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4.4 Práticas: o lugar da Responsabilidade Social Empresarial

4.4.1 Responsabilidade Social Empresarial e Ética

Para pensar a relação entre a ética e a RSE, é necessário compreender as organizações privadas enquanto atores da sociedade que contribuem na construção dos valores e do modelo de funcionamento desta.

Para Mattar (2001) e França (2005), a RSE é uma evolução do homem e do sistema econômico mundial, uma saída para os atuais problemas de desigualdade e miséria geograficamente localizados, podendo vir a representar possibilidade de um prognóstico mais favorável ao futuro do homem e da sociedade, a partir de uma maior harmonia e equilíbrio entre o sistema econômico, o social, o político e o ambiental.

Em sua abordagem, o Instituto Ethos explicita a idéia de que a ética está intrinsecamente vinculada à RSE:

[...] A ética é a base da responsabilidade social, expressa nos princípios e valores adotados pela organização. Não há responsabilidade social sem ética nos negócios. Não adianta uma empresa pagar mal seus funcionários, corromper a área de compras de seus clientes, pagar propinas a fiscais do governo e, ao mesmo tempo, desenvolver programas voltados a entidades sociais da comunidade. Essa postura não condiz com uma empresa que quer trilhar um caminho de responsabilidade social. É importante haver coerência entre ação e discurso [...] (ETHOS, 2004, p. 1).

Na verdade, em um efeito cascata, quando os consumidores e investidores mostram na prática que as questões ambientais e as relações de trabalho são

importantes, as empresas se vêem obrigadas a rever sua forma de agir (BAGGIO apud TREVISAN, 2002; MATTAR, 2001; REIMAN apud HAYDEL, 1989).

Algumas ações sociais corporativas trazem não apenas um discurso ético, mas atuações efetivas de apoio e contribuição às comunidades atendidas, com indícios de melhoria significativa da qualidade de vida destas comunidades. As práticas de apoio social da Companhia Vale do Rio Doce, descritas no livro da ABM, e transcritas no apêndice X deste estudo, parecem adequadas a ilustrar esta afirmação.

Por outro lado, importante salientar que algumas ações solidárias ou de RSE refletem não necessariamente uma política organizacional devido aos primeiros escalões da gestão, mas são um reflexo dos atores que compõem o quadro funcional em níveis operacionais, técnicos e de supervisão dentro da organização, mas que ainda encontram forte resistência da alta administração para implementar uma proposta solidária.

Exemplo disso verifica-se na contratação de pessoas com algum tipo de deficiência, quando algumas organizações dão preferência a pessoas com “uma dificuldadezinha” ou com deficiência motora que não impeça a locomoção autônoma, ou com surdez ou cegueira parciais, rejeitando em geral pessoas com deficiência mental, porque supõem que representariam maior dispêndio da empresa para adaptá-lo ao trabalho. Ainda assim, na maioria das vezes, a empresa não chega sequer a cumprir a Lei26, de cotas imposta pelo Estado. Aliás, nem mesmo o Estado e suas corporações cumprem esta Lei.

Em seu texto, Credídio afirma que o discurso de algumas empresas não condiz, na prática, com sua postura nas questões verdadeira e socialmente responsáveis quanto à ética em acordos e negociações com ONG´s e outras organizações que buscam apoio financeiro para seus projetos e que esta atitude por parte das organizações

[...] denota que as corporações ainda não estão preocupadas, como delas se esperaria, em fazer da ética o eixo principal na implantação de suas políticas de cidadania e governança corporativa. (...) É (preciso) sair do discurso vazio para a ação, é ter ética, é respeitar as organizações que as

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Leis de cotas: “Constituição Federal de 1988, inciso XXXI, art 7º (...), o artigo 37, inciso VIII, estabelece que: “a lei reservará um percentual de cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência” (PASTORE, 2000, p.42). Além disso, ainda segundo Pastore, a “Lei n. 7.853/89 (...) no seu artigo 2º ( Inciso II) prevê a promulgação de outra lei com o objetivo de criar e assegurar uma reserva de mercado em toda a economia brasileira: d) adoção de legislação específica que discipline a reserva de mercado de trabalho, em favor das pessoas portadoras de deficiência, nas entidades da administração pública e do setor privado.” (PASTORE, 2000, p. 45).

procuram – mesmo porque não estão fazendo qualquer favor em relação a isso [...] (CREDÍDIO, 2003, p.4).

Entretanto, pode ser salientado que o discurso e atuação de algumas organizações parecem muito afinados com ideais éticos e solidários, o que se sobressai não só pelo montante de recursos investidos, mas também pela forma com que tais investimentos são pensados e administrados. Exemplo concreto pode ser visualizado no relato da Vale do Rio Doce, que investiu, em 2002, R$ 120 milhões de reais em infra-estrutura da cidade de Canaã dos Carajás, cidade ao sul do Estado do Pará, que pulou de 11 mil habitantes, em 2000, para 17 mil em 2004. (Apêndice VIII):

[...] “Partimos da premissa de que, em médio e longo prazo, a cidade não pode ser dependente da empresa. (...) a cidade precisa se desenvolver de maneira sustentada (...) A comunidade organizada, juntamente com o poder público, é que será a protagonista do seu desenvolvimento. A empresa vai disponibilizar recursos e conhecimento. (...) Por enquanto, os investimentos se traduzem em melhorias na infra-estrutura da cidade. A companhia investiu no asfaltamento dos 86 quilômetros da rodovia que liga Canaã dos Carajás a Parauapebas. (e) dentro do município (...). Debaixo dessa pavimentação, foram construídas redes de água e de esgoto que cobrem um terço da área da cidade.” (...) A Vale reformou o hospital municipal e está construindo outro [...] (ABM, 2004, p.33).

Outras iniciativas do setor privado na área de responsabilidade social apontam para a efetividade que as pressões exercidas pela sociedade civil têm alcançado, tanto no que tange o governo americano à sociedade, quanto no que diz respeito ao meio ambiente. E, nestes casos, não é possível refutar o argumento de que por mais que a lógica econômica esteja em desacordo com valores éticos e solidários, as ações das organizações neste campo podem trazer impactos significativos para o mundo e vir a representar uma das saídas para o atual quadro de desigualdade social e devastação ambiental.

O Instituto Akatu (2005) refere que em se mantendo contrário ao Protocolo de Kyoto27, dezoito (18) empresas americanas colocaram em andamento o que chamam de “operação Bolsa do Clima de Chicago” (AKATU, 2005), cujo objetivo é

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Protocolo de Kyoto: Acordo internacional em que vários países industrializados se comprometem a reduzir a emissão de dióxido de carbono, gás responsável pelo efeito estufa. De acordo com o Protocolo, os países devem reduzir a emissão em, pelo menos, cinco por cento (5%) em relação aos níveis de 1990, no máximo até 2012 (AKATU, 2005).

diminuir em 4% as emissões de dióxido de carbono até 2006 em níveis equivalentes a 1998; os percentuais acima de 4% de redução poderão ser negociados por essas empresas na Internet. Esta atitude está aportada no fato de que os consumidores e a sociedade civil exigem maior empenho empresarial neste campo.