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3. Elegibilidade e inelegibilidade

3.1 Conceito e natureza jurídica da elegibilidade

3.2.1 Tipicidade estrita das causas de inelegibilidade

A Constituição Federal estabelece, nos §§ 4º a 8º do seu art. 14, as hipóteses expressas de inelegibilidades constitucionais, que dizem respeito aos casos de inalistabilidade; analfabetismo; irreelegibilidade para o terceiro mandato consecutivo como Chefe do Poder Executivo; incompatibilidade de mandatários do Executivo para concorrer a outros cargos; vedação a parentes de Chefes do Executivo de disputarem cargos eletivos no território da circunscrição eleitoral do titular; e regras específicas para os militares151. Já no âmbito infraconstitucional, é a LC n.º 64/1990, alterada pela Lei da Ficha Limpa (LC n.º 135/2010), que estabelece, na forma do art. 14, § 9º da CF/88, os casos de inelegibilidade legais152.

Ocorre que, antes do surgimento da LC n.º 135/2010, vicejou profunda e séria discussão sobre a possibilidade de a Justiça Eleitoral indeferir pedidos de registros de candidatos cuja vida pregressa demonstrasse a inaptidão para o exercício do mandato, mesmo em situações não previstas na LC n.º 64/1990. O eleitoralista DJALMA PINTO era um dos defensores dessa ideia ao apontar que a inércia proposital do Legislativo em não editar uma nova lei complementar não poderia impedir que o Juiz Eleitoral verificasse, no caso concreto, uma situação moral impeditiva da disputa e assunção de cargo eletivo, exemplificando os casos de criminosos comprovadamente condenados153.

Sobre o tema, foi proposta no STF, em 26/6/2008, a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n.º 144 pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), com o objetivo de reconhecer a auto aplicabilidade do § 9º do art. 14 da CF/88, para que fosse permitido à Justiça Eleitoral a negativa de requerimentos de candidatura de cidadãos réus em processos judiciais ou com condenações não definitivas, uma vez que, nas disposições da então

151 Em geral, a doutrina não aponta as regras de elegibilidade dos militares, previstas no art. 14, § 8º, CF/88, como causas de inelegibilidade. Porém, é certo que, ao disciplinar a necessidade do afastamento do militar para deferimento do pedido de registro de candidatura, a CF/88 regulou situações típicas de incompatibilidade, que são inelegibilidades especiais decorrentes do exercício pelo cidadão de cargo, emprego ou função.

152 JOSÉ JAIRO GOMES sustenta a possibilidade de tratados internacionais preverem ou suprimirem causas de inelegibilidade: “Se é certo que tratado e convenção internacionais sobre direitos humanos e também sobre direitos e garantias fundamentais possuem status constitucional, é de se concluir que podem igualmente veicular causa de inelegibilidade.” (Direito Eleitoral ..., cit., p. 230, grifos do autor). Não se conhece, porém, exemplo concreto de inelegibilidade criada ou extinta por tratado internacional firmado pelo Brasil.

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vigente LC n.º 64/1990, somente se previa a inelegibilidade para os casos de condenações com o trânsito em julgado, entre outras hipóteses.

Na apreciação da ADPF n.º 144 (j. 6/8/2008, DJe de 26/2/2010), todavia, restou decidido pela Corte Suprema, considerando especialmente a aplicação do princípio da presunção de inocência, que a Justiça Eleitoral não poderia indeferir os pedidos de registros de candidatos apenas pela circunstância de responderem a processo judicial, criminal ou por ato de improbidade administrativa, sem que houvesse uma condenação transitada em julgado154.

Concorda-se com o dispositivo do julgado, mas não com o principal argumento utilizado pelos Ministros do STF. Isso porque, conforme será esclarecido adiante, o princípio da presunção de inocência ou da não culpabilidade penal, pelo qual se arvora a exigência do trânsito em julgado da condenação criminal para certificar a situação de culpado e dar início à execução da pena, não tem a amplitude destacada no julgamento da ADPF, não se podendo admitir sua extensão integral ao Direito Eleitoral.

O STF, porém, acertou na conclusão do decisum porque, malgrado seja razoável o argumento defendido na ADPF, de que a vida pregressa consiste em conceito mais abrangente do que aquele estabelecido na LC n.º 64/1990, pois encerra o princípio jurídico fundamental para criação de inelegibilidades, é impossível não admitir que foi a própria CF/88 que declinou expressamente à legislação complementar a fixação de outros casos de inelegibilidade, não se deixando espaço, portanto, para a criação de inelegibilidade pela vida judicial155.

É preciso, assim, que se observe o princípio da tipicidade, não exclusivo do Direito Penal, no sentido de que somente a configuração da conduta descrita previamente na norma pode acarretar consequências jurídicas negativas à elegibilidade do cidadão156. Isso também se

154 Nesse sentido, PEDRO ROBERTO DECOMAIN aponta que o § 9º do art. 14 da CF/88 não constitui, por si só, uma causa de inelegibilidade e, por essa razão, não é autoaplicável (Elegibilidade ..., cit., p. 150). Em posição contrária, NILO FERREIRA PINTO JÚNIOR, mesmo depois da Lei da Ficha Limpa, e desconsiderando a decisão do STF na ADPF n.º 144, defende a possibilidade de a Justiça Eleitoral avaliar a vida pregressa do candidato como se fosse uma cláusula aberta para aferir a moralidade para a candidatura na eleição (cfr. Direito eleitoral e moralidade - a

vida pregressa do candidato como condição autônoma de elegibilidade, Curitiba, Juruá, 2014, pp. 107-116). 155 Em razão da clareza da norma do § 9º do art. 14 da CF/88, a alegada inércia do Legislativo deveria ter sido discutida através de Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão, no escopo de instar o Parlamento a criar novas causas de inelegibilidade, e não através de ADPF, com o fim de obter permissão para a Justiça Eleitoral avaliar a ocorrência de situações incompatíveis com a moralidade para o exercício do mandato.

156 Sobre a tipicidade, ensina ANTÔNIO CARLOS MENDES: “Em virtude dos postulados constitucionais atinentes à

segurança e certeza jurídicas, a lei complementar deve adotar a técnica de elaboração do modelo de fato (‘facti

species’) e a estatuição (necessidade de uma conduta estipulando-lhe a relevância temporal). Os preceitos da lei complementar deverão ser, a exemplos das hipóteses constitucionais de inelegibilidades, exaustivos e taxativos.” (Introdução à teoria das inelegibilidades ..., cit., pp. 132-133, grifos do autor). Para LOURIVAL SEREJO, em semelhante sentido: “As inelegibilidades são subordinadas ao princípio da legalidade. Não há inelegibilidade sem previsão legal.” (Direito eleitoral ..., cit., p. 68).

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traduz na exigência de segurança jurídica para o cidadão, que não pode ser tolhido de seu direito de concorrer a cargo eletivo por descumprimento de normativo inexistente à época da eleição, apenas sob a alegação de que sua vida pregressa, aos olhos da autoridade judicial – incompetente para essa valoração –, seria incompatível ao exercício do mandato157.

A aplicação do princípio da tipicidade estrita acarreta a necessária observância de duas regras interpretativas para verificar a incidência de inelegibilidade. A primeira é a de que toda exegese com este propósito deve ser restritiva, isto é, “há o modelo legal e só havendo adequação exata com a situação fática, é que se deve aceitar a inelegibilidade no caso concreto”158. A outra, que resulta daquela, consiste em se vedar a interpretação por analogia para configuração da inelegibilidade, uma vez que “o que não ingressou no preceito positivo, mesmo que análogo, entende-se como fora da normatividade”159.

Em suma, não se pode aludir à vida pregressa como se fosse um instituto jurídico eleitoral do qual resultariam diretamente repercussões negativas à elegibilidade dos cidadãos. A análise da vida pregressa dos candidatos se restringe à verificação da incidência ou não de causas típicas de inelegibilidade, notadamente aquelas de natureza infraconstitucional que foram criadas justamente com amparo na previsão do art. 14, § 9º da CF/88, visando a escrutinar situações ou fatos da vida do candidato que possam macular os interesses de uma eleição legítima e sem a prática de condutas abusivas.

Em conclusão, é defeso ao Juiz Eleitoral indeferir o registro de candidatura com base numa situação eventualmente reprovável moralmente que o candidato incida, caso não esteja contemplada como inelegibilidade na CF/88 ou na LC n.º 64/1990. As causas de inelegibilidade são apenas as previstas expressamente em atos normativos formais, que se verificam, na ordem jurídica brasileira atual, nas seguintes disposições: (i) os §§ 4º a 8º do art. 14 da CF/88; (ii) os incisos I a VII do art. 1º da LC n.º 64/1990; e (iii) o inciso XIV do art. 22 da LC n.º 64/1990, que prevê a apenação ao indivíduo da sanção de inelegibilidade, encerrando também uma causa de inelegibilidade, embora com formatação jurídica distinta das anteriores.

157 Cfr. PANUTTO, Peter, Inelegibilidades ..., cit., p. 116; CARVALHO, João Fernando Lopes de, “Inelegibilidades constitucionais”, in ROLLO, Alberto (org.), Elegibilidade e inelegibilidade ..., cit., p. 142; PAZZAGLINI FILHO, Marino, Lei de inelegibilidade comentada ..., cit., pp. 1-2; e SCARPINO JR., Luiz Eugênio, Moralidade eleitoral e juristrocacia: análise crítica da Lei da ficha limpa - Lei complementar n. 135/10, Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2016, pp. 116-119.

158 NASCIMENTO, Tupinambá Miguel Castro do, Lineamentos de Direito Eleitoral: comentários e legislação, Porto Alegre, Síntese, 1996, p. 66.

159 Ibidem, p. 66. Em igual posição, quanto à exigência de interpretação restritiva na inelegibilidade e vedação do uso da analogia, cfr. AMARAL, Roberto; CUNHA, Sérgio Sérvulo da, Manual das eleições ..., cit., pp. 640-641.

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Registre-se, em complemento, que a discussão sobre a fluidez do conceito de vida pregressa adequada para o exercício de mandato – e do possível impedimento à candidatura –, foi minorada a partir da edição da Lei da Ficha Limpa, que enquadrou diversas situações moralmente irregulares e afrontosas para com a sociedade como hipóteses de inelegibilidade, acolhendo os anseios populares que deram origem ao novo marco normativo160.