CAPÍTULO 1: As personagens: do eu anónimo ao ser pessoa
1.3. Rita, protagonista no O Romance de Rita R
Antes de a configurarmos como narradora, Rita foi a personagem principal da sua história178. Tal facto permite-nos, desde logo, situá-la em dois níveis distintos, mas que se interligam: primeiramente, o da história e, depois, o do discurso narrativo.
Deste modo, e porque viveu os acontecimentos, constatamos que é Rita, personagem, quem melhor veicula todo um conjunto de conhecimentos indispensáveis à compreensão da obra. Interessada e atenta quer aos ensinamentos da tia Rute, quer aos diferentes acontecimentos que preenchem a sua vida, a sua escrita vem mostrar o modo como as crianças e os adolescentes "olham" a realidade que os cerca, com frequência acompanhada de alguma ironia crítica179 — e, como refere Harold Bloom, se «despirmos de ironia a leitura, esta perderá de uma vez só toda a disciplina e toda a surpresa» (BLOOM, H., 2001: 27).
Ora, esta surpresa mantém-nos atentos, de forma a podermos analisar que, se, em criança, o visionamento do Famílias Trocadas não lhe merece qualquer observação, já em adolescente, na condição de narradora, a atitude crítica começa a aflorar, ao ponto de considerar a sua própria vida «tão falsificada como a vida televisiva das personagens» (RRR: 180) daquele ―reality show‖ — além de não deixar também de criticar o desrespeito e incumprimento das tarefas domésticas, por parte de Gui, a empregada doméstica.
A adolescência, para o sexo feminino, é, como se sabe, uma fase marcada por um forte pendor para o confessionalismo e para a escrita (em segredo) dos diários; daí o predomínio de uma escrita de propensão autobiográfica180, ao longo da qual descreve os diferentes acontecimentos que preenchem a vida quotidiana da sua família. Sem plano previamente
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Trata-se de uma adolescente, estudante do 9º ano de escolaridade. É pelas suas palavras que tomamos conhecimento de que, presentemente, andam a ler o conto literário A Aia, de Eça de Queiroz (RRR: 45), uma das obras propostas para leitura orientada constante dos programas escolares (Ministério da Educação, p. 35). 179
Atente-se nas seguintes passagens: «Para quem não vê televisão, a tia Rute até que anda bem informada» (RRR: 24) e «É mais como um vídeo-diário do Famílias Trocadas, eles não dizem tudo o que fizeram durante o dia» (RRR: 27).
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Trata-se de uma escrita predominantemente subjectiva que, na opinião de Enzo Petrini, revela «por un lado, la polidricidad del alma juvenil, y por outro, una tendencia más bien literaria que psicológica, que va al encuentro de los anhelos juveniles con proposiciones y temáticas subjectivas, a menudo prevalentemente autobiográficas» (PETRINI, E., 1981: 136).
76 estabelecido, os acontecimentos vão sendo narrados, condicionados pelo desenrolar das lembranças, marcado por um registo retrospectivo.
Ora, enquanto personagem principal e narradora, Rita, ao narrar acontecimentos, vai imprimindo ao texto a sua própria visão. Daí, por exemplo, classificar as personagens com quem interage de personagens-tipo. Ao caracterizá-las desta forma, Rita, por um lado, dá a conhecer, aos leitores, de que modo os adultos são olhados pelos adolescentes e, por outro lado, mostra algum desânimo face a esta previsibilidade de comportamentos (característica das personagens que pouco evoluem ao longo da acção).
No entanto, não são apenas as personagens com quem mais directamente interage que são monótonas, de tão previsíveis. Com efeito, até a própria ficção televisiva se apresentará estranhamente enfadonha: sempre as mesmas personagens181, os mesmos estereótipos, as mesmas convenções sociais, as mesmas falsidades. O que nos permite compreender que a imprevisibilidade e o instantâneo constituem factores de mudança e dinamismo, importantes nesta etapa da vida182. Afiguram-se como situações mais realistas, em detrimento da ficção televisiva ou literária. Aliás, Rita insurgir-se-á também contra a falsidade dos reality shows, questionando de que modo eles conseguem ludibriar a realidade.
É, pois, aquela indeterminação, que a situação de imprevisibilidade encerra, que ajuda a criar um clima de suspense, conferindo dinamismo à sua vida quotidiana.
A personagem principal auto-caracterizar-se-á na parte final da obra, contra todas as sugestões, contra todas as poses e artificialidades televisivas — mas, para nós (leitores), de forma imprevisível183. Salientamos, aqui, o carácter de imprevisibilidade da situação, uma vez que consideramos que o leitor não está preparado para tal revelação — já que, até então, a personagem seguia, sem visível contestação, as sugestões da tia Rute.
Sendo assim, consideramos esta revelação (que a seguir transcrevemos) como o momento nuclear da narrativa184; parafraseando Seymour Chatman, e ainda que num outro
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A narradora apresenta, como exemplo, «uma personagem com ar de árabe […] sabe-se logo que é o mau da fita», «duas pessoas - um homem e uma mulher, ou um branco e um preto» (RRR:155-156). Quer isto dizer que a nossa atenção é orientada para o facto de a personagem ser feminina ou masculina, preta ou branca, ameaçadora ou amiga, de aparência normal ou ímpar (cf. HOCHMAN, B., 1985: 46).
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Enzo Petrini destaca curiosamente que «los muchachos […] prefieren las descripciones dinámicas […] a las estaticas» (PETRINI, E., 1981: 63).
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Seymour Chatman classifica este tipo de personagem como personagens «abiertos» ou «esféricos», ou seja, capazes de nos surpreender, de gerarem novas ideias (CHATMAN, S., 1990: 142).
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77 contexto crítico, acreditamos que a sua ausência poderia destruir a lógica da narrativa, uma vez que constitui um momento narrativo que dá «origen a puntos críticos en la dirección que toman los sucesos» (CHATMAN, S., 1990: 56). Com efeito, esta revelação de Rita, além de marcar a distância, ainda que virtual, entre o eu-criança e o eu-adolescente, institui a marca de uma mudança na forma de ser e de estar da personagem protagonista, na medida em que, instituindo-se como personagem esférica (id.: 141-142), ela não deixará de a partir de então nos surpreender.
Perigo! Proibida a entrada a Adultos! Mastigo pastilha elástica com a boca aberta. Respondo à letra, com duas pedras na mão, sem regras na língua. Sou uma personagem de um romance para jovens, engraçada, cheia de problemas que não são problemas a sério.
E tenho muita imaginação. Até ando a anunciar que vou escrever um romance! Sou tão criativa! (RRR: 180-181).
Nestas palavras, destaque-se, por um lado, a violência das palavras, constituindo um grito de revolta, de insubmissão, diríamos de afirmação da sua identidade, colocando em questão todo um mundo de valores e de convenções inculcados pela família e pela sociedade; por outro lado, realce para o facto de estas mesmas palavras mostrarem o seu amadurecimento psicológico, afectivo e social.
Com efeito, estas suas primeiras palavras são muito expressivas, na medida em que permitem exteriorizar o que há muito estava em ebulição. Diríamos, então, que Rita constrói uma barreira, intransponível, entre dois mundos: o dos adolescentes e o dos adultos, delimitando o seu espaço de acção. Todavia, esta expressividade é ainda mais presente, uma vez que está direccionada, concretamente, para os adultos.
Das palavras transcritas, não concluímos apenas a reacção, mais sensível, da personagem principal contra um mundo de saberes, anteriormente indicados, ou seja, contra comportamentos socialmente correctos ou eticamente mais aceitáveis. Com efeito, elas permitem-nos constatar que, inicialmente, Rita pode não estar consciente relativamente ao facto de os diferentes acontecimentos da sua vida lhe serem mais ou menos favoráveis. Queremos com isto dizer que, enquanto personagem da sua própria história, Rita nada questiona. Pelo contrário, os adultos, em especial a tia Rute, são, para ela, um exemplo de conduta pessoal e social. Ela refere, por exemplo, que a tia já leu «todos os romances mais
redistribuir os diferentes elementos do texto, permitindo (utilizando as palavras de Karlheinz Sterile) a construção de cadeias de sentidos e de «niveles de significación» (STIERLE, K., 1987: 116).
78 importantes da literatura mundial, e sabe um ror de poemas de cor» (RRR: 39)185.
Compreendemos, portanto, esta reacção, acima de tudo, como uma tentativa de libertação dos constrangimentos, dos preconceitos, das regras sociais, assim como de afirmação do seu valor pessoal perante os outros. No fundo, nessa reacção se revela como é importante expressar o que entende ser essencial, isto é, o que preenche o seu interior: as angústias, as suas tristezas, os seus medos, as suas dúvidas186.
No entanto, esta irreverência, consequência deste mal-estar interior adolescente, nem sempre é bem interpretado pelos adultos, sobretudo pela mãe187, se tivermos em conta que o pai pode não ter conhecimento, devido às suas frequentes ausências.
Como se depreende, esta inquietação interior reflectir-se-á num discurso fragmentado188, entrecortado com constantes pausas emotivas, frases suspensas, perguntas retóricas, como se o momento presente da escrita do seu romance correspondesse às «pausas entre las tormentas de la historia» (CHATMAN, S., 1990: 183), ou seja, como se o momento da narração seguisse o ritmo subjectivo das sensações vividas interiormente. Diz Rita:
Eu gostava de poder fechar a porta e esquecer, mas não consigo. Gostava de poder sentar-me à secretária e reescrever o início do meu romance. Mas ainda estou a remoer o que o papá disse ontem. […] É evidente que ele está apaixonado (RRR: 141).
Ora, não podemos ser indiferentes ao recurso ao pretérito imperfeito da forma verbal
gostava, seguido da utilização repetida da conjunção adversativa mas, a mostrar uma situação
que queria ver realizada (não podendo, porém, tal acontecer). Estes elementos permitem-nos pensar o momento da escrita como um momento de expressão de uma experiência impossível de realizar, com uma carga afectiva preponderante, na medida em que Rita parece condicionada na sua acção. Diríamos poder precisar aqui um confronto, durativo, entre o que
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Eric Rayner explica como, face a uma possível destruição da imagem dos pais, esta adolescente pode tornar- se admiradora de pessoas mais velhas, com destaque para a tia (RAYNER, E., 1982: 146).
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Temos em conta, este contexto, as palavras de Bakhtine, para quem a teoria da expressão «suppose inévitablement un certain dualisme entre ce qui est intérieur et ce qui est extérieur, avec une primauté certaine du contenu intérieur, étant donné que tout acte d‘objectivation (expression) procède de l‘intérieur vers l‘extérieur», salientando que as origens são sempre «intérieures» (BAKHTINE, M., 1977: 120).
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A mãe de Rita, Dora, avalia estas atitudes da filha como sendo as de uma menina «malcriada e atrevida» (RRR:162).
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Relembramos mais uma vez Enzo Petrini, quando escreve que «"Los muchachos… prefieren las descripciones dinámicas… a las estáticas", se entusiasman "delante de la cinematografía de una escena de tres al cuarto, permaneciendo fríos de ordinario delante de una fotografía finísima o de un cuadro artístico, a no ser que de éstos surja inmediatamente una idea viva que dé movimiento a la imaginación o al sentimiento"» (PETRINI, E., 1981: 63).
79 a personagem queria e o que não pode fazer, que, depois, surge reforçada pela expressão "é evidente". É como se Rita nos estivesse a dizer que 'contra factos, não há argumentos'.
Desta forma, Rita mostra de que modo se apercebe da desunião do núcleo familiar, ideia esta que mexe com a concepção infantil da família. Porém, o que é que atormenta Rita? O que é que contribui para que ela oscile entre momentos de inconsciente felicidade e uma (in)felicidade consciente?
Rita define-se como uma adolescente divertida, imaginativa e criativa (RRR: 180-181). Acreditamos, porém, que não serão estas as características que melhor a definem, mas são, talvez, as características que as personagens adultas vêem nela. Ora, uma das características que, comummente, se atribui aos adolescentes é o facto de estes serem criativos — como se criatividade, nesta fase, pudesse ser sinónimo de deturpação da realidade e ou sinal de incoerência. Com efeito, talvez não compreendamos, como afirma Daniel Sampaio, que a esta nova geração «compete inovar, lançar ideias criativas, contestar», enquanto «à geração dos pais compete estabelecer limites, esclarecer e criticar também» (SAMPAIO, D., 1994: 38)189.
Assim, contrariamente aos adjectivos acima indicados (divertida, imaginativa, criativa), o que ressalta, no fundo, é a projecção de uma imagem de solidão (o que justifica a importância dos Inícios 1, 2 e 3, bem como as interpelações constantes ao leitor), de um certo abandono afectivo de que, no fundo, são vítimas as crianças e os adolescentes da actual sociedade.
É a imagem do eu-criança, do eu-adolescente, do eu-adulto, o fio que nos liga à realidade, múltipla, inconstante, justificando que «nenhum Homem é uma ilha» (RRR: 67). E, de todas as personagens que intervêm nestas narrativas, Rita é aquela que sofre a maior mudança, cortando os elos que a ligam ao passado. Por isso, o que fundamentalmente nos importa aqui realçar é a heterogeneidade e a complexidade do seu discurso, através da inclusão quer de reflexões pessoais (por isso mesmo, muito subjectivas), quer de poemas (recriados a partir de poemas de Camões) ou de pensamentos filosóficos, que recebe por e-
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A capacidade criativa que se atribui a Rita, em RRR, encontra-se associada às indefinições relativas à escolha de uma profissão (astronauta, cientista, escritora, por exemplo). Mas, compreendemos que esta escolha pode corresponder à definição de um ideal, ou objectivo a seguir (cf. BRACONNIER, A.; MARCELLI, D., 2000: 156 ) e, «apesar do que existe de infantil nessas aspirações», essa escolha pode também ser o « testemunho do prestígio da técnica e do desejo de evasão» (AVANZINI, G., 1980: 81). Por conseguinte, os desabafos de Rita podem mostrar como «a juventude é […] tratada como uma espécie de falta e de défice que invalida as suas ideias e projectos» (id.: 29).
80 mail. O facto é que todos estes textos, surgindo na obra como peças soltas de um puzzle, interagem entre si para criar e veicular uma mensagem, originando aquilo que Iser designou por «kaleidoscope of perspectives» (ISER, W., 1972: 284).
A personagem principal, sem transmitir um discurso com carácter de novidade, de verdade absoluta, encontra, nas palavras escritas, a expressão ideal das suas intenções, do seu posicionamento no mundo190. Através delas, os seus pensamentos tornam-se-nos mais transparentes, permitindo, ao leitor, um conhecimento mais profundo da sua vida interior, uma vez que, sendo uma personagem ficcional, conhecêmo-la «even better than we know real people» (PERRINE, L., 1983: 66), na medida em que, enquanto leitores, conseguimos inferir o que se passa na mente das personagens: seja através das recordações da personagem- narradora, das suas reflexões, da imaginação, ou mesmo das suas críticas191.
1.3.1. Rita, «narradora com pretensões a autora»
C'est dans les livres que j'ai rencontré l'univers: […] et j'ai confondu le désordre de mes expériences livresques avec le cours hasardeux des évènements réels (SARTRE, J. -P., 1964: 44).
A narradora refere-se a quatro razões que a motivam para a escrita de um romance, bem como ao seu interesse súbito pela ficção: quer «escrever, escrever, escrever», porque tem «a impressão de que é facílimo escrever um romance» (RRR: 40).
Além da ideia de facilitismo, a indicação do género narrativo, o romance, implica uma mistura «of reality and fictions, and as such it brings about an interaction between the given and the imagined» (ISER, W., 1993: 1), necessária para que a recepção destes textos se revele um momento criador.
Com efeito, os diferentes acontecimentos da sua história de vida são recuperados e transportados para a folha de papel, onde ganham outros sentidos, por força da sua imaginação, mas também da sua disposição interior no momento. Ou, então, porque, geralmente, como escreve Frank Smith, «we remember specific events when […] they have some particularly dramatic or powerful or emotional significance» (SMITH, F., 1985: 78). Assim se compreende que Rita, em função do significado emocional que atribui aos
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Ana Saldanha, em e-mail que nos enviou, datado de 10 de Setembro de 2008, refere que o importante «não é o que se diz, mas como se diz o que se diz».
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Estas críticas passam sobretudo pelo olhar atento da personagem e têm em vista revelar comportamentos menos apropriados das personagens adultas.
81 acontecimentos, imprima ao seu discurso um ritmo ora mais acelerado, ora mais moderado, com menos intromissões.
A título de exemplo, o diálogo inicial entre Rita e a tia Rute mostra como é que aquela vive um dilema: o de iniciar a redacção de um romance através da distinção entre famílias
felizes e famílias infelizes192. Este dilema coloca-a numa situação difícil de resolver e que se arrastará até ao final da narração.
Além de ser um começo enigmático, com o qual Rita acaba por não concordar, pelo facto de não conhecer «nenhuma família infeliz ou fora do comum» (RRR: 28)193, o que fundamentalmente chama a nossa atenção é a presença das três tentativas para a redacção do início do romance, na medida em que a narradora, ao transportar os elementos da sua realidade familiar para o espaço textual, torna-os, a partir de então, signos de alguma coisa; e a selecção desses elementos dependerá de múltiplos factores, sendo que, aqui, adquirem um significado próprio, por força da adaptação a um novo contexto e da mensagem que se pretende veicular194.
Sendo assim, e apesar de a tia Rute ter afirmado que «o início de um romance era muito importante» (RRR: 46), as palavras e/ou expressões que Rita selecciona, para iniciar a sua escrita, são muito relevantes, na medida em que, por um lado, contribuem para que a personagem protagonista se revele uma adolescente ainda muito ligada à infância e, por outro lado, porque são um instrumento para a expressão do seu mundo interior195. Com efeito, as suas palavras representam as tentativas de se libertar do que a aprisiona ao mundo da ficção, da irrealidade, da inconsciência, ao mundo das aparências. Essas palavras são, em suma, o produto do seu posicionamento perante os outros, o produto de uma leitura de si e dos outros.
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Ana Saldanha, questionada sobre a inclusão de um início intrigante, esclarece que o «começo intrigante de O
Romance de Rita R. é "roubado" a Anna Karenina», de Leo Tolstoi (mensagem de um e-mail que nos foi
enviado, no dia 15 de Julho de 2008), onde encontrámos a seguinte frase : «Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira» (TOLSTOI, L., 2006: 11). Na opinião da tia Rute, é «um exemplo magistral» (RRR: 23).
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O tema da família encerra sempre uma tonalidade emotiva; por outras palavras, como disse Tomaševskij, «el tema de la obra literaria […] suscita sentimientos de repulsa o de simpatía, y se elabora según el plan de la "valoración"» (TOMAŠEVSKIJ, B., 1996: 42).
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Relembramos, aqui, algumas palavras de Wolfgang Iser, quando refere que todo o texto literário «contains a selection from a variety of social, historical, cultural, and literary systems that exists as referential field out side the text» (ISER, W., 1993: 4).
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Ana Saldanha esclarece que no «caso da Rita, a minha intenção não era criar uma personagem que se refugiasse na escrita, mas que quisesse exprimir-se através dela» (e-mail que nos enviou em 10 de Setembro de 2008). E esta expressão pode adquirir a forma de uma «île émergeant dans un océan sans limites» (BAKHTINE, M., 1977: 138).
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1.3.2. A escrita ficcional: a força da expressão "Era (uma vez…)"
São três as tentativas para iniciar o seu romance, três tentativas que ilustram esse momento decisivo — o que nos permitirá, depois, analisar a dicotomia entre o agora da criança que foi e o agora da adolescente que é196:
Início 1
Era uma noite escura e tempestuosa. A chuva e o vento tombavam sobre a casa antiga e austera, plena de terror, onde uma menina com uma beleza singular estava sentada à janela […] A menina estava sozinha. Era, efectivamente, o seu nome: Maria Ariadne dos Santos Silva (RRR: 53-54);
Início 2
Era de noite. Estava escuro. Fazia mau tempo (RRR: 134-135);
Início 3
É de noite — disse o jovem […] E o vento sopra, gélido e pleno de augúrio (RRR: 166-167).
Como se poder ver, os inícios 1 e 2 são momentos determinantes na configuração do mundo interior de Rita, ainda que a apresentação dos acontecimentos seja entretecida por muita imaginação: por um lado, correspondem a momentos de reflexão pessoal sobre alguns acontecimentos que têm marcado a sua vida familiar e que não deixam de imprimir ao texto as suas marcas emocionais; por outro lado, salientam pequenas mudanças na sua forma de estar e de pensar a família, em particular no que diz respeito à imagem paterna.
Assim sendo, e em primeiro lugar, destacamos o facto de a caracterização do pai aqui apresentada — um «homem de um retrato físico e psicológico assustador» (RRR: 53; 134) —, contrastar muito com aquela que encontramos quando Rita, justificando a necessidade de realizar um retrato fiel, o define, entre outras características, como simpático e leal (características essas que estudaremos mais adiante, quando nos debruçarmos sobre as personagens masculinas). E de imediato surgem algumas perguntas: qual dos dois retratos será o mais fiel? Que implicações terão na vida de Rita?
Em segundo lugar, salientamos a situação de solidão em que se encontra a menina, de seu nome Maria Ariadne dos Santos Silva197, impossibilitada de comunicar, num ambiente
196
Lembre-se o que Bakhtine escreveu a este propósito, quando esclarece que «"hier" et "aujourd'hui" n'ont pas, dans un certain sens, le même langage sur le plan sociologique […]; chaque jour a sa conjoncture socio- idéologique et sémantique, son vocabulaire, ses accents, son slogan, ses insultes et ses louanges»