CAPÍTULO I Direito do consumidor
3. Sociedade hiperconsumerista
Através dos itens anteriores poder-se-á traçar alguns parâmetros ou perspectivas que, possivelmente, se desenvolverão nesse período pós-moderno que, para
alguns, se avizinha e, para outros, já acontece. Porém, não se estabeleceria como cientifico traçar tais especulações. Por isso, neste item, pretende-se efetuar uma análise das perspectivas das relações de consumo no período que evolve a sociedade atual e que se projeta para adiante de nosso tempo, pelo menos num futuro próximo.
A aceitação de uma nova sociedade que se difere fundamentalmente da dita sociedade moderna é o ponto de partida para uma discussão sobre os rumos das relações de consumo. O milênio se inicia sob o estigma da rapidez, das mutabilidades constantes, da substituição da engrenagem pelo chip, dos novos direitos, da globalização acelerada, da internet socializada, das redes mundiais de vendas ao consumidor, das compras sem sair de casa, da fluidez das relações, da publicidade massificante, da propriedade com função social, do contrato com função social, enfim, de um direito onde o privado se confunde com o público, onde o privado não é tão privado e o público não é tão público.
É nesse contexto, que poderia encher páginas e páginas de novas configurações, que ocorre o distanciamento cada vez mais da dita sociedade moderna e que induz a percepção de uma sociedade que, indiscutivelmente, pode ser chamada de pós-moderna, é que se insere a relação de consumo.
Na realidade, vive-se em um momento de transição, onde o novo quer nascer e o velho ainda não morreu. Realmente, ainda se olha o novo com os olhos do velho. Não se reconhece o novo com medo de que ele seja revolucionário e que, aquilo que era estável pode, de repente, não mais que de repente, se instabilizar, desvanecendo-se em pleno ar.
O novo é a sociedade pós-moderna que implementa e acentua as formas líquidas, já detectadas por Bauman em seu livro “modernidade líquida”, e que, nas relações de consumo, concretiza o hiperconsumidor e o turboconsumidor, para utilizar as palavras de Gilles Lipovetsky46.
Três aspectos são fundamentais na análise que envolve o contexto das novas perspectivas para as relações de consumo: o avanço dos interesses privados; a
46 LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade Paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das letras, 2007.
intervenção estatal; a formação do consumidor enquanto ser consciente de seu lugar na sociedade. Para finalizar este capítulo, a análise desses três aspectos se faz necessária, buscando perfilar as características possíveis da relação de consumo que se avizinha.
O avanço dos interesses privados: nesta seara, se busca aproximar o contexto consumerista ao denominado liberalismo, onde se busca uma maior liberalidade de atuação do fornecedor no mercado consumerista, dentro, ainda da idéia de que o mercado, por si só se regulamenta. Este sistema já provou sua ineficiência, vez que, as partes da relação de consumo se demonstram desiguais, estando na mão dos fornecedores o poder que envolve tanto o âmbito econômico quanto técnico. Nessa formulação social, o consumidor não consegue fazer frente aos interesses do fornecedor que, justamente numa sociedade capitalista, busca o lucro como primeiro objetivo.
Nem o sistema neoliberal, que ameniza, de certa forma, a totalidade da liberdade cantada em versos e prosas no liberalismo é, no âmbito das relações de consumo, o campo fértil para um desenvolvimento seguro ao consumidor dessas relações. Para entender de forma prática essa análise basta voltar à leitura aos itens anteriores.
A intervenção estatal: Este tipo de intervenção pode se dar de uma forma total ou parcial. Na primeira, o Estado passa a ser o gerenciador de todos os meios de produção, o que não possui mais lugar em um mundo cada vez mais globalizado; na segunda, o Estado é partícipe na criação de um sistema onde a sociedade se demonstre mais igualitária. Aqui, o Estado procura através do conjunto normativo jurídico, minimizar as desigualdades existentes entre fornecedor e consumidor.
A formação do consumidor enquanto ser consciente de seu lugar na sociedade: Um dos elementos que desestrutura a igualdade na relação de consumo está na educação do consumidor. A sociedade se modernizou tecnicamente, porém não conseguiu estabelecer parâmetros que elevasse os padrões culturais do consumidor. Nesse campo, o consumidor não possui qualquer cultura de organização coletiva, não dispondo, também, capacidade individual de entendimento dos complexos processos que envolvem o sistema consumerista, o que impõe ao Estado um papel de protetor do consumidor, tanto individual quanto coletivamente.
Em síntese, para se falar em novas perspectivas das relações de consumo pode-se trabalhar com os três elementos antes dispostos.
Não parece factível que a nova sociedade pós-moderna aceite a liberdade total nas relações de consumo, tendo em vista as experiências anteriores que envolveram o sistema liberal como fundamento da sociedade moderna, e que, no que se refere as relações de consumo não produziu os resultados estabelecidos na teoria. Nesta, o mercado se regularia com tranqüilidade e todas as partes envolvidas sairiam lucrando. Na prática somente os fornecedores saíram lucrando e os consumidores se viram cada vez mais prejudicados. Assim, parece estar descartado qualquer direcionamento da sociedade de consumo para a liberdade total de atuação das partes envolvidas.
Pelo mesmo caminho se poderia seguir quando se analisa a intervenção plena do Estado. A globalização já não mais permite um Estado forte, gerenciador de todos os meios de produção e consumo, haja vista as aberturas que estão se processando nos Estados ditos comunistas.
Parece factível, portanto, uma sociedade em que as relações de consumo sejam acompanhadas de perto pelo Estado. Com certeza, novas leis deverão ser criadas para se somarem às existentes com o intuito de regulamentarem o processo de atuação do mercado.
Os itens anteriores, que formaram a base teórica para o desenvolvimento deste, sustentam, substancialmente, a conclusão de que não há possibilidade de se ter uma sociedade de consumo coerente e que se desenvolva de forma eqüitativa entre consumidor e fornecedor sem a intervenção estatal. Essa intervenção, no entanto, deve ser tal que, ao mesmo tempo, não prejudique o desenvolvimento da iniciativa privada, mas também possibilite uma proteção efetiva ao consumidor.
Assim, viu-se que foram as mudanças sociais e econômicas nos mercados de produção, distribuição e de consumo que, por sua força e importância, levaram á regulação especial do consumo, com a relativização destes antigos dogmas do direito
civil e comecial nas novas normas, dentre elas o CDC47, nos termos propostos por Cláudia Lima Marques. A autora ainda destaca dois pontos importantes neste aspecto, quais sejam: a) o desejo de consumo individual e a falácia do consumidor como “rei” do mercado; b) a massificação da produção, da distribuição e do consumo e os reflexos na posição de vulnerabilidade do consumidor, reflexos individuais e coletivos, assim como oriundos da desmaterialização do consumo, e da contratação massificada, em face do novo valor econômico dos serviços.