Carter, B. & McGoldrick, M. (1995). As mudanças no ciclo de vida familiar. Porto Alegre:
Artes Médicas.
Cigoli, V., & Scabini, E. (2006). Family identity: ties, symbols, and transitions. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates.
Minuchin, S. (1990). Famílias: funcionamento & tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas. Scabini, E., & Cigoli, V. (2000). Il famigliare: legami, simboli e transizioni. Milano:
Raffaello Cortina Editore.
Walsh, F., & McGoldrick, M. (1998). Morte na Família: Sobrevivendo às Perdas. Porto Alegre: Artmed.
ͳͳͻ