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SEQUÊNCIA 03 – AS FERRAMENTAS DO MODO DE ESTUDO

1.3.1 O diário de pesquisa e análise da implicação

Se cartografar é evidenciar os movimentos produzidos num território, o modo de estudo não se pontuou apenas em procedimentos a serem tomados, mas também a partir da postura do pesquisador, afirmando as dimensões ético, estético e política de suas práticas. Tanto o diário da pesquisa quanto a análise da implicação, instrumentos de pesquisa que nos auxiliaram na construção deste percurso, são tomados aqui na condição de dispositivos-analisadores. Esta condição, pensada a partir de Lourau (ALTOÉ, 2004) deu visibilidade aos instituídos no processo de pesquisar, possibilitando discutir a formação em saúde por dentro, percorrendo os diferentes e múltiplos territórios que se produzem no aprender a aprender.

Se ao pesquisar temos uma certa pretensão, no sentido de pretender algo, visto que toda pesquisa é matéria composta de ações conscientes e inconscientes; com o diário de pesquisa e a análise da implicação, há a possibilidade de retorno aos movimentos produzidos no território da formação que evidenciaram como os possíveis foram acessados neste percurso.

No diário foram colocados os relatos da pesquisadora, considerando até aqueles anteriores ao início da pesquisa, quando da entrada no mestrado, mesmo que naquele momento não se sentisse produzindo um diário de pesquisa. Se existem relatos mais estruturados, organizados, há também momentos de angústias, medos, raivas e conquistas. Como um movimento reflexivo, o diário não se refere estritamente a pesquisa, mas ao processo do pesquisar. Estão nele os sussurros inauditos da pesquisadora com seu campo, que captado pelas lentes sensíveis do corpo vibrátil, deixaram marcas-registros num corpo-diário.

Baduy (2010) assinala que o narrado no diário de pesquisa traz não apenas a voz da pesquisadora, mas tantas outras, efeitos dos afetamentos produzidos pelos diversos movimentos no campo de pesquisa. Tomando por empréstimo a proposta

da autora de composição da narrativa da pesquisa, trago neste trabalho as sequências com a intenção de perfazer neste roteiro os movimentos produzidos no percurso desta pesquisa.

Se o diário é um modo diferente de produzir intervenção, de produzir pesquisa, só o é pelo abandono na crença que algum instrumento de pesquisa possa fornecer-garantir a neutralidade ou a busca de uma essência daquilo que se pesquisa.

O diário tomado aqui como “dentro do texto”, e não como um “fora do texto”, é concebido na perspectiva da análise institucional, desvinculando-se de outras abordagens teórico-metodológicas como a pesquisa etnográfica ou a pesquisa-ação que também dele fazem uso. Pezzato e L´Abbate (2011) analisam as diferentes formas de produção e utilização dos diários, como de bordo, de campo, de pesquisa. Entretanto, alertam, a partir da concepção de Lourau, que será o modo como o pesquisador/diarista fará uso deste instrumento de pesquisa no ato de pesquisar, que marcará sua singularidade.

Entendendo que nas pesquisas etnográficas e na pesquisa ação, o pesquisador ainda mantém uma distância entre pesquisador e pesquisado, o diário aqui tem sentido diverso, uma vez que é ferramenta da pesquisa intervenção, com potencial para disparar reflexão sobre e com o vivido, evidenciando os ditos e os não ditos, tal como assinalado por Pezzato e L´Abbate (2011).

Assim, o diário possibilita a desnaturalização das formas instituídas, já que porta também a dimensão de analisador. Por ser analisador é dispositivo, gatilho, para produção de novas coisas (MERHY, 2009). O novo aqui não é pensado como uma novidade, como algo que, por ainda não ser visto, traria a necessidade de ser descoberto ou revelado. A noção da visibilidade, proposto por Foucault (2006), é a de um olho produzindo o visível, produzindo o real. Como criação, não desvela, posto que não está encoberto14.

14 O fato de somente “vermos” a loucura como patologia a partir do século XVII, como assinalado por Foucault (2012), na História da Loucura, não é porque o louco não existisse, mas sim porque os diversos deslocamentos produzidos no saber vão retiram a loucura do paradigma religioso, o louco como alguém demoníaco, e o colocar num paradigma cientifico. A loucura entendida como patologia.

1.3.2 Condição de uso das ferramentas

A aposta que se faz com a cartografia é de um modo de pesquisa para ser experimentado, não aplicado, mas assumido como atitude, não abrindo mão do rigor do caminho, sua precisão (PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2010). Precisão não tomada como exatidão, mas como compromisso, interesse por aquilo que move o cartógrafo. O interesse é pelos movimentos que se fazem presentes no campo de pesquisa. Processos que se iniciam, que se vão, que se enviesam, tomam outros sentidos. Processos, sempre processos, a matéria do cartógrafo.

Se o diário de campo inquieta as formas de se pensar a pesquisa - sempre hermética a imprecisão de seus instrumentos - é com ele que compomos este trabalho, cujos resultados não são fruto da averiguação de dados no campo, mas dos relatos postos nestes diários. Alguns, foram trabalhados, isto é, operados com a ajuda de conceitos, ferramentas, que conferiram outros sentidos ao pensar, outros contornos à formação.

A narrativa desta pesquisa a partir dos diversos extratos, sequências, em forma de relatos, pretende produzir uma narrativa mais dissolvida, mais micro, mais devir. Sendo que, em alguns - muitos - momentos, foi impossível o abandono de uma narrativa mais fechada, cronológica. Entretanto, como exercício de um corpo vibrátil, pretende deslocar para a narrativa a intensidade do vivido no território da formação em saúde.

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OBJETIVOS, QUESTÕES QUE NORTEARAM, MODO DE