3. TRÊS TRADUÇÕES DE ALICE PARA O PORTUGUÊS – ASPECTOS
3.3 As três tradutoras – uma apresentação
3.3.1 Rosaura Eichenberg – L&PM Pocket
Rosaura Eichenberg atua há vários anos como tradutora entre o inglês e o português. Seu contato com as duas línguas começou desde cedo, no ensino médio. Nessa época, teve a oportunidade de participar de um intercâmbio patrocinado pelo
American Field Service – um programa que apóia experiências de aprendizagem interculturais – e pôde estudar durante um ano na cidade de Washington D.C.. Mais tarde, cursou Letras, com foco especial no português e inglês, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em seu mestrado, na área de “Literaturas de Língua Portuguesa”, na mesma universidade, escreveu uma dissertação sobre o autor João Guimarães Rosa.
191 No artigo “Se você folhear o catálogo da Ática, vai se surpreender com a diversidade de títulos e
coleções”, <http://www.atica.com.br/entrevistas/?e=36>.
192 Conforme site da Editora Ática sob o tópico “Nossa história – uma divulgação diferente”,
Suas primeiras atividades como tradutora começaram por volta do final da década de 1960. Eichenberg traduziu alguns textos para o “Magazine de Ficção Científica” da Editora Globo (conhecida, na época, como Globo do Rio Grande do Sul) e, junto com dois colegas, fez a tradução de seu primeiro livro: “Princípios de crítica literária” de I.A.193 Richards. Porém, como precisou mudar de cidade durante esse período, ficou alguns anos sem trabalhar diretamente com traduções.
Entretanto, logo voltou a traduzir. De 1970 a 1980, foi tradutora da Editora Noa- Noa de Cleber Teixeira. Seus trabalhos incluíram, conforme Eichenberg: “uma entrevista de Gauguin194, algumas Cartas de Emily Dickinson, um ensaio de W.H. Auden sobre as cartas de Van Gogh ao irmão, algumas cartas e páginas do diário de Katherine Mansfield” (EICHENBERG, 2008)195.
Apesar de todas essas experiências na área de tradução, foi apenas em 1985 que começou a atuar como tradutora profissional. Eichenberg destaca que, atualmente, tem trabalhado para diversas editoras, principalmente para a “Companhia das Letras” desde 1986. Traduziu, até hoje, cerca de 27 obras196 só para essa editora. Outras de suas traduções encontram-se listadas no site197 da “Livraria da Travessa” – há três páginas com obras traduzidas por Eichenberg, abrangendo uma variedade de tipos textuais.
Em relação à L&PM Editores, Eichenberg afirma que prefere traduzir obras literárias para essa editora porque o prazo de entrega das traduções é bem mais flexível do que a maioria no mercado: “é que meu contrato com a editora gaúcha tem geralmente um prazo muito elástico – não me sinto capaz de fazer traduções literárias no prazo apertado das outras editoras” (EICHENBERG, 2008).
Além de “Alice no país das maravilhas”, a tradutora já realizou outras traduções para coleções da L&PM Pocket. Participou da “Série Sherlock Holmes”, traduzindo duas histórias de Arthur Conan Doyle: “O cão de Baskerville” e “Um estudo em
193 Ivor Armstrong.
194 Segundo o artigo “Paul Gauguin” do site de educação UOL,
<http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u382.jhtm>, Gauguin é “um dos principais pintores do pós-impressionismo”.
195 Essa e outras citações foram retiradas de entrevista à autora desta dissertação, em 17 de setembro de
2008, vide Anexo B.
196 Para ver lista completa veja site da “Companhia das Letras”:
<http://www.companhiadasletras.com.br/20anos/autores.php3?autor=Rosaura%20Eichenberg>.
vermelho”, e traduziu, também, “O príncipe e o mendigo” de Mark Twain, da coleção juvenil da L&PM.
Ao longo dos anos, Eichenberg publicou cerca de cinqüenta traduções diferentes, mas apesar de toda essa experiência ainda considera: “toda tradução [...] um grande desafio. O progresso é lento, mas não deixo de reconhecer que ele existe” (EICHENBERG, 2008).
3.3.1.1 Eichenberg e a tradução de “Alice no país das maravilhas”
Eichenberg e Alves trabalharam juntas na tradução de “Alice no país das maravilhas”, publicada pela L&PM Pocket no ano de 1998. A maneira como optaram por interagir com a obra foi fundamental na elaboração do texto traduzido.
Eichenberg afirma que a história de Alice foi:
[…] o livro que mais me encantou em toda a minha vida. Quando a L&PM me ofereceu fazer a tradução, eu quase caí para trás. Não conseguia acreditar. E foi com toda a minha paixão pelo livro que aceitei fazer o trabalho (EICHENBERG, 2008).
A tradutora já havia tido contato com a obra anteriormente, lendo-a em sua língua de origem, o inglês, e escutado diálogos e canções da narrativa, quando criança, em um disco em português. Seu gosto prévio pela história a incentivou a contá-la ao invés de buscar explicá-la com notas e introduções: “bem, aceitei o desafio e o trabalho. E o meu único intuito foi tentar reproduzir em português o ‘país das maravilhas’ que eu conhecera em inglês” (EICHENBERG, 2008).
Nesse processo, uma dica de Alves foi valiosíssima. Aconselhou sua companheira de trabalho, Eichenberg, a não pensar nas outras traduções enquanto traduzia, e a apenas a consultá-las, caso necessário, quando terminasse sua tradução. Além de direcionar seu trabalhou com base nessa sugestão, Eichenberg pôde traduzir livremente porque a editora L&PM não indicou nenhuma diretiva de tradução e nenhum público previsto: “eu tive toda a liberdade para realizar o trabalho. Respondo pela tradução” (EICHENBERG, 2008).
Apesar de a tradutora não ter pensado conscientemente em um grupo de leitores ao traduzir, sua tradução tem sido considerada uma das mais abrangentes, talvez por causa de sua visão de Carroll e sua história:
[…] apesar de não ser versada em literatura infantil, acho que os grandes autores de livros infantis não escrevem para “crianças” (quero dizer, com alguma condescendência para com um intelecto ainda não de todo desenvolvido). Acho que escrevem em pé de igualdade. Pelo menos, Lewis Carroll escreveu assim (EICHENBERG, 2008).
A partir desse ponto de vista, o importante para a tradutora foi traduzir a história para que leitores brasileiros tivessem acesso às aventuras de Alice em uma língua que conhecessem. Eichenberg (2008) destaca, portanto, que sua tradução “foi apenas uma tentativa de reproduzir um pouco do ‘wonder’ que Lewis Carroll me fez experimentar esses anos todos”.