• Nenhum resultado encontrado

3.4 – SISTEMA IMPERIAL-ESCRAVISTA O “MUDAR DE ROUPA SEM MUDAR DE PELE”

De maneira muito ambígua, o Brasil emancipa-se de Portugal em 1822. O português Dom Pedro I é coroado imperador e o momento em que se apresentou, pela primeira vez, a possibilidade de ruptura com o pacto social colonial acabou por constituir o momento de lapidação de nossas práticas mais odiosas. A Constituição de 1824 manteve a escravidão. Nela, os africanos escravizados são tidos apenas como mercadoria, nas palavras de Flauzina:

Cientes de que a abolição da escravatura se daria inevitavelmente diante de um cenário que apontava para as formas de trabalho livre como meio de gerar consumo, as classes dirigentes brancas adiaram-na até o último momento. Nesse sentido, o Império aparece como um espaço arquitetado para evitar as rupturas, sedimentar as continuidades e dar o sinal definitivo de que ao projeto de controle somar-se-ia o do extermínio. Não conseguindo enxergar no segmento negro nada além de sua “vocação” para o trabalho compulsório, era preciso criar as condições para gerenciar aquele contingente e o inviabilizar coletivamente em termos sociais. Foi assim que, indispostos a viver num país com numerosa massa de seres inferiores e mais, recusando-se a com eles compartilhar qualquer dimensão do poder, as elites construíram o Império como forma de preparar as condições para o descarte desses indesejáveis. Em última instância, o Império não só assume como sofistica o projeto colonial (FLAUZINA, 2006, p.53-54).

No Brasil do século XIX, salta aos olhos o paradoxo entre a vigência da escravidão e a popularidade, entre as elites dirigentes, das ideias importadas do Iluminismo europeu. No Império conviviam liberalismo e escravidão. A instabilidade política está inscrita nas revoltas das décadas de 30 e 40, que se espalharam por todo o território nacional: 1831, Cabanagem no Pará; 1832, Setembrada em Pernambuco; 1835, Farroupilha no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e Revolta dos Malês, na Bahia; 1837, Sabinada na Bahia; 1839, Balaiada no Maranhão; e 1848, Praieira em Pernambuco. Em meio à instabilidade política que ameaçava o projeto de nação das elites euro-descendentes, o projeto liberal brasileiro é um projeto policial focado prioritariamente no controle dos corpos e dos modos de vida das populações não- brancas. É este o contexto do Código Criminal do Império de 1830. Nele, o negro escravizado, que era considerado um objeto, uma mercadoria, para todos os demais ramos do Direito, transforma-se em sujeito do Direito Penal. Esse é o momento de nossa história em que o Direito Penal, antes ancorado no âmbito privado, começa a se deslocar vagarosamente para a

111

esfera do público. Entre as particularidades do Código Criminal, chama atenção que as penas cruéis (açoite, tortura e marcas de ferro), que foram abolidas pelo inciso XIX do art. 179 da Constituição de 1824, continuavam em vigor desde que o sujeito a ser punido fosse um escravo (art. 60 do Código Criminal). O artigo 113 previa a degola para as lideranças das insurreições. Já o artigo 179 punia quem reduzisse pessoa livre à escravidão. Ou seja, dando demonstração inequívoca de nossa vocação para o cinismo, a escravidão era censurada no interior mesmo de um regime escravocrata (FLAUZINA, 2006).

Também durante o período imperial-escravocrata observa-se o aumento da população urbana. Em 1849, a cidade do Rio de Janeiro detinha uma população de aproximadamente 266 mil habitantes, dentre eles, 110 mil escravizados. O Rio de Janeiro era a maior concentração urbana de escravos do mundo desde Roma (FLAUZINA, 2006). Mediante o mecanismo discursivo da modernidade - que ao justificar a violência colonial relacionava no imaginário coletivo o comportamento animalesco e cruel, metodicamente incorporado pelos brancos, aos negros -, é de se imaginar o terror que a simples existência das comunidades negras despertava. Assim, o direito de ir e vir dos negros é posto sob vigília constante. Segundo o art. 1 do Decreto de 20 de março de 1829, os escravos que estivessem nas ruas, sem autorização expressa do senhor, seriam presos e castigados pelo proprietário. Percebe-se certa continuidade da influência do privado na medida em que os senhores de engenho são tidos como órgãos de execução penal. Conclui-se que, apesar de estar se tornando público, o Direito Penal ainda mantinha as metodologias apreendidas na dialética Casa Grande e Senzala (FLAUZINA, 2006).

Talvez a maior interdição ao direito de ser negro veio expressa no artigo 295 do Código Criminal do Império: a criminalização da vadiagem. A criminalização do ócio é, de certa forma, a criminalização da liberdade. Foi o jeito que a supremacia branca encontrou de colocar sob intensa vigilância os negros libertos, aqueles que não eram “mercadorias” 11. No Rio de Janeiro, em 1840, 65% das prisões eram por ofensa à ordem pública.

O que este dispositivo visa é que os escravizados passem da tutela dos senhores diretamente para a do Estado. A vadiagem é, em última instância, a criminalização da liberdade. Ou, podemos dizer, aos negros não é facultado o exercício de uma liberdade sem as amarras da vigilância. Assim, longe da cidadania, a sociedade imperial apreende os negros no desempenho de dois papeis: o de escravos ou

11 Importante lembrar que mesmo a liberdade comprada por um negro estava condicionada a averiguação de um homem branco. O artigo três do referido Decreto afirma que os negros libertos deveriam pedir um passaporte a um juiz de Paz ou Criminal e a este cabia decidir se ia ou não lhe conceder a liberdade.

112 criminosos. Tendo em vista a falta de interesse do poder público em promover a efetiva ocupação da mão-de-obra negra livre, a vadiagem, inserida no pacote de inviabilização social do contingente negro, é, indubitavelmente, uma categoria funcional da política. Dentro do Império, portanto, na obsessão pelo controle dos corpos negros, gera-se o ócio como argumento para a punição (FLAUZINA, 2006, p.58-59).

Em 1850, tem início o discurso e as políticas de incentivo à imigração europeia. Entre 1871 e 1920, 3,4 milhões de imigrantes europeus chegaram ao Brasil. Interessa notar que o contingente branco é similar ao contingente negro trazido para o Brasil durante os três séculos e meio de escravidão. Até 1850, estima-se que foram trazidos para o Brasil cerca de 3,3 milhões de africanos escravizados. Assim, o imigrante europeu atendia ao chamado para o embranquecimento da nação. A imigração era a resposta óbvia das elites euro-descendentes ao caráter racial do país. Nesse sentido, a sobrevida da escravidão explica-se como decisão estratégica para se ganhar tempo enquanto, mediante a imigração europeia, embranquecia-se o país. A decisão também refletia certa preocupação tática da branquitude: inserir os negros no mercado formal de trabalho significaria comprometer os mecanismos de inviabilização social da população negra, excluí-los era uma forma de garantir o que Carneiro chama “profecia auto-realizadora”, era projetar a pobreza como o espaço de vida das populações negras. O pacote de leis relacionados à escravidão, entre as décadas de 1850 e 1880, cumpria exatamente esse papel - resguardar o imaginário simbólico que associa negritude à escravidão esticando a sua vigência enquanto importava-se trabalhadores brancos (FLAUZINA, 2006). Assim, temos em 1850 a Lei Eusébio de Queiroz, que proíbe o tráfico de escravos; em 1871 a Lei do Ventre Livre; e em 1885 a Lei dos Sexagenários. A elite euro-descendente atendia às pressões inglesas ao mesmo tempo em que criava para si a imagem de benevolente. Ao assinar a Lei Áurea, a princesa Isabel não fez nada além de legalizar a liberdade conquistada a duras penas pelo povo negro – em 1872, pouco mais de uma década antes da abolição, 15,2% do total da população negra encontrava-se escravizada; em 1880, esse número era de 8% (FLAUZINA, 2006). Mesmo o movimento abolicionista brasileiro, composto dos sujeitos políticos da época, homens brancos, não se preocupava em escamotear suas intenções:

Entretanto, apesar dos esforços negros empenhados nessa campanha, a abolição se deu nas condições pautadas por um movimento abolicionista constituído por membros da elite, que estabelecia um diálogo estreito com os senhores de escravos, não tendo por objetivo qualquer tipo de ruptura com os interesses das classes hegemônicas. Transitando entre propostas de uma libertação gradual e a ruptura definitiva das amarras escravistas, os abolicionistas, acreditavam na necessidade de integração social do segmento negro, apesar de reconhecer sua inferioridade intrínseca e, principalmente, na superação de um sistema produtivo caduco como o escravocrata. Sempre dentro da perspectiva de manutenção do status quo, os abolicionistas empreenderam um projeto em que a liberdade das massas negras estava condicionada à manutenção do latifúndio. A ruptura com o fundamento

113 essencial do escravismo, portanto, nunca esteve pautada. O racismo esteve, por paradoxal que possa ser, nas bases de sustentação no movimento de extinção das relações escravistas, dentro de um cenário em que, fora da carceragem e das ocupações mais elementares, os espaços sociais destinados à população negra restringiam-se progressivamente. Diante deste quadro, salienta Vera Batista: “o humanismo é apenas elegância retórica e o abolicionismo que se quer não tem nada a ver com exigências de cidadania revolucionária, mas com os estorvos que os negros passam a representar: eis o abolicionismo de resultados” (FLAUZINA, 2006, p.64-65).

Por último, é importante enunciar o que representou a Guerra do Paraguai para a população negra no Brasil: entre 1860 e 1872 a população negra, em termos absolutos, tem uma redução demográfica de aproximadamente 1 milhão de pessoas. A Guerra do Paraguai (1864 -1870), para os negros do Brasil, não foi guerra, conflito ou combate, foi o genocídio, o extermínio, a morte massificada do contingente negro coordenada pelo Império. Era comum que nobres enviassem escravizados para a guerra, em substituição aos seus filhos. Nos quinze anos que se sucederam à Guerra do Paraguai, a população branca brasileira cresceu 1,7 vezes, enquanto a população negra diminuiu em 60% (FLAUZINA, 2006).

O Império foi o momento de consolidação do racismo como uma das maiores fontes de nossa aptidão política. Inscrito nos discursos da decadência biológica da população negra e operando através da produção da morte em massa, o Império representa apenas uma repaginação, uma sofisticação do projeto genocida inaugurado pela aventura colonial. Como disse, certa vez, Machado de Assis, trocamos de roupa sem trocar de pele.