5 METODOLOGIA
5.1 Área de estudo
5.1.2 Segmento de alta renda no mercado bancário
Com o controle inflacionário e a regulação no setor financeiro, os bancos viram-se forçados a rever sua estratégia de atendimento e prestação de serviços. Até então, o mercado sustentava estruturas baseadas apenas em atender pessoas físicas ou pessoas jurídicas e postar-se como um banco de varejo ou de atacado. As pessoas físicas eram tidas como um grupo homogêneo, tal a massificação e uniformidade dos serviços oferecidos a seus clientes (CORAZZA, 2000). Apesar de o conceito de segmentação de mercado datar da década de 1950, pode-se dizer que apenas na década de 1990 torna-se visível o movimento do mercado bancário brasileiro no sentido de identificar segmentos.
A primeira grande mudança no setor veio com o surgimento do Private Bank, segmentação criada para gerir fortunas pessoais ou familiares. O público alvo do segmento são investidores com recursos financeiros superiores a R$ 1.000.000,00 depositados na instituição financeira (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS ENTIDADES DOS MERCADOS FINANCEIRO E DE CAPITAIS, 2013). O Private Bank, entretanto, não pode ser considerado já como um indicativo no caminho da segmentação bancária, tendo em vista que
o seu foco era administrar investimentos, sem necessariamente contar com uma estrutura de atendimento propriamente diferenciada; tratava-se apenas de valorizar os clientes investidores, que proporcionavam os altos lucros conquistados graças à inflação (BUENO, 2011; CORAZZA, 2000; HOFFMANN, 2007). Havia, então, uma forte tendência de considerarem “cliente bom” apenas os investidores.
Por conta da alta lucratividade de atividades de investimento, até a década de 1990 as tarifas eram raramente cobradas (FREITAS, 2008). Com o controle inflacionário, os bancos partiram para garantir gradualmente suas receitas através de cobranças de tarifas e optaram por começar a cobrá-las no formato de cestas ou pacotes de serviços, seja porque não tinham sistemas automáticos para este processo ou porque a cobrança individual tornava traumático o relacionamento com o cliente.
Com a cobrança, surge a noção de qualidade no serviço. Isso porque até então o foco do banco brasileiro era acolher e aplicar o dinheiro de investidores. Com a importância da prestação de serviços, passa a importar também a manutenção dos clientes e abre-se caminho para a garantia de serviços diferenciados. O cliente, mesmo aquele que não costuma investir, passa a ser estudado de modo a definir um nível de atendimento em relação direta à sua rentabilidade potencial (BUENO, 2011).
O desenvolvimento da tecnologia de autoatendimento também fez parte desse reposicionamento estratégico nas instituições bancárias. A oferta de serviços em caixas automáticos, como saques, extratos, depósitos e até mesmo empréstimos e aplicações, possibilitou um atendimento massificado e menos oneroso aos bancos. Com maior agilidade nos fluxos de trabalho e menor pessoal envolvido em operações de rotina, os bancos puderam redesenhar seus processos e voltar maior atenção ao relacionamento com seus clientes (ALBERTIN; MOURA, 1995; STEINER; TEIXEIRA, 1990). O advento do Internet Banking e de aplicativos para smartphone representam mais avanço nesse sentido.
Com base no exposto, conclui-se que, frente a redução dos ganhos em atividades de investimento e a migração de processos operacionais e rotineiros para canais de autoatendimento, os bancos passam a focar cada vez mais na oferta de serviços e produtos para seus clientes. O objetivo é aproximar-se dos clientes e conhecer suas necessidades, surgindo a figura do gerente de conta. O caminho para a segmentação está enfim sedimentado.
Atuar com clientes de maior renda apresenta vantagens que não podiam ser ignoradas pelos bancos: (i) trata-se de um segmento naturalmente rentável, tanto devido ao volume nas operações de crédito e de investimento quanto à maior disponibilidade de compra de produtos bancários; e (ii) clientes de alta renda em geral são multibancarizados, isto é, possuem contas em diversas instituições, e não oferecer diferenciação em seu atendimento pode significar a perda desses clientes (ASSAF NETO, 2011; CAMARGO, 2009; COBRA, 2000; CORAZZA, 2000; COSTA; 2012; LAS CASAS, 2006).
Ainda que a importância da segmentação fosse conhecida já a ponto de as instituições bancárias contarem com avançados bancos de dados de seus clientes (ALMEIDA, 2007), foram os estrangeiros Citibank e BankBoston que primeiro ofertaram serviços e produtos diferenciados para segmentos de alta renda. Com o impulso dessas instituições, os outros bancos nacionais aceleraram o processo de segmentação e passaram a disputar a preferência de clientes com maior potencial, como atesta o Quadro 3.
Quadro 3 – Bancos atuantes no segmento de alta renda no Brasil ao longo do tempo
1994 1995 1997 2000 2003 2005
Citibank
BankBoston Citibank BankBoston Itaú Citibank BankBoston Itaú Unibanco Citibank BankBoston Itaú Unibanco Santander HSBC Citibank BankBoston Itaú Unibanco Santander HSBC Bradesco ABN Real Citibank BankBoston Itaú Unibanco Santander HSBC Bradesco ABN Real Banco do Brasil Fonte: sites de cada uma das instituições bancárias, 2013
Em 2006, o BankBoston foi adquirido pelo Itaú e, em 2008, o ABN Real foi comprado pelo Santander e houve a fusão de Itaú e Unibanco.
Assim, após passarem a ofertar o Private Banking para administrar fortunas, os bancos criaram uma estrutura voltada para clientes com renda mais elevada. Em 2012, a oferta de atendimento segmentado para clientes de alta renda constava na estratégia dos seis maiores bancos comerciais do país, cujo patrimônio líquido somado corresponde a mais de 72% do total consolidado bancário (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2013). A Tabela 2
apresenta a renda mensal mínima para enquadrar o cliente no segmento de alta renda em cada um desses bancos2.
Tabela 2 – Seis maiores bancos atuantes no segmento de alta renda no Brasil
Instituição bancária Segmento de alta renda Renda mínima
Banco do Brasil Estilo R$ 8.000,00
Itaú Unibanco Personnalité R$ 10.000,00
Bradesco Prime R$ 9.000,00
Santander Select R$ 10.000,00
HSBC Premier R$ 10.000,00
Citibank Citigold R$ 10.000,00
Fonte: sites de cada uma das instituições bancárias, 2013
A renda mensal mínima exigida pelos quatro maiores bancos para integrar seus segmentos alta renda perfaz uma média de R$ 9.500,00. Portanto, conforme a classificação de classes sociais utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentada na Tabela 3, pode-se entender o segmento de alta renda no mercado bancário como voltado a classe A e camadas superiores da classe B, mais especificamente aos clientes que recebem mais de 15 salários mínimos por mês. Frisa-se que o segmento Santander Select foi criado em abril de 2013, tomando o lugar do Santander Van Gogh, por sua vez herdado após a compra do Banco ABN Real (YAZBEK, 2013). Por não sofrer atualização na renda mínima necessária, o Van Gogh passou a ser um segmento intermediário voltado a clientes com renda entre 4 mil e 10 mil reais, isto é, para camadas superiores da classe C e inferiores da classe B.
Tabela 3 – Classes sociais IBGE
Classe Salários mínimos Renda familiar3
A Acima de 20 R$ 13.560,00 ou mais B Entre 10 e 20 De R$ 6.780,00 a R$ 13.560,00 C Entre 4 e 10 De R$ 2.712,00 a R$ 6.780,00 D Entre 2 e 4 De R$ 1.356,00a R$ 2.712,00 E Até 2 Até R$ 1.356,00 Fonte: CARNEIRO, 2013.
2 Os quatro bancos listados também classificam como clientes "Alta Renda" aqueles com R$ 100.000,00 ou mais disponíveis para investimento.
O Censo 2010 realizado pelo IBGE apontou 2,5 milhões de pessoas com rendimento mensal entre 10 e 20 salários mínimos e 1,2 milhões de pessoas com rendimento mensal superior a 20 salários mínimos. O resultado mostra que, dentre os brasileiros que têm rendimento, aproximadamente 2,3% pertence à classe B e 1% à classe A (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010).
Clientes desse extrato social buscam um relacionamento mais próximo que o marketing tradicional. Segundo Susskind (2011, p. 1):
Por uma série de características socioculturais, a alta renda demanda ações multiface de relacionamento. [...] Exclusividade continua atraindo o público classe A; uma exclusividade ligada à maneira de ser atendido. É nessa seara que entra a necessidade de investir na capacitação da equipe de vendas; investimento que transforme o vendedor/balconista em um consultor de consumo.
Masano (2005) aponta que atributos relacionados ao relacionamento com o gerente da conta são os que exercem maior influência sobre a satisfação e a lealdade de clientes de alta renda devendo, assim, receber atenção prioritária das instituições bancárias. Assim, os bancos passaram a investir em capacitação de profissionais para atuar nesse segmento, além de trabalhar o layout das agências especializadas.