CENÁRIOS POSSÍVEIS
2 ÁFRICA NO SISTEMA INTERNACIONAL: ESTRUTURA, AGÊNCIA E ‘DEPENDÊNCIA’
2.1 REORDENAMENTO, CRISES E TENSÕES (1970-1990)
O início da década de 1970 foi marcado pela reorganização de economia mundial, o que teve impacto significativo no Terceiro Mundo, sobretudo, no continente africano. Eventos como o fim do padrão ouro (1971), o primeiro choque de petróleo (1973), a reestruturação da produção e a nova divisão internacional do trabalho, a globalização financeira, a Revolução Científico-Tecnológica, contribuíram para o desencadeamento da crise (VISENTINI, 2010).
De 1975 até o final da década de 1980, o contexto vivido pela África se alterou progressiva e sensivelmente. Com a deterioração dos termos de troca, os países africanos passaram a ter dificuldades cada vez maiores de arrecadar divisas externas, que eram fundamentais para a manutenção e funcionamento das atividades econômicas. Assim, crescentemente começaram a enfrentar escassez de matérias-primas, peças de reposição para a indústria e mesmo fertilizantes para a agricultura, o que debilitou, ainda mais, suas economias (CLAPHAM, 1996; TAYLOR, 2010). Como resultado, o choque das contas externas, o aumento dos preços do petróleo e das taxas de juros internacionais, aliados à queda nos preços das commodities no mercado internacional, levaram à instabilidade macroeconômica e ao declínio do crescimento de diversas economias africanas, já desgastadas pelo acelerado crescimento demográfico, pelos desequilíbrios produtivos, sociais e ecológicos, bem como pela intensificação de conflitos armados e pela incompetência e corrupção de uma parte de suas elites (CLAPHAM, 1996; OLIVEIRA, 2015; VISENTINI, 2012a).
Nesse sentido, o grande impacto que a crise teve na periferia deu aos movimentos revolucionários e de libertação nacional um forte impulso, e estes desencadearam uma onda revolucionária na década de 1970 (VISENTINI, 2010, 2012b). Assim, a partir de 1974 a queda dos regimes ditatoriais na Europa, Espanha, Grécia e, principalmente, em Portugal (após a Revolução dos Cravos de 1974), tiveram um impacto significativo na África subsaariana, sobretudo, na África portuguesa (CHAZAN et al., 1999). Nesse contexto, os movimentos de libertação em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau/Cabo Verde e em São Tomé e Príncipe, que desencadearam a luta contra o governo colonial português desde o início da década de 1960, declararam a independência entre 1973 e 1975.
A segunda metade da década de 1970 foi marcada também pela inserção do continente africano no sistema da Guerra Fria, o qual contribuiu para intensificação das
rivalidades regionais (CHAZAN et al., 1999; SCHMIDT, 2013). Isso ocorreu principalmente em momentos e regiões de crise, o que caracterizou a África Austral e o Chifre da África no período pós-1974. Na África Austral, as guerras civis que seguiram às independências de Angola e Moçambique levaram o envolvimento das superpotências e dos seus aliados nos conflitos, ao lado dos principais atores internos29 (WESTAD, 2005).
Em Angola, a disputa entre três grupos armados por poder, o Movimento Popular para Libertação de Angola (MPLA), a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA), logo após a saída dos portugueses, levou a eclosão de uma guerra civil no país. O governo do MPLA recebeu apoio da União Soviética e Cuba contra a FNLA que tinha suporte dos EUA e do Zaire e a UNITA, apoiada pela África do Sul e pelos colonos portugueses. Com esse apoio, o MPLA garantiu o controle da capital e o reconhecimento internacional (SCHMIDT, 2013; VISENTINI, 2012b). Na Guerra Civil Moçambicana, o governo da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) foi apoiado pelo bloco socialista contra um grupo fantoche criado pelo regime de Ian Smith da Rodésia, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), em resposta ao suporte da FRELIMO aos movimentos de libertação rodesianos, como a ZANU e a ZAPU (ARNOLD, 2008; VISENTINI, 2013b).
No Chifre da África, no início da década de 1970, a Etiópia já havia consolidado uma aliança estratégica com os Estados Unidos, enquanto que a Somália aprofundou as suas relações com a União Soviética após o golpe militar de 1969. No entanto, foi somente com o advento da Revolução etíope de 1974 que a região foi inserida na lógica de disputa bipolar, na medida em que o novo regime em Adis Abeba (Derg) se aproximou da URSS, então aliada do regime somali (SCHMIDT, 2013; WOODWARD, 2013a). A guerra entre os dois países em 1977 (com envolvimento direto das forças cubanas) consolidou o alinhamento da Etiópia com o bloco socialista e da Somália com o Ocidente. O Sudão, desde 1976, estabelecera uma parceria estratégica com EUA e passara receber importante ajuda econômica e militar estadunidense até o final da
29 Para a URSS, a descolonização dos países africanos trazia oportunidades para a expansão de sua esfera de influência, principalmente onde emergiram fortes movimentos anti-imperialistas, tendo como base uma política reativa (não previamente planejada). Para os Estados Unidos, a imaturidade política e ressentimentos contra o Ocidente poderiam aproximar os novos países africanos da URSS (CHAZAN ET AL, 1999). À China interessava não ficar de fora da disputa com seu concorrente estratégico (URSS). Já Cuba, procurava um espaço de mobilização e articulação de prestígio no terceiro mundo para exercer pressões ao bloco ocidental (PEREIRA, 2013; SCHMIDT, 2013).
Guerra Fria (CLAPHAM, 1996; WESTAD, 2005). Este assunto será tratado de maneira aprofundada no capítulo 3.
Esses conflitos civis, com intervenção externa (guerra proxy), e interestatais, com envolvimento de atores extrarregionais, transformou o continente africano em um palco importante dos confrontos da Guerra Fria até o final da década 1980. Ressalta-se que, mesmo com o crescente interesse das superpotências pelo continente, esse interesse era relativamente menor vis a vis a importância estratégica de outras regiões do globo (como Europa, Ásia e Oriente Médio) (CHAZAN et al., 1999; CLAPHAM, 1996). Como resultado, o confronto entre as duas superpotências no espaço africano aumentou o antagonismo/polarização entre os Estados africanos e fragilizou a capacidade da OUA de agir como um bloco coeso. De um lado, países como Guiné Bissau, Cabo Verde, Líbia, Etiópia, Moçambique e Angola se identificaram abertamente com o bloco socialista, enquanto que Argélia, Guiné e Uganda recebiam ajuda soviética. De outro, Zaire, Marrocos, Egito, Sudão, Quênia, Somália e os países francófonos da África ocidental e central estabeleceram (ou intensificaram) seus laços com o bloco ocidental (SCHMIDT, 2013; VISENTINI, 2013b).
Paralelamente à dinâmica da Guerra Fria no continente, a recessão mundial no final da década, associada ao segundo choque do petróleo, em 1979, e à ascensão de líderes conservadores nos países centrais (como Ronald Reagan nos EUA, Margareth Thatcher na Grã-Bretanha e Helmut Kohl na Alemanha Ocidental) no início dos anos 1980, desferiu um duro golpe nos países africanos. Estes líderes assim que assumiram o poder adotaram medidas como a redução dos compromissos com a ajuda externa e a adoção do protecionismo contra as importações da periferia, na tentativa de reduzir a alta taxa de inflação e de desemprego interno (GORDON, 2013; TAYLOR, 2010). Os impactos destas medidas nos países africanos evidenciaram a dependência destes em relação às nações desenvolvidas do centro.
A resposta africana a esse cenário se deu em julho de 1979, em um esforço conjunto entre a OUA e Comissão Econômica das Nações Unidas para África (UNECA), através da Declaração de Monróvia, um documento que articulava uma visão africana sobre o futuro do continente, bem como estratégias para retirar a África do contexto de crise e promover o desenvolvimento, e que tinha como ênfase principal a ideia de um desenvolvimento autossuficiente. Em julho do ano seguinte, durante a Segunda Cúpula Extraordinária dos Chefes de Estado e de Governos da OUA, foi adotado o Plano de Ação de Lagos (LPA), um plano econômico continental que
estabelecia estratégias para que os objetivos estabelecidos na Declaração de Monróvia fossem atingidos (CLAPHAM, 1996; MAZRUI; WONDJI; 2010; TAYLOR, 2010).
Em linhas gerais, as estratégias estabelecidas pelo LPA se baseavam em seis princípios básicos: a independência como base para o desenvolvimento; a equidade na distribuição de bem-estar como objetivo fundamental do desenvolvimento; a expansão do setor público como elemento fundamental do desenvolvimento; o direcionamento do capital externo para os setores mais carentes ou com financiamento inadequado; a efetivação mais rápida possível da cooperação e da integração interafricanas; e, a luta pelo desenvolvimento de uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), mais favorável aos países africanos e do Terceiro Mundo. Com base nesses princípios, o Plano priorizava o desenvolvimento da agricultura, da industrialização, das indústrias de mineração, dos transportes e comunicação, de recursos humanos e de ciência e tecnologia (BUJRA, 2004; TAYLOR, 2010).
O LPA, no entanto, caminhava na contramão do neoliberalismo, que passava a ser preponderante no contexto econômico mundial e defendia a diminuição do papel Estado na economia (STIGLITZ, 2002). Inclusive, um ano após o estabelecimento do LPA, o Banco Mundial lançou uma iniciativa, nos moldes neoliberais, para o continente africano intitulado “Accelerated Development in Sub-Saharan Africa: An Agenda for
Action”, conhecido como Relatório Berg. Entre as medidas preconizadas, destacam-se:
a diminuição do papel do Estado (restrição de gastos e investimentos públicos estratégicos), por meio de reformas econômicas liberalizantes, como privatizações; liberalização irrestrita das importações e da entrada de capitais; valorização do setor privado; e fim da política de incentivos nacionais à produção industrial (BUJRA, 2004; EZEOHA; UCHE, 2005).
Além disso, enquanto o Plano defendia uma maior integração entre os países africanos, o relatório do Banco Mundial aconselhava a África a não priorizar a integração continental. Por fim, ao defender a criação de uma NOEI, o LPA demonstrava seu caráter contestatório; enquanto isso, o Relatório Berg indicava que a solução seria se adequar a nova doutrina (neoliberalismo) (OTAVIO, 2017; TAYLOR, 2010).
Embora o LPA30 tenha se destacado pelas propostas que defendiam uma maior independência econômica dos países africanos em relação aos países centrais, no que
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Além da LPA, a OUA e a UNECA lançaram mais três importantes programas que visavam a recuperação da economia dos países africanos e promover o desenvolvimento: a Africa’s Priority
tange ao acesso a investimentos, empréstimos, mercados e conhecimento técnico, não logrou o sucesso esperado, e a crise econômica que atingia os países africanos se perpetuou e aprofundou, com queda no ritmo de crescimento anual, aumento do endividamento externo e aumento do desemprego e da pobreza (BUJRA, 2004; FUNKE; NSOULI, 2003, TAYLOR, 2010).
Diante desse contexto, os países africanos recorreram individualmente aos empréstimos das Instituições Financeiras Internacionais (FMI e Banco Mundial) que impuseram uma serie de condicionalidades (Programas de Ajustes Estruturais - SAPs) para concessão ou renegociação dos empréstimos, baseado no ideário neoliberal. Em linhas gerais, SAPs previam redução das tarifas alfandegárias, desvalorização da moeda, abertura de mercados aos produtos estrangeiros, privatização das empresas públicas, cortes no orçamento e nos subsídios estatais e a reforma do setor agrícola (acabando com cooperativas e fazendas estatais) (AKOKPARI, 1999; VAN DE WALLE, 2001; VISENTINI, 2010).
Os resultados foram desastrosos para o continente. As dívidas externas dos países africanos que, em 1970 era de US$ 5.24 bilhões, passando, em 1980, para US$ 48.79 bilhões, atingiram US$ 151.17 bilhões em 1991 – mais de 100% do PIB total do continente -; as importações caíram em média 8% ao ano, enquanto as exportações cresciam apenas 1.5% anualmente; houve aumento da fome endêmica em algumas regiões; e ocorreu o colapso da estrutura social e das indústrias nacionais em diversos países, contribuindo para o aumento do desemprego (CALLAGHY, 2009; CLAPHAM, 1996; VAN DE WALLE, 2001). Os resultados foram massivos protestos sociais, levantes violentos e golpes de Estado em muitos países, o que veio a deteriorar ainda mais o cenário regional de segurança, já marcado por diversos conflitos armados (ADEBAJO, 2013; VISENTINI, 2010). Por estes motivos, a década de 1980 ficou conhecida como a “década perdida” do continente africano.
No Chifre da África, por exemplo, os problemas econômicos vieram agravar a difícil situação política regional ocasionada pela crise política dentro das unidades (Estados) e pelos graves problemas ambientais. Entre as décadas de 1970 e 1980, uma seca de grandes proporções assolou a região, provocando degradação ecológica e Programme for Economic Recovery (1986-1990) de 1985; The African Alternative Framework to Structural Adjustment Programme for Socio-Economic Transformation de 1989 e; The African Charter for Popular Participation in Development and Transformation de 1990. Por outro lado, o
Banco Mundial lançou o Toward sustained development in Sub-Saharan Africa: a joint programme of
action (1984); e Financing adjustment with growth in Subsaarian Africa: 1986-1990 (1986)
grandes problemas econômicos e sociais, bem como a queda na produtividade agrícola, que levou à fome generalizada (ADAR, 2000; DERSSO, 2014). As consequências econômicas e sociais foram devastadoras, em função do peso da agricultura e da pecuária nas economias dos países da região. Além de a grande maioria ser exportadora de produtos agropecuários, a agricultura em muitos desses Estados era de subsistência (BERHE, 2014; FRANCIS, 2006).
Na Etiópia e na Uganda, por exemplo, a agricultura representava 50% do PIB e envolvia cerca de 80% da população. No caso da Etiópia, a situação do comércio exterior do país agravara-se ainda mais com o declínio do preço do café, sua principal
commodity, no mercado internacional e o aumento no preço de petróleo. Além disso, a
queda da produção dos bens alimentícios primários exportados e consumidos internamente atingiria níveis alarmantes em 1983, ocasionando uma pressão inflacionária nas cidades e a perda do poder de compra da população. O resultado foi à estagnação do PIB em 1981, que seguia uma taxa de crescimento de 3 a 4% ao ano até 1980 (FRANCIS, 2006; VISENTINI, 2012b). Na tentativa de reverter esta situação, o país adotou o modelo de fazendas mecanizadas, coletivização da agricultura (fazendas coletivas) e plantation, bem como a transferência dos camponeses das áreas afetadas para outras áreas (SCHMIDT, 2013; VISENTINI, 2012b).
Isto, somado à crescente instabilidade política interna nos países pertencentes à região, o que gerou um grande fluxo de refugiados na região, e aos problemas econômicos decorrentes do choque das contas externas (aumento do preço de petróleo e da taxa de juro internacional) - levou à instabilidade macroeconômica e ao declínio do crescimento - agravado pela queda no preço dos produtos primários. Como resultado deste processo, o PIB per capita da região caiu mais de 60% entre 1980 e 1985, e a economia dos países continuou em declínio até o final da década. A crise da década de 1980 no chifre africano teve como consequência o avanço do desemprego, a pauperização da população, já que a pobreza quadriplicou entre a década de 1980 e 1990, e o aumento da fome endêmica (CHAZAN et al., 1999; FRANCIS, 2006).
Para países como Etiópia, Sudão e Somália, a seca veio aprofundar os problemas que os regimes militares já vinham enfrentando em relação à economia e à segurança interna. O desgaste desses regimes durante a década de 1980 culminará em suas derrubadas, ainda em 1985, no Sudão, e em 1991, na Somália e na Etiópia. Em Uganda, em 1986, o presidente Milton Obote também foi derrubado em função da crise
econômica, política e social no país (CARDOSO, 2016a; WOODWARD, 2013a). Este assunto será retomado no capítulo 3.
Ainda durante a década de 1980, em meio à crise, dois acontecimentos se mostraram relevantes para o sistema continental de interação. O primeiro foi a intervenção militar da OUA na guerra civil no Chade em 1981. O conflito no país iniciou em 1966 e se intensificou crescentemente até 1979, com a participação de grande número de grupos beligerantes e também de atores externos – nomeadamente França e Líbia (esta última ocupando parte do território do Chade em 1973) (CHAZAN
et al.,1999; SESAY, 1991).
No início dos 1980, o conflito chadiano entrou em nova fase. No mesmo ano, tropas da Líbia entraram no país, a pedido do presidente do Governo de União Nacional e Transicional31 (GUNT), Goukouni Oueddei, que sofria fortes ataques em N’Djamena. Além disso, no início do ano seguinte, Muammar Kadafi e Oueddei anunciaram que os governos da Líbia e do Chade trabalhariam em conjunto para unir os dois países. O anúncio gerou grande oposição não só das demais facções chadianas envolvidas no conflito, como também da França e de muitos dos demais países africanos, que viram o movimento como uma afronta aos ideais fundacionais da OUA. Divergências entre Oueddei e Kadafi, todavia, levaram à retirada das tropas líbias do país, em outubro de 1981, abrindo, assim, o espaço para a atuação da OUA e o estabelecimento de uma nova força de paz interafricana (MASSEY, 2003; SESAY, 1991).
Assim, em novembro de 1981, a OUA e Oueddei assinaram um acordo, em Paris, estabelecendo a criação de uma nova força de paz interafricana, composta por contingentes de Nigéria, Zaire, Togo, e Senegal, cujo mandato compreendia a manutenção da paz no Chade, a supervisão das eleições a serem realizadas em uma data acordada pelas facções em combate no país e o auxílio na integração dos combatentes ao exército chadiano (MASSEY, 2003; SESAY, 1991). A força de paz da OUA, contudo, não logrou estabilizar o país, retirando-se no ano seguinte.
O segundo evento, foi o reconhecimento formal da independência da República Árabe Saarauí Democrática (RASD) pela maioria dos países africanos no final da década de 1970, invocando o princípio da autodeterminação dos povos. O conflito entre Marrocos e Saara Ocidental começou em novembro de 1975 quando Riad invadiu e
31 O GUNT foi estabelecido, após diversas tentativas malfadadas, a partir do acordo de Lagos II (AMOO, 1991).
ocupou o território saarauí, contrariando as decisões da ONU e da OUA. Além disso, a RASD foi aceita como membro pleno da OUA em 1984, o que levou a retirada do Marrocos da Organização (CHAZAN et al., 1999; VISENTINI, 2010). Estes eventos se revelaram importantes para as relações interafricanas na medida em que os princípios de não intervenção nos assuntos internos dos Estados membros e a autodeterminação dos povos são princípios fundacionais da OUA e do próprio sistema interafricano de Estados.
No final dos anos 1980, à medida que a crise doméstica se intensificava, gradualmente vislumbrava-se o declínio das rivalidades extrarregionais no continente africano. Assim, na África Austral, a derrota sul africana frente às forças cubanas e angolanas em Cuito Cuanavale, em 1988, levou à assinatura do Acordo Tripartite entre África do Sul, Angola e Cuba, que previa a retirada das tropas cubanas de Angola, bem como a independência do Sudoeste Africano (Namíbia) - antiga colônia alemã ocupada pela África do Sul desde a Primeira Guerra Mundial (PEREIRA, 2010; VISENTINI, 2012b). No Chifre da África, à medida que intensificava a crise interna, os aliados externos foram abandonados os seus clientes, contribuindo para a deterioração das suas capacidades e posterior colapso dos regimes (etíope e somali) frente aos insurgentes no início dos anos 1990 (CARDOSO, 2016).
2.3 VAZIO ESTRATÉGICO, MARGINALIZAÇÃO E CRISE DOS ESTADOS