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3.3 PESQUISA PARTICIPANTE E A CONSTRUÇÃO DAS HISTÓRIAS DE VIDA:

3.3.3 Retorno e algumas questões do trabalho de campo

Retornei ao acampamento no começo desse ano. Levei as entrevistas para as pessoas olharem, lerem, conferirem e autorizarem seu uso na dissertação.

No meu retorno, pude perceber que muita coisa mudou, assim como eu mudei, meus olhares e percepções, meus conceitos, nessa caminhada toda de pesquisa.

A Escola Itinerante está maior, com mais estrutura física, e coma segunda parte do ensino fundamental e o médio funcionando. As melhorias na estrutura física foram feitas com trabalho e a maior parte dos recursos internos do acampamento. O Estado mandou as novas telhas para a Escola, no mais os recursos e o trabalho são próprios da comunidade.

Alguns educadores não são mais educadores, mas vivem no acampamento. Uma educadora faleceu. As coordenações mudaram, sobretudo as do Setor de Educação.

Fiquei na casa da Marilda, educadora e coordenadora geral do Setor de Educação do MST, pela brigada de 500 famílias. Ao vê-la no seu cotidiano, me vi e precisava desse retorno para confirmar uma nova forma de ler o mundo e a realidade. Uma forma diferente de me ler e aos outros.

Marilda, assim como eu e as outras educadoras que entrevistei e convivi tem uma grande capacidade de trabalho, criação e liderança, mas esbarram nas dificuldades que a condição de ser mulher no movimento social e na configuração patriarcal da família e do próprio movimento coloca.

Vendo isso e pesquisando a literatura a respeito percebi que as desigualdades não são somente as econômicas, e que não temos somente um inimigo de classe. Que elas são as de gênero, as culturais, as de raça, as de orientação sexual, múltiplas que acompanham a realidade que vivemos – nesse caso, dentro do movimento social.

Que muitas vezes o Movimento, através de suas lideranças reforça opressões no discurso homogêneo da luta contra o capital. E que a identidade Sem Terra é entendida nesse contexto do Movimento como única e deve-se trabalhar para que seja ser igual para todos, como resistência na luta de classes. Mas que de fato não é única, homogênea, e sim apresenta-se na diversidade humana de práticas e comportamentos, é plural, multicultural. E isso cria muitos conflitos no cotidiano do MST, na relação lideranças-base, nos processos de formação vividos nesse Movimento.

Posso dizer que na homogeneidade pretendida, o MST ainda é um movimento das lideranças masculinas, e que as mulheres vivem muitas opressões, como a Marilda, as educadoras, como eu vivi. Esse é apenas um dos aspectos dos conflitos em torna de questões identitárias e culturais que destaco aqui como muito forte, que aparece claramente durante a pesquisa. Existem outros que daremos destaque no decorrer do trabalho.

Essas são alguns retornos e mudanças de visão que o processo de pesquisar a realidade me deu.

FOTO 29: Conversando com a Marilda na Secretaria da Escola Itinerante. Essa foto foi tirada quando voltei para o acampamento para conferir as entrevistas com os colaboradores. Nessa manhã as educadoras e mulheres da comunidade estavam arrumando a Escola e fazendo pães e comida porque iria ter uma formação de 40 dias para educadores das Escolas Itinerantes de todo o Estado do Paraná. Essa formação que estava organizando era o MST, e o acampamento escolhido para sediar foi o Maila Sabrina. Então, o trabalho delas estava intenso. Fonte: Arquivo de pesquisa, 2009.

Essas questões que emergiram durante o trabalho de campo, foram dando o direcionamento das análises e revisões bibliográficas feitas, nos próximos capítulos desse trabalho.

Sobre o acampamento, posso dizer que ele é um vilarejo que insiste em dizer que é possível fazer nascer diante da perversidade da estrutura fundiária e do modelo agrícola que produz a exclusão das pessoas, a possibilidade dessas mesmas pessoas poderem viver, trabalhar e produzir, estudar e reinventar essa realidade tão dura, a produzida nesse contexto.

É importante observar que o Acampamento não se encerra em si nessa possibilidade de mudança. Ele é a expressão da contradição e da complexidade vivida nas relações sociais e humanas, nesse desenho de resistência que o MST produz nos acampamentos de reforma agrária.

Foi possível ver internamente no acampamento uma diversidade de pensamento, contradições na própria vida e organização social e política criada pelo MST, no trabalho com a

terra, no cuidado com as crianças, nas relações de gênero, enfim, nas várias dimensões que compõe a vida social e que produz essa existência e compõe a história. A possibilidade de mudança também não se basta na desapropriação da terra e criação de um assentamento de 500 famílias. As mudanças acontecem culturalmente, pouco a pouco, e o elemento conhecimento tem um papel fundamental nessa questão.

O acampamento existe, resiste a uma situação estrutural, a escola também, tem um papel importante no processo de luta, as pessoas constroem uma identidade com a luta pela terra, o MST, o campesinato, mas no cotidiano das relações sociais complexas dentro do acampamento as dificuldades em construir algo novo se colocam dia-a-dia.

O trabalho de registrar as histórias de vida trouxe a oportunidade de estabelecer com as pessoas que colaboraram com a pesquisa, uma espécie de diálogo onde todos fomos sujeitos do ato de contar sobre si. As mais diversas situações fizeram com que estabelecêssemos uma relação de confiança, igualdade e alteridade, para que as entrevistas pudessem ser gravadas. O respeito às dificuldades de cada um e cada uma, às diferenças, o incentivo e ajuda mútua, o se colocar no lugar do outro, me colocaram a possibilidade de, em interação nesse processo, entender que cada momento da pesquisa as pessoas se transformam, a partir do que narram ou a partir da experiência vivida. Elas não são as mesmas depois de estarmos juntas, nem tampouco eu sou a mesma.

FOTO 30: A bandeira do MST na escola estava sendo trocada por uma nova. Porque um novo ano escolar se inicia e também pelo encontro que estava para acontecer no acampamento com os educadores das Itinerantes do Paraná. Nessa foto os educadores da escola colocando a bandeira, um dos símbolos maiores do MST e, na Escola, símbolo que expressa identidade, marca a cultura escolar dessa escola da luta social. Fonte: Arquivo de pesquisa, 2009.

4 MOVIMENTOS SOCIAIS, MST E AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO: LIMITES E POSSIBILIDADES PARA CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA CIDADANIA

Para tratar do tema proposto nesse trabalho, levantando a reflexão sobre a Escola Itinerante em acampamentos do MST no Estado do Paraná, como uma política pública, é necessário buscar nas discussões atuais a respeito do Estado, das políticas públicas e da cidadania, alguns elementos que são fundamentais para essa discussão.

Isso porque quando se levanta a questão das políticas públicas, das políticas públicas de Educação do Campo e em especial das Escolas Itinerantes, é necessário o olhar para o contexto atual da sociedade e do Estado brasileiro e, na dinâmica social, a busca pela cidadania a partir da ação da sociedade civil organizada, dos movimentos sociais nessa sociedade.

É na relação complexa entre Estado e organizações da sociedade civil, que se situam as políticas públicas atuais, como a política pública de Educação do Campo e as Escolas Itinerantes no Paraná.

Assim para trazer elementos referentes a esses conceitos, e construir uma compreensão do contexto social e político em que se colocam as políticas públicas atuais, buscamos levantar as concepções de Estado, de política social, política pública que fundamentam as ações e como essas concepções foram sendo construídas ao longo da história.

Várias abordagens são dadas na análise do Estado no intuito de promover a reflexão da temática, assim como de trazer elementos para o debate nas ciências humanas e sociais, nos temas de pesquisas afins. Diante da ampla produção teórica acerca desse tema, propomos uma revisão para a presente proposta de se analisar uma política pública de Educação do Campo.

Nessa revisão interessa-nos, assim, levantar elementos referentes aos conceitos que ajudam a olhar o Estado,as políticas públicas e a sociedade civil.