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RESPONSABILIDADE INTERNACIONAL

No documento Resumos Livro Jorge Miranda(1) (páginas 56-58)

A responsabilidade internacional em geral

Sempre que um sujeito de Direito viola uma norma ou um dever a que está adstrito em relação com outro sujeito ou sempre que, por qualquer forma, lhe causa um prejuízo, incorre em responsabilidade; fica constituído um dever específico para com o lesado.

Os Estados e as entidades públicas respondem pelos prejuízos das suas acções ou omissões na esfera interna, pelo que na esfera internacional, também os sujeitos de direito internacional respondem pelos actos ilícitos ou lícitos que lesem direitos e interesses de outros sujeitos.

No direito internacional sobressaem:

- A relevância dos interesses políticos conexos com a soberania dos estados e a tendencial identificação dos danos morais com a lesão desses interesses.

- A não rara complexidade da relação.

- A consequência relevância, entre as modalidades de reparação dos danos.

- A prevalência dos mecanismos diplomáticos sobre os mecanismos jurisdicionais de efectivação.

- A frequência de formas de autotutela como retorsão (resposta a violação de interesses do estado por meio de actos lícitos – ruptura de relações diplomáticas) ou a represália (reacção através de acto ilícito, seja pacífico ou não).

Alguns sinais de mudança:

- A responsabilidade internacional era até há pouco responsabilidade dos estados nas relações entre eles, hoje conhece-se também a responsabilidade de organizações internacionais.

- A responsabilidade internacional surgiu como responsabilidade colectiva e próxima de responsabilidade civil vem despontando.

- O reconhecimento da responsabilidade individual e criminal ao lado de responsabilidade colectiva (a partir de Nuremberga em 1945).

- A responsabilidade não só de actos ilícitos mas também uma responsabilidade por risco.

- Até à Carta das Nações Unidas aceitava-se o emprego da força para o Estado lesado restaurar a situação anterior; hoje somente tal é permitido ao Conselho de Segurança.

A responsabilidade dos Estados

Em qualquer ordenamento ou sector jurídico, a responsabilidade envolve quatro elementos: - Um comportamento; a sua imputação; o dano; o nexo de causalidade.

Tem de haver uma acção ou omissão, atribuída ou atribuível a certo sujeito e que cause um prejuizo moral ou patrimonial a outro, verificando-se uma relação necessária entre o comportamento e o dano.

Considerando agora apenas a problemática respeitante ao estado, verifica-se que a conduta pode assumir diferentes configurações. Donde:

- Responsabilidade por acção e responsabilidade por omissão.

- Responsabilidade directa decorrente de acção ou omissão de órgãos ou agentes de outras entidades públicas.

- Responsabilidade por actos de Direito Internacional ou regidos pelo Direito Internacional e responsabilidade por actos de Direito interno.

- Responsabilidade por actos no interior do território e por actos no território doutro estado.

Em qualquer circunstância o fundamental é a conduta, a culpa ou o dolo apenas servem para graduar a responsabilidade. Os particulares podem praticar actos que acarretem responsabilidade do estado em face do Estado estrangeiro. É o que acontece tipicamente havendo motins ou qualquer perturbação pública que afecte a representação de cidadãos de Estado estrangeiro, mormente quando as forças da ordem não tenham assegurado. Aqui a responsabilidade do estado tem por pressuposto a actividade ilícita dos particulares.

Ocorrendo rebelião ou insurreição, o Estado responde tanto pelos danos provocados pelas autoridades constituídas e pelos seus agentes quanto pelos danos provocados pelos rebeldes. Ou seja, a conduta é do próprio Estado, independentemente da sucessão de formas políticas e de Governos.

O lesado pode ser um particular, mas não gozando ele de subjectividade internacional, haverá que obter a mediação do estado por via da protecção diplomática.

A legítima defesa, o consentimento da vítima, a força maior e o estado de necessidade são causas de exclusão de ilicitude. Mas não isentam (salvo a legítima defesa) do dever de indemnizar.

A responsabilidade internacional penal do indivíduo

É relativamente recente a problemática de uma responsabilidade internacional penal do indivíduo, de um Direito Internacional Penal sobretudo para a defesa dos Direitos do Homem.

Eis os traços básicos da competência do Tribunal Penal Internacional, tal como resulta do seu Estatuto:

- Crimes sujeitos à jurisdição do tribunal são o genocídio, os crimes contra a humanidade os crimes de guerra e o crime de agressão (arts. 5.º e segs).

- Um estado que seja parte no estatuto aceita a jurisdição do Tribunal relativamente àqueles crimes (art. 12.º).

- O Tribunal não admite um caso quando ele seja objecto de inquérito ou de processo no estado que tenha jurisdição sobre o mesmo (art. 17.º) pretende-se com isto congregar o princípio da jurisdição obrigatória com aquilo a que se vem chamando o princípio da complementariedade.

- O conselho de Segurança pode impedir o início ou a continuação de uma investigação com base numa resolução aprovado ao brigo do Capítulo VII da Carta das N.U. (art. 16.º).

Por outro lado, estabelece-se:

- Não-imunidade dos titulares de cargos políticos (art. 27.º).

- Não isenção de responsabilidade criminal dos subordinados, quando as ordens cumpridas sejam ilegais (art. 33.º). - Imprescritibilidade dos crimes (art. 29.º).

- Obrigações de cooperação dos Estados (art. 86.º), designadamente da entrega de pessoas ao Tribunal (art. 89.º). - Proibição de reservas ao estatuto (art. 127.º).

No que toca a normas substantivas e processuais refira-se os arts. 21.º, 22.º; 34.º, 35.º, 61.º, 63.º, 66.º, 77.º, 79.º, 84.º, 110.º.

O tribunal Penal internacional aparece como novo paradigma do Direito internacional penal, no entrosamento da ordem jurídica internacional e das ordens jurídicas internas. Por isso e devido à natureza compromissória do estatuto e à deficiente redacção de não poucos preceitos, são múltiplos os problemas que ele envolve.

Para lá da superação do dogma da soberania, em alguns países surgiram dificuldades de compatibilização com as suas Constituições, obrigando a prévias revisões antes de ser possível a ratificação. Foi o caso de Portugal (quanto ao problema da prisão perpétua).

Da revisão operada em 2001 resultou o novo art. 7.º, n.º7, e de seguida a aprovação do estatuto pela A.R. e a ratificação pelo P.R. e assim Portugal viria a ser um dos países fundadores.

No documento Resumos Livro Jorge Miranda(1) (páginas 56-58)