Sumário: 1. Jurisdição civil x jurisdição penal. 2. Efeitos civis da sentença penal condenatória: a execução civil da sentença penal e a ação civil ex delicto.
1. JURISDIÇÃO CIVIL X JURISDIÇÃO PENAL
O ponto de partida de nossa investigação acerca do crime e sua repercussão civil é a análise do art. 935 do Código Civil Brasileiro (art.
1.525, CC-16; no CPP, art. 66):
“Art. 935. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal”.
Apenas estes dois fundamentos da sentença penal absolutória têm o condão de prejudicar definitivamente a reparação civil: negativa material do fato ou negativa de autoria1.
Consoante já anotamos, a responsabilidade jurídica é conceito-chave do qual defluem os seus dois importantes ramos: a responsabilidade civil e a responsabilidade penal2.
Ora, um ilícito penal — a exemplo de um homicídio ou um roubo — gera também consequências civis, que deverão ser devidamente sopesadas e aferidas no juízo próprio, segundo as regras legais de competência.
Vê-se, portanto, da análise desse artigo, a relativa independência entre os juízos civil e criminal3, na medida em que se proíbe a rediscussão da materialidade do fato ou de sua autoria, se tais questões já estiverem decididas no juízo criminal. Assim, no exemplo do homicídio, se o réu lograr êxito na demanda, demonstrando cabalmente a negativa de autoria, não terá legitimidade passiva para figurar no polo passivo de uma demanda indenizatória.
Observe-se, nesse diapasão, que o Código de Processo Penal traz disposição no sentido de que “a ação para ressarcimento do dano poderá ser proposta no juízo cível, contra o autor do crime e, se for o caso, contra o responsável civil” (art. 64).
Logo após, dispõe: “Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito”.
Lembre-se, apenas, de que o reconhecimento de alguma excludente de ilicitude — a exemplo da legítima defesa — nem sempre impede que o agente indenize, como na hipótese de o agredido, em sua repulsa legítima, incorrer em erro de execução, atingindo terceiro inocente. Deverá, pois, ressarcir este último, com ação regressiva contra o verdadeiro autor do dano.
Outras causas de absolvição no Juízo Criminal, todavia, como a falta de provas ou a prescrição, não têm o condão de prejudicar o trâmite da demanda cível.
2. EFEITOS CIVIS DA SENTENÇA PENAL CONDENATÓRIA: A EXECUÇÃO CIVIL DA SENTENÇA PENAL E A AÇÃO CIVIL “EX DELICTO”
O art. 91, I, do Código Penal estabelece como efeito da sentença penal condenatória “tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime”4.
A vítima ou seus sucessores buscam esse ressarcimento por meio da denominada ação civil ex delicto.
O art. 63 do CPP, por sua vez, refere ainda que, com fulcro na própria sentença penal condenatória (título executivo judicial), poderá o ofendido, seu representante legal ou herdeiros, em vez de intentar demanda de conhecimento, promover diretamente a execução judicial5.
Não seria justo que, consumado o ato criminoso, a vítima ou os seus familiares não tivessem o direito de demandar o infrator, para efeito de buscar a reparação devida.
Aliás, a preocupação com o sujeito passivo do crime é verificada na própria Carta da República, quando determina, em seu art. 245, lamentavelmente pouco conhecido, que a legislação ordinária deverá dispor sobre as hipóteses e condições em que o Poder Público dará assistência aos herdeiros e dependentes carentes de pessoas vitimadas por crime doloso, sem prejuízo da responsabilidade civil do autor do ilícito.
Pois bem.
Essa “responsabilidade civil”, como já dissemos, é exigida por meio da propositura da ação civil ex delicto, disciplinada nos arts. 63 a 68 do Código de Processo Penal, sem prejuízo de se poder, como visto, intentar diretamente a execução da sentença penal já transitada em julgado.
Nesse ponto, oportunas são as palavras de ARAKEN DE ASSIS:
“No caráter autônomo da ação civil se depara benfazeja opção assegurada à vítima. Evidentemente, os termos da alternativa não incluem a adesão ao processo penal, pois o sistema proíbe tal espécie de cúmulo objetivo, somente excepcionado em aspecto assaz secundário, como se observa no texto do art. 120 do Cód. de Proc. Penal.
Em razão direta do princípio da autonomia, o ajuizamento da demanda reparatória não se adscreve ao início da ação penal. É inteiramente livre a vítima para ajuizá-la logo ou aguardar o pronunciamento definitivo da sentença legal repressiva”6.
O foro competente para o deslinde da ação, inclusive a execução baseada em sentença penal condenatória, segundo assentado na doutrina, é o do local do crime ou o do autor, nos termos do art. 100, V, a, do CPC.
Ainda sobre a competência, preleciona o culto FERNANDO CAPEZ:
“A ação civil de conhecimento, ou a executória, precedida da necessária ação de liquidação, devem ser propostas perante o juízo cível (CPC, art. 575, IV). No juízo cível, embora a ação se funde em direito pessoal, o foro territorialmente competente não é o do domicílio do réu, segundo a regra geral, estabelecida no art. 94 do Código de Processo Civil. O autor, neste caso, tem o privilégio de escolher um dos foros especiais, previstos no art. 100, parágrafo único, do Código de Processo Civil, que assim dispõe: ‘Nas ações de reparação de dano sofrido em razão do delito ou acidente de veículos, será competente o foro do domicílio do autor ou do local do fato’. O autor pode, portanto, fazer uso do privilégio de escolher o foro de seu domicílio ou foro do local em que ocorreu a infração penal”7.
A legitimidade ativa para a propositura da demanda reparatória é reconhecida à vítima, a seu representante legal e aos sucessores, nos termos do art. 63 do CPP. Note-se, outrossim, a legitimidade extraordinária conferida ao Ministério Público para executar a sentença penal ou ajuizar diretamente a ação civil, se o titular da reparação do dano for pobre, nos termos do art. 68 do CPP.
Trata-se, pois, de hipótese em que o MP atua como substituto processual8.
O professor ARAKEN DE ASSIS lembra que a “pobreza” exigida na regra deve ser concebida à luz das disposições comuns da Lei n.
1.060, de 5-2-1950, aplicável aos litígios civis9.
No aspecto passivo, tem legitimidade para figurar como réu na ação civil apenas o autor do crime ou o seu responsável civil, lembrando-se que, por princípio constitucional, os lembrando-seus herdeiros não poderão lembrando-ser compelidos a indenizar a vítima (“a pena não poderá passar da pessoa do criminoso”).
Importantíssima, aliás, é a observação feita pelo multicitado Desembargador do TJRS, no sentido de que “é imperioso, nesta altura, distinguir a legitimidade passiva da execução baseada na sentença penal condenatória (art. 475-N, II, do Cód. de Proc. Civil), que só pode atingir o(s) condenado(s), no âmbito penal, e a da ação reparatória, que abrange, eventualmente, os responsáveis, que, por não figurarem no processo crime, jamais poderão ser executados a partir daquele título. Por tal motivo, desejando o lesado obter a reparação do dano de algum responsável — v.g. do empregador do motorista que provocou o acidente de trânsito —, deverá ajuizar a ação civil desde logo, pois a futura condenação do autor do ilícito penal em nada lhe beneficiará neste desiderato”10.
No mesmo sentido, SÍLVIO DE SALVO VENOSA: “Para que terceiros sejam chamados a reparar o dano, deve ser promovida ação de conhecimento, a denominada actio civilis ex delicto, sendo-lhes estranha a matéria decidida no juízo criminal, abrindo-se, assim, ampla discussão sobre o fato e o dano no juízo cível”11.
Uma observação pertinente, ainda, em relação a esse tipo de pretensão se refere à prescrição.
Com efeito, o CC-02, trazendo regra sem equivalente no CC-16, estabeleceu, in verbis:
“Art. 200. Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo criminal, não correrá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva”.
Registre-se, porém, a bem da verdade e da justiça com os tribunais brasileiros, que a regra encontrava guarida, ainda que tímida, em alguns julgados esparsos12.
Finalmente, é bom lembrar que, desde a edição da Lei n. 9.099/95, referente às infrações penais de menor potencial ofensivo — cujo âmbito de aplicação fora alterado pela edição posterior da Lei dos Juizados Especiais Federais (Lei n. 10.259/01) —, é permitido ao juiz, nas infrações com pena não superior a dois anos, e que não sejam de ação penal pública incondicionada, instar as partes à composição civil, em audiência, com o efeito de, em havendo êxito, prejudicar a persecução criminal, por força da extinção da punibilidade13.
1 “Direito civil. Responsabilidade civil. Actio civilis ex delicto. Indenização por acidente de trânsito. Extinção do processo cível em razão da sentença criminal absolutória que não negou a autoria e a materialidade do fato. Art. 1.525 CC. Arts. 65 a 67 CPP. Recurso provido.
I — Sentença criminal que, em face da insuficiência de prova da culpabilidade do réu, o absolve sem negar a autoria e a materialidade do fato, não implica na extinção da ação de indenização por ato ilícito, ajuizada contra a preponente do motorista absolvido.
II — A absolvição no crime, por ausência de culpa, não veda a actio civilis ex delicto.
III — O que o art. 1.525 do Código Civil obsta é que se debata no Juízo cível, para efeito de responsabilidade civil, a existência do Fato e a sua autoria quando tais questões tiverem sido decididas no Juízo criminal” (STJ, REsp 257827/SP; REsp 2000/0043082-0, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, j.
13-9-2000, 4.ª Turma).
“Responsabilidade civil. Acidente de trânsito. Culpa concorrente da vítima. Pensão devida a filho menor (dano material). Direito de acrescer.
1. A culpa tanto pode ser civil como penal. A responsabilidade civil não depende da criminal. Conquanto haja condenação penal, tal não impede se reconheça, na ação civil, a culpa concorrente da vítima. O que o art. 1.525 do Cód. Civil impede é que se questione sobre a existência do fato e de sua autoria.
2. Em caso de dano material, a obrigação de pensionar finda aos vinte e quatro anos. Precedentes do STJ: REsp’s 61.001, DJ de 24.4.95, e 94.538, DJ de 4.8.97.
3. De acordo com o Relator, é cabível a reversão da pensão aos demais beneficiários (Súmula 57/TFR e REsp 17.738, DJ de 22.5.95). Ponto, no entanto, em que a Turma, por maioria de votos, entendeu não configurado o dissídio.
4. Recurso especial conhecido pelo dissídio e provido em parte” (STJ, REsp 83889/RS; REsp 1995/0069378-0, Rel. Min. Nilson Naves, j. 15-12-1998, 3.ª Turma).
“Civil e processual civil. Sentença criminal absolutória. Legítima defesa reconhecida. Efeito na pretensão indenizatória. Causa superveniente. Arts.
65/CPP, 160/CC e 741, VI/CPC. A absolvição criminal com base em legítima defesa exclui a ‘actio civilis ex delicto’, fazendo coisa julgada no cível. A absolvição no Juízo Criminal, pelo motivo acima apontado, posterior à sentença da ação civil reparatória por ato ilícito, importa em causa superveniente extintiva da obrigação, por isso que pode ser versada nos embargos a execução fundada em título judicial, na previsão do art. 741, VI, do Código de Processo Civil. Recurso provido” (STJ, REsp 118449/GO; REsp 1997/0008609-7, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, j. 26-11-1997, 4.ª Turma).
2 Confira-se, a propósito, o Capítulo I (“Introdução à Responsabilidade Jurídica”), tópico 4 (“Responsabilidade Civil x Responsabilidade Criminal”).
3 “Medida cautelar. Sobrestamento de ação civil ex delicto. Impossibilidade. Instâncias cível e criminal. Independência, exceção.
I — As esferas cível e criminal guardam independência, salvo quanto à autoria ou inexistência do fato.
II — Não se defere medida cautelar quando ausentes seus pressupostos, máxime sendo ela usada com objetivo de impedir o acesso à jurisdição cível.
III — Agravo regimental desprovido” (STJ, AGRMC 3080/MG; Agravo Regimental na Medida Cautelar 2000/0086387-4, Rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro, 3.ª Turma, j. 5-10-2000).
4 A Lei n. 11.719/2008, alterando o art. 387 do Código de Processo Penal, no inciso IV, estabeleceu que o próprio juiz penal, ao proferir a sentença, estabelecerá um “valor mínimo” para a reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido.
5 Neste sentido, dispõe o art. 475-N, II, do Código de Processo Civil brasileiro, com a redação incluída pela Lei n. 11.232/2005:
“Art. 475-N. São títulos executivos judiciais:
(...)
II — a sentença penal condenatória transitada em julgado;”.
6 Araken de Assis, Eficácia Civil da Sentença Penal, 2. ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 66.
7 Fernando Capez, Curso de Processo Penal, 3. ed., São Paulo: Saraiva, 1999, p. 137.
8 “Reparação de danos. Ação indenizatória ‘ex delicto’. Legitimidade do Ministério Público para intentá-la na qualidade de substituto processual. Art.
68 do CPP. Inconstitucionalidade progressiva reconhecida pelo C. STF. Não implementada ainda a defensoria pública no estado de origem, admite-se a legitimidade do Ministério Público para propor a ação civil ex delicto, nos termos do art. 68 do CPP. Precedentes da Eg. Quarta Turma. Recurso especial conhecido e provido” (STJ, REsp 94070/SP; REsp 1996/0025077-4, Rel. Min. Barros Monteiro, j. 1-4-1997, 4.ª Turma).
9 Idem, p. 71.
10 Araken de Assis, ibidem, p. 73.
11 Sílvio de Salvo Venosa, Direito Civil — Responsabilidade Civil, 3. ed., São Paulo: Atlas, 2003, p. 135.
12 “Processual civil. Ação civil por ilícito penal, ajuizada com mais de cinco anos do fato. Fundo de direito. Prescrição: inocorrência. Interpretação harmônica (CPP, art. 63, CC, art. 1.525 e CPC, art. 475-N, II). Recurso especial não conhecido.
I — O recorrido foi ferido por policial militar. Ao invés de ajuizar, desde logo, ação cível (CC, art. 1.525), preferiu aguardar, por 15 anos, a sentença penal condenatória transitada em julgado. O Código Civil faz parte de um sistema. Assim, duas normas e princípios devem ser interpretados de modo coerente, harmônico, com resultado útil. Dessarte, não se pode invocar, como faz o recorrente, a prescrição do fundo de direito. Tal interpretação levaria ao absurdo e à iniquidade: se o próprio CPC confere executoriedade a sentença penal condenatória transitada em julgado (art. 548, II), não se poderia, coerentemente, obrigar a vítima a aforar a ação civil dentro dos cinco anos do fato criminoso. Afastamento do Dec. n. 20.910/32.
II — Recurso especial não conhecido” (STJ, REsp 80197/RS; 1995/0061141-4, Rel. Min. Peçanha Martins, Rel. p/ acórdão Min. Adhemar Maciel, 2.ª Turma, j. 20-10-1997).
“Civil. Ação de indenização por ato ilícito. Prescrição. A ação civil de reparação de dano ex delicto fundada na responsabilidade objetiva obedece ao prazo prescricional do art. 1.º do Decreto n. 20.910/32 e como tal, computável da data do fato ou ato lesivo” (STJ, REsp 8273/SP; REsp
1991/0002590-9, 2.ª Turma, Rel. Min. Américo Luz, j. 20-9-1993).
13 A respeito do tema, cf. a obra Juizados Especiais Criminais — Comentários à Lei n. 9.099, de 26-9-1995, Ada P. Grinover et al., 4. ed., São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2002.