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Simultaneidade da impugnação judicial e do parcelamento tributário

4. P ARCELAMENTO T RIBUTÁRIO , D ESISTÊNCIA DOS PROCESSOS ADMINISTRATIVO E

4.3. Impugnação judicial do débito parcelado

4.3.1. Simultaneidade da impugnação judicial e do parcelamento tributário

Já se defendeu que a confissão do débito tributário não importa em reconhecimento da validade e da correção do montante da cobrança fiscal e que o juiz não está adstrito a julgar a causa contra o confitente. Dessas conclusões alcançadas no capítulo anterior, extrai-se que a opção pelo parcelamento não seria, em tese, incompatível com a discussão judicial do débito confessado,382 bem como que o interesse jurídico do contribuinte na demanda permaneceria. Isso significa que, se o contribuinte quiser se retirar do programa de parcelamento tributário em que foi feita a confissão e propor ação judicial para discutir o crédito, ele poderá fazê-lo.

Mas pode o contribuinte ajuizar demanda judicial contra o crédito parcelado e permanecer no programa de parcelamento, ao qual aderiu em momento anterior? Ou pode ele concomitantemente dar seguimento ao pagamento das parcelas decorrentes do programa e à ação judicial previamente proposta contra a exação? Em outras palavras, o parcelamento tributário especial convive simultaneamente com a impugnação judicial do débito parcelado? Em princípio, a resposta é negativa. Entretanto, pode-se cogitar de alternativas que promovam uma convivência harmônica entre as figuras.

A coexistência do parcelamento especial e da ação judicial proposta contra o débito parcelado é afastada pelo mote legislativo. A legislação institui programas especiais de parcelamento tributário com os objetivos de encerrar os litígios fiscais pendentes e de promover a arrecadação. Para alcançar tais metas, são estabelecidas duas ordens de medidas, as quais funcionam como contrapartidas entre si. De um lado, são previstos benefícios fiscais, como o pagamento de forma parcelada e a redução de multas e de juros. De outro lado, são feitas as exigências de confissão do débito tributário, de desistência de eventuais processos administrativos ou judiciais propostos e de renúncia ao direito em que se fundam essas impugnações.

                                                                                                                         

382 FERRAZ JUNIOR, Tércio Sampaio. “Confissão de débito, parcelamento e rediscussão dos fatos”. p. 12;

No mesmo sentido: MARINS, James. Direito processual tributário brasileiro (administrativo e judicial). p. 366.

Ou seja, o Poder Público aceita reduzir o montante do crédito tributário e recebê-lo em parcelas se isso fizer cessar a resistência do contribuinte contra o pagamento do tributo e favorecer a arrecadação. O escopo da legislação é proibir que o contribuinte ingresse no programa de parcelamento e não efetue o pagamento das parcelas; assim como proibir que ingresse em um programa, enquanto ainda discute sua permanência em outro.

Do contrário, se ele ingressasse no programa de parcelamento, beneficiando-se da redução do montante devido, e permanecesse amparado por decisão judicial suspendendo a exigibilidade do crédito tributário, teria “o melhor dos dois mundos”. Isso porque não pagaria as parcelas, porém, se sucumbisse na ação judicial, fruiria dos benefícios concedidos.

Para manter o equilíbrio dessa relação, é compreensível que a concessão de benefícios seja acompanhada da exigência de contrapartidas. Nesse contexto, é aceitável que não se permita que o contribuinte ingresse no programa de parcelamento especial enquanto mantém concomitantemente ação judicial contra o débito parcelado. Se não fosse assim, poderia estar comprometida a própria noção de parcelamento especial como forma de regularizar brevemente o ingresso de receitas ao Estado e a situação fiscal do contribuinte.

Se a finalidade da legislação de proibir que o contribuinte mantenha simultaneamente a impugnação judicial do débito parcelado e o parcelamento tributário especial é legítima, é indispensável verificar por quais meios ela pode ser legitimamente alcançada.

Na hipótese de o contribuinte ter processo judicial em curso no momento em que ingressa no programa de parcelamento, pode-se dele exigir que desista da ação. Essa exigência somente poderia ser imposta por lei e não poderia restringir excessivamente o direito de o contribuinte recorrer ao Poder Judiciário em outro momento, se entendesse que o tributo foi cobrado em contrariedade às normas legais ou constitucionais.

Na hipótese de o contribuinte ter ingressado no programa de parcelamento sem que já tivesse impugnado judicialmente a cobrança, a mesma exigência não poderia ser

formulada. As leis impõem a desistência e a renúncia em relação a processos que já estejam em curso no momento da opção pelo parcelamento. Nem poderia ser diferente. Não é possível exigir a desistência e a renúncia em relação a ações judiciais ainda não propostas. A lição de BARBOSA MOREIRA sobre a renúncia ao direito de recorrer, prevista no art. 502 do Código de Processo Civil, elucida bem o argumento. Segundo ele, não se pode renunciar validamente ao recurso antes da prolação da decisão, porque só se poderia renunciar ao direito de recorrer a partir do momento em que ele já seria exercitável in

concreto. O autor afirma: “assim como não se desiste de recurso ainda não interposto,

tampouco se renuncia a recurso ainda não interponível”.383 Da mesma forma, não se pode desistir de uma ação que não se interpôs, nem se renunciar a alegações de direito que ainda não foram formuladas.

Poder-se-ia exigir do contribuinte que, enquanto permanecesse vinculado ao programa de parcelamento tributário, ele se comprometesse a não ajuizar demanda judicial contra o débito parcelado, sob pena de ser excluído do parcelamento. Todavia, essa exigência não poderia inviabilizar o exercício posterior de seu direito de recorrer ao Poder Judiciário, se entendesse que o tributo foi cobrado em contrariedade às normas legais ou constitucionais.

Entretanto, pode-se tentar encontrar soluções que possibilitem a coexistência harmônica do parcelamento especial e da ação judicial proposta contra o débito parcelado. Uma alternativa, que garantiria a consecução das finalidades dos parcelamentos especiais, seria exigir o pagamento regular das parcelas com a possibilidade de repetição do indébito na hipótese de êxito judicial do contribuinte. Desse modo, o ingresso de receitas ao Estado estaria assegurado e a situação fiscal do contribuinte seria regularizada; sem, contudo, que isso afastasse o seu direito de postular tutela jurisdicional. Outra opção seria, em caso de simples erro na declaração, que se retificasse o equívoco e se desse prosseguimento ao parcelamento do montante readequado. Essa solução seria aplicável, por exemplo, à situação de inclusão errônea dos estagiários na base de cálculo do ISS devido por sociedade de advogados.384 Ainda, poder-se-ia permitir que o contribuinte impugnasse

                                                                                                                         

383 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Comentários ao Código de Processo Civil. vol. V (arts. 476 a 565). Rio

de Janeiro: Forense, 2008. p. 341.

judicialmente somente os débitos dos quais discorda, mantendo a adesão ao programa em relação a outros débitos.

Como se viu, há meios válidos para que o Poder Público impeça o contribuinte de manter simultaneamente a impugnação judicial do débito parcelado e o parcelamento tributário especial. Com isso, o Estado não restringe excessivamente os direitos fundamentais, ao passo que alcança a finalidade dos programas especiais de parcelamento tributário de transpor a resistência do contribuinte contra o pagamento do tributo e favorecer a arrecadação.