4. Requisitos positivos da elegibilidade
4.2 Requisitos formais do processo judicial de registro de candidatura
Apontou-se, anteriormente, que a teoria tradicional considera a elegibilidade o direito do cidadão de ser votado, que será configurado mediante o atendimento a dois pressupostos gerais (cumprimento das condições de elegibilidade e não incidência em causas de inelegibilidade), que serão objeto de apreciação e declaração de conformidade pelo Juiz Eleitoral no âmbito do processo de pedido de registro de candidatura.
Para tanto, nesse processo judicial, o candidato deve comprovar outros requisitos instrumentais, que permitirão ao Juiz Eleitoral analisar, exatamente, o cumprimento das condições de elegibilidade e a ausência de inelegibilidade. Esses requisitos formais não constituem novas condições de elegibilidade, mas apenas os meios ou instrumentos para
292 RODRIGO LÓPEZ ZILIO sustenta, em virtude dessa exigência, que a indicação em convenção partidária “adequa-se na concepção de condição de registrabilidade” (Direito Eleitoral ..., cit., p. 169), isto é, um dos requisitos formais para verificação dos pressupostos gerais da elegibilidade no processo de registro de candidatura. Com a máxima vênia, o que pode ser entendido como condição de registrabilidade é tão somente o encargo formal de apresentação da ata da convenção partidária, mas a situação jurídica material de ser escolhido na aludida convenção corresponde, diversamente, a uma condição de elegibilidade criada por lei.
293 O art. 8º, § 1º, LE, que assegura aos ocupantes de cargos eletivos proporcionais o “registro de candidatura para o mesmo cargo pelo partido a que estejam filiados”, teve suspensa sua eficácia e foi declarado inconstitucional pelo STF em decisão de medida cautelar na ADI n.º 2.530, j. 24/4/2002, DJ de 21/11/2003.
294 Importante observar que, conforme art. 18 da LC n.º 64/1990, em caso de candidatos de chapa majoritária para disputa da Chefia do Executivo (titular e vice) ou do Senado (titular e suplentes), a declaração de inelegibilidade de um dos candidatos não atinge os demais. Assim, em que pese ocorra, em regra, o cancelamento do registro de toda a chapa, nos termos do art. 91, CE, o integrante da chapa que não foi considerado inelegível poderá ainda concorrer no pleito numa eventual chapa substitutiva (cfr. TSE, RO n.º 904-31, pss. de 11/9/2014).
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demonstrar o atendimento dos pressupostos gerais da elegibilidade, sendo denominados pela doutrina de requisitos ou condições de registrabilidade295.
O pedido de registro de candidatura deve ser formulado até o dia 15 de agosto do ano em que se realizarem eleições296, através de requerimento apresentado por partido político ou coligação em nome do candidato, sendo que, na omissão daqueles, a solicitação pode ser apresentada diretamente pelo candidato (art. 11, caput e § 4º, LE).
Esse processo de registro de candidatura tem natureza jurisdicional. Em que pese não haja partes contrárias na relação jurídico processual, conquanto é apenas o candidato que se dirige à Justiça Eleitoral para pedir o registro de sua candidatura, caberá ao Estado Juiz avaliar o cumprimento dos pressupostos estabelecidos na lei e, em respeito ao devido processo legal, decidir em definitivo sobre a pretensão do solicitante297. Essa decisão judicial, como já explicado, declara a existência prévia da elegibilidade e constitui a candidatura, e ostentará a condição de imutabilidade pela coisa julgada, com referência à eleição em que houve a postulação e deliberação sobre o pedido de candidatura.
Em favor do caráter jurisdicional desse processo, apontam-se ainda duas outras circunstâncias: (i) depois de apresentadas as listas com os nomes dos que requereram o registro de candidato, é possível a apresentação, por qualquer pessoa, da notícia de inelegibilidade contra o requerente, cabendo ao Juiz Eleitoral processar e decidir a alegação; e (ii) pode o próprio Juiz Eleitoral conhecer de ofício da ocorrência de inelegibilidade ou do não cumprimento de condição de elegibilidade. Em tais situações, mostra-se evidente a necessidade de resguardo da ampla defesa e do contraditório ao candidato, cabendo ao Juiz a adoção da decisão para dirimir o conflito instalado entre o pedido do registro de candidatura e o possível descumprimento de algum dos pressupostos da elegibilidade.
Além disso, pode ocorrer o ajuizamento de AIRC pelo MPE, partidos políticos, coligações e demais candidatos, na qual se apontará expressamente o descumprimento dos
295 Cfr. GONÇALVES, Luiz Carlos dos Santos, Direito Eleitoral ..., cit., p. 64; ZILIO, Rodrigo López, Direito
Eleitoral ..., cit., pp. 205-206; e AGRA, Walber de Moura, “Requisitos de registrabilidade” ..., cit., pp. 243-251. 296 Considerando o teor do art. 8º, LE, que define as datas para a convenção partidária de escolha dos candidatos entre 20 de julho a 5 de agosto do ano da eleição, o pedido de registro de candidatura poderá ser apresentado desde que cumprido o requisito da publicação da correspondente ata da convenção. Ressalte-se que houve alteração da data-limite do pedido de registro de candidatura para as eleições de 2020, conforme EC n.º 107/2020.
297 Concorda-se com a posição de ADRIANO SOARES DA COSTA de que o pedido de registro de candidatura encerra uma ação de jurisdição voluntária, em que não se verifica o contraditório, porquanto se forma “a relação processual linearmente entre requerente e Juiz Eleitoral, sem que haja angularização, ou seja, sem a existência de um polo passivo (autor; juiz; réu)” (Instituições de Direito Eleitoral ..., cit., p. 324).
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pressupostos materiais ou formais para o deferimento do registro. Esta autêntica ação judicial298 seguirá seu curso de forma concomitante ao processo de registro de candidatura e serão, ambos os feitos, decididos em conjunto, em sentença única299.
A Lei das Eleições (art. 11, § 1º) e as Resoluções do TSE300 estabelecem uma série de documentos que precisam ser apresentados no pedido de registro de candidatura, cujos principais são os seguintes: (i) cópia da ata da convenção partidária que deliberou pela escolha dos candidatos e formação de coligações; (ii) prova de filiação partidária; (iii) cópia do título eleitoral ou certidão de que o candidato é eleitor na circunscrição ou requereu sua inscrição ou transferência de domicílio no prazo legal; (iv) certidão de quitação eleitoral; (v) certidões de antecedentes criminais do candidato; (vi) comprovante de alfabetização; e (vii) prova da desincompatibilização, se for o caso301.
Da análise dos documentos exigidos, vê-se que eles servem mais propriamente como filtro de verificação da existência das condições de elegibilidade do que da ausência de inelegibilidade. De fato, o atendimento à quase integralidade das condições de elegibilidade pode ser verificada pela apresentação dos documentos listados na lei eleitoral302, com vistas a se presumir o cumprimento ou descumprimento desses requisitos da elegibilidade, presunção esta, todavia, de natureza relativa, já que pode ser infirmada por prova em contrário303.
No que pertine à verificação da não incidência de inelegibilidade, apenas a exigência de apresentação das certidões indicativas de antecedentes criminais é que tem reflexos com relação
298 Explicam FLÁVIO CHEIM JORGE et al. sobre a AIRC: “Trata-se de ação incidental, isto é, de fato jurídico
processual superveniente que cai sobre a relação processual em movimento, que visa a permitir, aos demais atores do processo eleitoral, a possibilidade de levar, à Justiça Eleitoral, o conhecimento das situações capazes de impedir o deferimento do registro.” (Curso de direito eleitoral ..., cit., p. 528).
299 Cfr. STOCO, Rui; STOCO, Leandro de Oliveira, Legislação eleitoral interpretada ..., cit., p. 63.
300 A título de ilustração, cfr. a Resolução TSE n.º 23.609/2019, editada para regular a escolha e o registro de candidatos para as eleições de 2020.
301 A apresentação dos documentos dos referidos itens (ii), (iii) e (iv) não é de obrigação dos candidatos, partidos e coligações, uma vez que as informações contidas nesses documentos já são de domínio e conhecimento da Justiça Eleitoral, cabendo ao próprio Estado informar sobre o cumprimento ou não desses requisitos. Há ainda uma série de outros documentos que devem ser apresentados, mas sem vinculação com os pressupostos gerais da elegibilidade, tais como a declaração de bens do candidato; sua fotografia para inserção na urna eletrônica; e as propostas defendidas pelos candidatos aos cargos de Chefes do Poder Executivo.
302 A legislação eleitoral não impõe, contudo, a apresentação de certidões: (i) de antecedentes cíveis, para verificar a suspensão de direitos políticos por condenação em improbidade administrativa (e a inelegibilidade da alínea “l” do art. 1º, I, da LC n.º 64/1990); (ii) da Justiça Federal, para avaliar a perda da nacionalidade; e (iii) de convocações do Tribunal do Júri. Com relação às certidões cíveis, em que pese iniciativas de alguns TREs para exigir a sua apresentação pelos candidatos, o TSE entendeu inexistir amparo legal nessas imposições, cfr. Representação n.º 1548-08, j. 6/10/2010, DJe de 26/11/2010 e o AgR-REspe n.º 175-29, pss. de 30/10/2012.
303 Pode ser demonstrado na fase do registro de candidatura, v. g., que não foi informada tempestiva ou corretamente à Justiça Eleitoral uma situação de suspensão ou perda dos direitos políticos ou a ocorrência de má-fé ou fraude do candidato quanto ao cumprimento do domicílio eleitoral ou da filiação partidária. De outro lado, é possível também a certidão de quitação indicar o descumprimento da filiação partidária, mas o candidato conseguir demonstrar a regularidade de sua filiação ao partido político através de outros elementos de prova.
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à inelegibilidade prevista na alínea “e” do art. 1º, I, da LC n.º 64/1990304, que dispõe serem inelegíveis aqueles que forem condenados por determinados crimes indicados na norma. Já com relação às hipóteses de incompatibilidades, há o dever legal de apresentação da prova da desincompatibilização, quando for o caso, mas pode ocorrer de o candidato ou seu partido deixarem de apresentá-la, alegando falsamente não ocupar cargo do qual se exija o afastamento para concorrer na eleição, o que demandará um maior esforço de fiscalização pelos demais atores do processo eleitoral, notadamente do MPE.
Por fim, vale anotar que, antes de apreciar o Requerimento de Registro de Candidatura (RRC) individual do candidato, a Justiça Eleitoral avalia previamente o cumprimento pelo partido ou coligação de determinados requisitos que, se não forem atendidos, podem redundar no indeferimento do registro de todos os candidatos vinculados à agremiação. Esse processo é o Demonstrativo de Regularidade dos Atos Partidários (DRAP) e constituirá o feito judicial principal, sendo acessórios os RRCs305.
No DRAP se verificará a regularidade dos atos partidários e da formação de coligações e o cumprimento de condições impostas na lei306 e, uma vez deferido o requerimento, será possível que se delibere sobre a situação individual de cada candidato, sendo desnecessário reapreciar, nos RRCs, as questões atinentes ao DRAP.