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ANGOLANA 2. Enquadramento legal

2.2. Corolários da tutela jurisdicional efetiva

2.2.4. Relevância da celeridade na tramitação dos processos 94

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no texto constitucional, ao realçar “ em caso algum podem os Tribunais ou os Juízes denegar justiça ou decidir direitos e interesses de quem alega insuficiência de meios económicos, apenas por esse motivo”. Do preceito legal supra, pode-se compreender, que no exercício da função jurisdicional, os operadores da justiça e do direito, sobretudo, os juízes, procuradores e advogados, devem, não só velar pela defesa da legalidade democrática, mas opor-se que sejam excluídos cidadãos do sistema de acesso à justiça e o direito, em detrimento de não possuírem capacidade financeira, na medida em que a todos, sem exceção de, cor, raça, sexo, grau de instrução, orientação político- partidária, lugar de nascimento, deve ser garantido, não apenas o acesso material aos serviços de justiça, como também a tutela dos seus direitos e interesses legítimos que sejam alvos de violação por qualquer entidade pública ou privada. À luz das regras que presidem os Estados de direito e democráticos, é descartável a ideia segundo a qual, a justiça é privilégio dos mais avantajados financeiramente, onde não há espaço para os mais pobres, o que deve prevalecer é sem dúvida, um acesso à justiça, extensivo à todos os membros da comunidade, para que em tempo oportuno, tendo em consideração cada caso concreto, se apliquem as regras mais elementares do direito substantivo e se faça justiça, atribuindo a cada um o que lhe é devido, tal como se pode concordar com as premissas do direito “ Iuris praecepta sunt haec: honest vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere (cfr. Digesto, Ulpiano, 1.1.10.1)93,cuja tradução na língua portuguesa, se resume no seguinte: São esses os preceitos do direito: viver honestamente, não prejudicar ninguém, dar a cada um o que é devido.

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tramitação dos processos, procurando-se saber, se os procedimentos judiciais não forem caracterizados por celeridade, prioridade, haverá tutela jurisdicional efetiva?

A questão supra, remete para o princípio da celeridade processual, com sede constitucional no artigo 29.º da CRA. Este princípio a nível do contencioso angolano decorre dos preceitos contidos no artigo aludido.

Para a defesa dos direitos, liberdades e garantias pessoais, a lei assegura aos cidadãos procedimentos judiciais céleres, de tal forma que se obtenha a tutela efetiva e em tempo útil contra ameaça ou violações desses direitos (artigo 29.º, n.º 5 da CRA). A par dos destaques constitucionais, a doutrina tem também apelado a uma justiça administrativa que consiga solucionar os litígios de uma forma rápida e eficiente, evitando-se acúmulo de processos95.

Em rigor, o atraso na administração da justiça administrativa, leva a que muitas vezes, os direitos que os particulares pretendam fazer valer em juízo percam certa utilidade, o que levanta uma questão de saber, se terá algum valor para o lesado a decisão proferida à margem dos prazos legais? Obviamente que não terá qualquer relevância, tratando-se de uma decisão que em nada contribui para a satisfação do interesse reivindicado, embora o mesmo não se salienta em relação a decisão favorável para o recorrente. Por isso, é defensável que os tribunais na realização das suas tarefas, optem sempre por procedimentos simplificados, libertando-se de formalismos excessivos que podem condicionar uma tomada de decisão em tempo razoável e oportuno.

«É preciso que a sociedade e os legisladores entendam que a questão da morosidade da atividade jurisdicional, a demora dos processos em geral, não pode ser resolvida sob a conceção esdrúxula de uma jurisdição-relâmpago, o que é impossível existir em qualquer parte do mundo, pois alguma demora na solução decisória sempre haverá nos processos, a fim de que possam ser efetivados os devidos acertamentos das relações de direito e de facto controvertidas ou conflituosas, entre os envolvidos, por meio da moderna e inafastável estrutura normativa (devido processo legal) e dialética (em contraditório) do processo, e não há outro modo racional e democrático de fazê-lo.

O que deve ser combatido é a demora exagerada ou excessivamente longa da atividade jurisdicional, a fim de que as partes recebam pronunciamento decisório conclusivo em

95 Cfr. AMARAL, Diogo Freitas do, e ALMEIDA, Mário Aroso de, Grandes linhas da reforma do contencioso administrativo, 3.ª ed., rev., atualizada, Coimbra, Almedina, 2007, p.108.

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prazo razoável, evitando-se dilações indevidas no processo, resultantes dos períodos prolongados em que não são praticados atos no processo ou o são fora da previsão legal do tempo, em desobediência aos prazos previstos no próprio Código e impostos ao Estado, ao prestar o serviço público jurisdicional que monopoliza»96.

A perspetiva acima apresentada, evidencia um certo realismo na medida em que a tramitação dos processos nos tribunais, nem sempre deve afigurar-se tão célere como se imagina, porque existem processos que pela sua natureza e complexidade, podem levar algum tempo para serem solucionados 97. O que é intolerável é o excessivo atraso na atividade jurisdicional que pode em diversas situações ser evitado.

Se houver falta de celeridade na administração da justiça, para além de se violar o prazo razoável, no nosso entendimento atenta-se também contra o princípio da tutela jurisdicional efetiva que defende a utilização de procedimentos judiciais mais céleres, de modo a que os direitos, liberdades e garantias dos particulares sejam efetivamente assegurados.

96 DIAS, Ronaldo Brêtas de Carvalho, As Reformas do Código de Processo Civil e o Processo Constitucional; NEPOMUCENO, Luciana Diniz (Ogs.). Processo Civil Reformado. Belo Horizonte, Del Rey, 2007, p. 219-220.

97 A título de exemplo, o prazo do recurso contencioso de impugnação de ato administrativo em Angola, a nível dos tribunais de primeira instância é de 60 dias, observando a regra da precedência obrigatória do recurso contencioso, quer pela reclamação, quer ainda pelo recurso hierárquico com o prazo de 30 dias.

(artigo 13.º LIAA). O que significa dizer na prática, que o autor cujo interesse tenha sido molestado pela decisão da Administração Pública, se por via da reclamação e recurso hierárquico o seu direito não for atendido em 30 dias, deverá novamente no prazo de 60 dias procurar impugnar contenciosamente; Alguns acórdãos sobre atraso na justiça em Portugal, citando o AC. do STA, de 13 de Julho de 2016, proc. n.º 07 83/14,1.ª Secção – Maria Benedita Urbano, onde a A. e o seu marido, intentaram uma ação administrativa comum contra o Estado português, com a pretensão de efetivação de responsabilidade civil extracontratual por danos resultantes da violação do direito a decisão em prazo razoável. Foi pedida a condenação do Estado português ao pagamento de uma indemnização global no montante de € 6.201.000,00 – € 6.101.000,00 pelos danos patrimoniais e € 100.000,00 por danos não patrimoniais – causados ambos pela omissão de decisão em prazo razoável no Proc. n.º 2/87, com atualização monetária nos termos do artigo 566.º, n.º 2, do Código Civil (CC) Português, referente ao período decorrido entre 28.06.04 e a data da citação, acrescida de juros vincendos, à taxa legal moratória de 4%,desde a citação até efetivo e integral pagamento. Mais ainda, em caso de procedência do pedido, pediu-se a condenação do R. no pagamento de uma sanção pecuniária compulsória à taxa anual de 5% sobre o valor da indemnização atribuída, por cada dia de atraso no cumprimento da sentença por parte do R., nos termos do artigo 829.º-A do CC. E ainda, em qualquer dos casos, foi pedida a condenação do R. em custas e procuradoria condigna, nos termos do artigo 189.º do CPTA. Disponível em http://www.gde.mj.pt/jsta.nsf/35fbbbf22e1bb1e680256f8e003ea931/f8c707d874ef712380257ff6004fa34d

?OpenDocument&ExpandSection=1&Highlight=0,CELERIDADE,PROCESSUAL#_Section1.

Consultado em 18 de Agosto de 2016. Outra jurisprudência no mesmo sentido, reporta-se a um caso em que o autor esperou por 17 anos por uma decisão judicial AC. do TCA, de 30 de Outubro de 2003, proc.

n.º 12 780.

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Portanto, a constitucionalização da justiça administrativa, impõe o devido respeito aos administrados, sendo de capital pertinência o cumprimento da celeridade processual na tramitação dos processos em tribunal, aliás, a garantia pela obtenção de uma tutela jurisdicional efetiva encontraria resistência, se os órgãos de justiça optassem por mecanismos processuais inimigos da presteza e velocidade no tratamento de qualquer questões que fosse suscitada pelos particulares ao afluírem os tribunais.

2.3. Concretização do princípio da tutela jurisdicional efetiva em