CAPÍTULO 1 1814-1829: MISSÃO JESUÍTA EM PROGRESSO
1.5. Contexto Político em Portugal entre 1820 e 1828
1.5.6. Revolta do Conde de Amarante 23 de fevereiro de 1823
A primeira tentativa armada contra o regime constitucional registou-se em Vila Real onde, a 23 de fevereiro de 1823, o conde de Amarante, Manuel da Silveira Pinto da Fonseca, se revoltou contra a Constituição a favor de «El-rei absoluto».
Luís Reis Torgal menciona que “… a família dos Silveiras, a que pertenciam os condes de Amarante, […] tiveram um papel fundamental na acção contra-revolucionária”336. Também Teresa Martins Marques refere que nas suas
proclamações o conde, “… entre promessas de fidelidade à Religião, ao rei e a “sua augusta esposa” acusa a Constituição de responsável pela perda das “mais ricas possessões portuguesas na América e na Índia”337.
Esta rebelião visava libertar o rei e o País de “… um punhado de insectos destruidores da santa religião, do trono e da pátria” que em breve levariam à morte física toda a família real338.
335 FERREIRA, António Matos– “Desarticulação do Antigo Regime e guerra civil”. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – ibidem, pp. 21-35.
336 TORGAL, Luís Reis – “A contra-revolução e a sua imprensa no vintismo: notas de uma investigação”. In Análise Social, vol. XVI (61-62), 1980-l.º-2.º, 283.
337 MARQUES, Teresa Martins – “Uma carta inédita de Dona Carlota Joaquina”. In Navegações, vol. 2, nº 1, (jan./jun.) 2009, p.2. Vide Anexo 15.
338 Proclamação do conde de Amarante. In Documentos para a historia das Cortes geraes da nação
portugueza, I, Lisboa: Imprensa Nacional, 1883, pp. 596-597, (sem data).
Veja-se inclusive sobre o vintismo, do ponto de vista dos absolutistas, o Manifesto e a Exposição do conde de Amarante na mesma compilação, pp. 651-655 e 659-662, correspondendo a 2 e 15 de março de 1823.
152 Conta o visconde de Monte Alegre, seu contemporâneo, que, encontrando na corte o conde de Amarante, com ele principiou a “…combinar e concertar o modo de salvar a Sua Magestade, El-Rei Nosso Senhor da detestável facção Maçonica, e do Despotismo Constitucional, e indecencia com que El-Rei era menos presado”339.
Para Monteiro Cardoso, o projeto do conde de Amarante era baseado numa adesão das tropas portuguesas à revolta militar e consequente queda do sistema constitucional. O desenrolar da revolta teria os seguintes passos:
“A acção começaria na praça de Chaves e seria secundada em Braga, Guimarães e nas principais terras do Minho, onde desde há muito tempo se faziam aliciamentos. A guarnição de Bragança seguiria o exemplo de Chaves, após o que as tropas sublevadas das duas províncias do norte, marchariam para o Porto, onde se lhe juntariam ainda forças militares da Beira. Naquela cidade seria constituído um governo provisório, onde as tropas se manteriam até que outros corpos as seguissem, iniciando-se depois a marcha para Lisboa, como sucedera após o 24 de Agosto de 1820”340
O movimento acabou por ficar circunscrito à província de Trás-os-Montes, embora tivesse ramificações no Alentejo, e foi dominado pelo marechal Luís do Rego, governador das armas do Minho, que se encontrava encarregue de reprimir o exército contrarrevolucionário. Os revoltosos refugiando-se na Galiza “… onde constituíram uma «Junta de Regência interina em nome de el-rei D. João VI», presidida pelo conde de Amarante em Palência, com actividade até 7
339 MONTALEGRE, Visconde de - Memoria e exposição autentica da conducta civil e militar de Luis Vaz
Pereira Pinto Guedes, Lisboa, Imp. de João Nunes Esteves, 1823, p. 2.
340 CARDOSO, António Manuel Monteiro - A Revolução Liberal em Trás-os-Montes (1820-1834), 2005, pp. 343-344.
Segundo este autor, a narração mais completa da revolta pertence ao abade de Quinchães, António dos Santos Leal, o qual, nos finais de 1824, começou a passar a escrito a sua experiência como secretário do conde de Amarante. O relato intitula-se “Testemunho Imparcial ou Recordações Históricas e Críticas sobre
os princípios, progressos e fins da Empreza começada em Traz-os-Montes em 23 de Fevereiro...”. O
manuscrito pertencia ao abade de Miragaia, que o copiou, entregando uma cópia à Biblioteca Pública Municipal do Porto. Fernando de Sousa transcreveu-o, em anexo à sua tese de licenciatura, apresentada à Faculdade de Letras do Porto em 1973.
153 de maio”341. Num ofício de Luís do Rego, expedido de Amarante, acrescentava-
se: “… os povos desta parte de Trás-os-Montes estão sublevados quasi todos, e iludidos pelas Proclamações de António da Silveira e armados”342. Nessas
Proclamações ao povo da sua Província exortava-o a lutar contra o governo e manifestando-se contra a Maçonaria:
“Persigamos, escoltados da virtude, da honra e da firmeza do caracter portuguez, os malvados factores de nossos males, que pretendiam, alem de tantas perfídias já commettidas e sentidas, dissipar e destruir desde os fundamentos a soberana religião, o nosso augusto e fidelissimo senhor e monarca, e elevar sobre os thronos santissimos do Omnipotente, para que reverentes lhe prestássemos o culto divino, os abomináveis symbolos da esquadria, cordas, martellos"343
No mesmo dia de março de 1823, num Manifesto aos Portugueses, o Conde de Amarante vai acusar a fação maçónica de se ingerir no governo, “… obrigando as autoridades civis e militares a reconhecê-lo e a jurar uma constituição que ainda não existia”344.
As movimentações causadas por Silveira foram apenas a manifestação de uma parcialidade política que “…visava o regresso a um absolutismo extremado, que dificilmente poderia colher um apoio generalizado”345.
341 VENTURA, António – ibidem, 2013, p.127. 342 Diário do Governo, nº 68, 20 de março de 1823.
343 Proclamação do Conde de Amarante, general em chefe. Vila Real, 2 de março de 1823. In SÃO CLEMENTE, Barão de – Documentos para a Historia das Cortes Gerais da Nação Portuguesa, Tomo I: 1820-1825. Lisboa: Imprensa Nacional, 1883, p. 651.
344 Ibidem, passim.
154 Neste contexto de mobilização contra a ameaça contrarrevolucionária, os jornais absolutistas como a Gazeta Universal346, o Serpentão347, o Sega-Rega e
a Trombeta Lusitana348, foram obrigados a cessar a publicação, na sequência da
prisão ou desterro dos seus redatores, ordenada ao abrigo da lei de suspensão das garantias349.