População de Cachoeira do Sul (1780-2015)
5. INVENTÁRIO DAS RUGOSIDADES DA PAISAGEM RURAL DE CACHOEIRA DO SUL/RS
5.1. RUGOSIDADES DO SISTEMA DE CIRCULAÇÃO DE MERCADORIAS E PES SOAS
5.1.9. Rugosidade – Barragem Ponte do Fandango (1961)
A Ponte do Fandango foi construída sobre o rio Jacuí para dar acesso à cida- de de Cachoeira do Sul à parte sul do estado do Rio Grande do Sul, ligando a cida- de com vários municípios inclusive com a capital gaúcha, Porto Alegre, pela BR 290 (Figura 66). Suas obras começaram no ano de 1956 e foram concluídas em 15 de dezembro de 1958. Com a conclusão das obras, a ponte passou ser utilizada mes- mo sem o término dos aterros laterais e de sua inauguração oficial, a qual foi reali- zada em 25 de janeiro de 1961.
A construção, de engenharia francesa, foi considerada naquele período a se- gunda maior ponte, deste estilo, no mundo (Figura 67). Idealizada por Liberato Sal- zano Vieira da Cunha, sua edificação custou, na época, 180 milhões de cruzeiros, e foi executada pela empresa Brasília Obras Públicas S. A., sendo o engenheiro Helmut Billmann um dos participantes do projeto da Barragem- Ponte do Fandango, sendo a parte metálica realizada pela Maschinenfabrik Augsburg-Nürnberg (MAN).
Suas eclusas possuem oitenta e cinco (85) metros de comprimento, quinze (15) de largura e dez (10) de profundidade dando passagem de até três (3) barcaças empurradas por um rebocador, conduzindo 540 toneladas de carga, cada uma. As- sim, a eclusa possibilita que seja navegável um trecho de sessenta e três (63) qui- lômetros a sua montante para embarcações de até 1,80 metros de calado. (ROHDE, 1998).
As eclusas foram pensadas para permitirem que o rio Jacuí seja navegável também em sua parte norte, a montante da ponte, dando passagem a hidrovias. En- tretanto, de acordo com dados levantados, tal fato não ocorreu na prática, pois com a construção da ponte, a hidrovia deixa de ser prioridade como meio de transporte, assim, como também teve início o processo de abandono das ferrovias à medida em que o Estado Brasileiro, a partir da década de 60, decidiu priorizar as rodovias como principal meio de transporte no país.
Figura 66 – Ponte do Fandango, em 2018.
Fonte: Arquivo pessoal da autora. Org: Lisane Regina Vidal Conceição.
A ponte foi construída ao longo das cachoeiras existentes no rio Jacuí, as quais deram nome à cidade. É considerada um símbolo Cachoeira do Sul. Localiza- da na BR 15324, possui 550 metros de extensão e 7,5 metros de largura, considera- da ponto turístico da cidade (Figura 68), seu nome deve-se a um acampamento mili- tar existente próximo de onde foi construída.
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A legalização da abertura da BR-153, Rodovia Transbrasiliana, se deu pelo Decreto 43.710 de 15 de maio de 1958, criando a Comissão Executiva da Rodovia Belém-Brasília (RODOBRÁS), autarquia subordinada à Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia - SPVEA, coligado à Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM. O engenheiro Bernardo Sayão precursor da abertura da rodovia tornou-se diretor da Rodobrás. A Belém/Brasília começou a ser construída em 1960, no governo do presidente Juscelino Kubitschek e foi concluída em 1974. Ela integra a BR-153, que começa no Pará e termina no Rio Grande do Sul. A rodovia é o principal eixo de ligação rodoviária da região Norte com as demais regiões do Brasil. A rodovia longitudinal BR-153 atravessa oito estados brasileiros, do Pará ao Rio Grande do Sul, tendo como principais pontos de passagem as cidades de Marabá - Araguaína - Gurupi - Ceres - Goiânia - Itumbiara - Prata - Frutal - São José do Rio Preto - Ourinhos - Irati - União da Vitória - Porto União - Erechim - Passo Fundo - Soledade - Cachoeira do Sul - Bagé - Aceguá, completando 3.564,4 km de extensão.(DNIT, 2009).
Figura 67 – Obras de construção da Barragem Ponte do Fandango (1956-1975). D C A B H G F E
Legenda: A - Engenheros franceses e alemães para as tratativas da construção da ponte juntamente
com Virgilio Jayme Zinn (prefeito), sem data; B e C – cachoieras do Jacuí onde foi construida a ponte do fandango em 1955; –D e E– início das obras em 1956; F - foto área da construção, sem data;G e
H – plataformas de gindastes para recebimento das estruturas de ferro em 1956; I – Eclusas em 1956; J – trabalhadores da connstrução em 1957; k – início da construção metálica em 1956; L – estruturas metálicas prontas em 1957; M – Vista da cidade de Cachoeira do Sul de cima da ponte
em1957; N – inauguração da ponte em 1961. Fonte: Museu Municipal de Cachoeira do Sul.
Org: Lisane Regina Vidal Conceição.
L K J I N M
Figura 68 – Barragem Ponte do Fandango, em 1961.
Fonte: Museu Municipal de Cachoeira do Sul. Org: Lisane Regina Vidal Conceição.
O asfaltamento da estrada que liga a ponte do Fandango até a BR 290 levou anos para ser construído, não efetivando a promessa inicial de entrega das obras em 1966 (Figura 69). Assim como as inúmeras pontes e cabeceiras destas ao longo da estrada, as quais têm como característica comum terras rebaixadas, sucessíveis às inúmeras enchentes, pelas quais passou Cachoeira do Sul desde as obras de construção da Ponte do Fandango. Além disso, obras de preservação e recuperação da ponte também eram impossíveis de serem realizadas quando ocorriam enchen- tes, visto que o terreno onde se assenta a ponte abrange a área de inundação do rio Jacuí.
Figura 69 – Barragem Ponte do Fandango sem as vias de acesso na década de 1960.
Fonte: Arquivo Municipal, série de cartoões postais da década de 1960, colegão de Claiton Nazar. Org: Lisane Regina Vidal Conceição.
A Ponte do Fandango mesmo após sua inauguração continuava a ser uma barreira para o desenvolvimento e propósitos de Cachoeira do Sul, pois suas vias de ligação ainda não se encontravam construídas e oneravam o município a cada en- chente do rio Jacuí, especialmente no que tange à produção da pecuária e a agríco- la quanto a seu transporte e comercialização.
Com a efetivação das vias de acesso e infraestrutura (Figura 70), Cachoeira do Sul foi abandonando, aos poucos, os outros meios de comunicação como a hi- drovia e o seu porto. Paulatinamente, foram desaparecendo as embarcações e bal- sas que faziam a travessia de pessoas e mercadorias até a cidade de Porto Alegre. Concomitante a isto, houve a retirada da principal estação de trem do centro da ci- dade, na época, considerada um equívoco por parte da população e uma perda inestimável para o patrimônio histórico local. Todavia, cobrir a antiga estação com paralelepípedos, representava o progresso da cidade.
Figura 70 – Estrutura e vista da Barragem Ponte do Fandango.
Legenda: A – Ponte do Fandango em 1987; B – Ponte do Fandango em 1999; C – Ponte do Fan-
dango, sem data; D – Ponte do Fandango em 1997; E e F – Eclusas sem data. Fonte: Museu Municipal de Cachoeira do Sul.
Org: Lisane Regina Vidal Conceição.
A Ponte do Fandango passou por várias reformas e cada uma delas procura- va atender mecanismos que permitissem a passagem de pessoas e mercadorias pelo rio Jacuí (Figura 71). Suas reformas foram marcadas pela utilização de balsas, pontes móveis construídas pelo exercito militar ou travessia a meia pista da ponte, garantindo a trafegabilidade. Tais reformas e obras de manutenção e preservação acarretam a colaboração de forças municipais, estaduais e federais, as quais nem sempre chegam ao um acordo mútuo, devido a sua grande importância para o des- locamento e desenvolvimento da região central do estado.
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Figura 71 – Reforma da Barragem Ponte do Fandango, em 1987.
Fonte: Museu Municipal de Cachoeira do Sul. Org: Lisane Regina Vidal Conceição.
Atualmente, a Ponte do Fandango passa por melhorias na sua infraestrutura, cujas obras tiveram inicio do mês de maio de 2018, com previsão de fechamento total da ponte para o inicio do mês de junho por um período de 2 a 3 meses, e con- clusão das obras até o final de ano de 2018 (Figura 72). Com respeito à envergadu- ra da obra, estão sendo tratados acordos de passagem entre o Departamento Naci- onal de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a Prefeitura Municipal, sendo que a alternativa mais plausível é a utilização da Balsa Moron, próxima à ponte. Entretan- to, o impasse está pautado em determinar qual o órgão responsável pelos custos da travessia, através da balsa.
Figura 72 – Obras e Barragem Ponte do Fandango, em 2018. F E D C B A
Legenda: A, B e C – Obras na ponte em 2018; D, E, F, G, H, I, J e K – Barragem – Ponte do Fan-
dango em 2018.
Fonte: Arquivo pessoal da autora e Acervo de Robispierre Giuliani (foto k). Org: Lisane Regina Vidal Conceição.
Pode-se observar que a Ponte do Fandango, uma obra Pública datada dos meados do Século XIX, continua com sua função inicial, o transporte de pessoas e mercadorias. A sua construção representou para Cachoeira do Sul o escoamento da produção agrícola e pecuária em grande escala, mas em contrapartida o abandono
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do transporte hidroviário e ferroviário. Entretanto, problemas de mobilidade decor- rentes das intempéries naturais como, as enchentes, resultam em grandes perdas de ordem econômica ao município, pois sua produção deixa de escoar e o aumento do custo de transporte encarece o custo final dos produtores rurais, diminuindo seus lucros.
Obra da mais desenvolvida engenharia Francesa, encampada pelo poder fe- deral brasileiro, cujo agente transformador do espaço atua para implementar o transporte rodoviário como o principal meio de transporte e comunicação no país. Ato que perpassa pela ampliação do capital, pois sua ação é para garantir que as grandes corporações montadoras de automóveis e demais veículos automotores, que acabam de se instalar no país, possam viabilizar seus projetos de comercializa- ção e ampliação dos mercados consumidores.
A opção pelo transporte rodoviário no Brasil se assenta em prerrogativas con- sideradas como desencadeador desse processo em curso, tais como o sucateamen- to e os altos custos para reformar o transporte ferroviário e a busca por um transpor- te mais ágil que atendesse todos os recantos do território. Acredita-se que o predo- mínio de um único meio de produção deixa o Estado e o povo brasileiro reféns do capital e das grandes corporações que buscam a ampliação do capital.
Um dos grandes problemas atuais é a substituição ou dinamização deste meio de transporte por um mais sustentável e que assegure a demanda de produ- ção, comercialização e circulação de pessoas em todo país.
Sua importância na reprodução social local permanece inalterada, garantindo o transporte dos principais produtos do município e interligando Cachoeira do Sul ao restante do Rio Grande do Sul. Atualmente, a Barragem Ponte do Fandango é con- siderada ponto turístico do município devido a sua grandiosidade de engenharia e beleza. Simboliza para todos os cachoeirenses a modernidade e o apreço, pois a beleza desta construção tornou-a um ponto turístico para a cidade e ponto de encon- tro de moradores no final da tarde para matear e apreciar o rio Jacuí.