CAPÍTULO 3: RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.3. Práticas e eventos de letramento de Sofia
3.3.1 Sofia e sua trajetória de letramento
Sofia tem 20 anos. Mora com sua avó por parte de pai e com sua irmã gêmea. Antes de residir com apenas sua avó e sua irmã, Sofia morou com três tias, as quais, à medida que se casaram, saíram de casa. Sua avó tem 64 anos, possui o ensino fundamental, é pensionista e trabalha voluntariamente no NEIMFA, sendo uma das primeiras fundadoras dessa associação. A irmã de Sofia terminou
o ensino médio há dois anos, tem investido em um curso no Pró-Jovem e pretende prestar vestibular para secretariado. Em sua rua, residem também seus avós por parte de mãe. A mãe de Sofia mora em outra cidade da região metropolitana do Recife, mas mantém contato com as filhas; trabalhou como cabeleireira durante mais de 10 anos, possui o ensino fundamental e voltou a estudar para finalizar a sua escolarização.
Em casa, todos sabem ler e escrever. Sofia fala que é comum ver sua irmã lendo textos literários ou revistas de seu interesse. Já a sua avó, costuma ler livros relacionados à sua religião, o espiritismo, e tem como hobby a realização de caça- palavras em revistas especializadas. Sofia diz que é raro sua avó pedir ajuda para ler ou escrever algo e, quando pede, é no momento em que produz algum texto, sendo suas dúvidas relacionadas à ortografia, normalmente.
Quando conversamos sobre a sua infância e, mais especificamente, dos usos da leitura e da escrita nesse período de sua vida, Sofia faz referência direta ao papel de sua mãe enquanto incentivadora da prática de leitura: “Assim... apesar de minha mãe não ter estudado, ela me influenciava muito, comprava gibis pra mim, eu lia bastante gibi, não fui muito de ler livros não, isso começou na minha pré-adolescência”. Os gibis lidos por Sofia eram normalmente comprados por sua mãe ou ganho através de pessoas que sabiam da sua preferência por este gênero textual. Lembra-se que aprendeu a ler muito cedo, aos cinco anos, o que era motivo de orgulho para a sua mãe: “Minha mãe me botava para ler, ela dizia: ‘pega o livro, venha ler, mostre pra num sei quem que você sabe ler’. Ela ficava super orgulhosa.”
Durante parte de sua infância, Sofia estudou em escolas particulares nos bairros da Mangueira e Santa Luzia, onde se alfabetizou e cursou até a terceira série. Ainda criança, passou a estudar em uma escola pública, onde finalizou o ensino médio. Refere-se às escolas com muito carinho e lembra-se que gostava muito de estudar: [...] “na minha infância, gostava muito de estudar, livros da escola mesmo, botava minha tia pra me ensinar. [...] lembro que eu gostava de participar das peças, tinha que ler os livros de responder as atividades, ler historinhas que vinham nos livros.”.
Sofia analisa que, assim como ela, os jovens de sua idade, próximos a ela, não tiveram dificuldade de acesso à escola da forma como a sua avó teve, por
exemplo. Reflete que não enfrentou dificuldades para finalizar os estudos, mas que viu muito de seus amigos se afastando da escola, “se desviando do caminho”, e questionava-se se aconteceria algo que a atrapalhasse. Conclui, no entanto, que sua escolarização foi muito tranqüila:
Sempre gostei da escola, eu digo assim: hoje em dia eu tô na faculdade, mas a melhor época da minha vida foi na escola, tanto na infância, quanto na adolescência, pelas amizades, pelos professores, eu sempre fui muito sentimental, sempre criava um vínculo forte com os professores.
Desde pequena, Sofia tem se inserido em práticas sociais de cunho religioso. Através do NEIMFA teve acesso a Doutrina Espírita, pois, como já dito, quando pequena participava das reuniões da associação, que de início funcionava como um Centro Espírita; também freqüentou a Igreja Católica, à qual afirma ter algumas críticas, principalmente depois de ter estudado assuntos na área de História que analisavam a postura dessa Igreja.
Atualmente, Sofia vai a uma Igreja Protestante (perto do bairro onde mora), a qual freqüenta desde a adolescência. Durante o período da coleta de dados, Sofia queixava-se, pois deixava de ir à Igreja pela quantidade de demandas para dar conta ou devido ao cansaço. Lembra-se, no entanto, que durante sua adolescência, após o convite de uma amiga, ia todos os domingos à Escola Bíblica Dominical, onde aprendeu a ler e manusear melhor a Bíblia, aproximando-se dos seus ensinamentos :
Lá eu fazia leitura da Bíblia, eu tenho boas lembranças disso, pois se hoje eu sei pegar a Bíblia... porque é tão difícil você achar alguém que saiba pegar a Bíblia e abrir no livro certo, e foi importante que eu tive contato com a Bíblia e com a palavra de Deus, mas ainda falta muito, né.
Aos 10 anos, Sofia ingressou também em um projeto da Associação Arte e Vida, direcionado a crianças e adolescentes dos bairros do Coque e de Santo Amaro (outro bairro cujo perfil socioeconômico se assemelha ao do Coque). Nela, tinha aulas de dança e participava de aulas que trabalhavam com literatura e teatro. Foi nesse espaço que expandiu seu interesse por textos literários e pelas artes em geral. Sua participação no projeto deu-se entre os anos de 2000 e 2005, entre os 10 e 15 anos.
Como já mencionado, o Neimfa também foi citado tanto na infância quanto na adolescência como outro espaço importante para Sofia. Na época em que a associação não tinha sede específica e funcionava como um centro espírita na casa de pessoas da comunidade, Sofia costumava acompanhar sua avó às reuniões de evangelização: “Eu, pirrainha, com três anos, lembro, criança mesmo, eu ficava lá escutando, falavam muito de Deus, do amor, da harmonia, essas coisas de sentimentos, e eu ficava só ouvino e esperando o lanche”. Aos nove anos, Sofia participou de um curso de cunho religioso com atividades lúdicas, que envolviam a leitura de histórias, brincadeiras e passeios. Já na adolescência, se insere no curso de Agentes de Educomunicação Solidária, iniciado pelo Neimfa e sucedido pelo Agentes de Comunicação Solidária, quando da inserção de um grupo de professores e jovens universitários de Comunicação Social e de Educação, nas ações do NEIMFA. Assim como Sandokan e Tyler, Sofia participou de ambos os cursos, os quais duraram dois anos. A partir desses cursos, aproximou-se das temáticas da Filosofia e da História, áreas que lhe chamaram a atenção.
Através do Neimfa e da escola conheceu mais sobre o vestibular e sobre a Universidade Federal de Pernambuco. Seu interesse em fazer um curso superior levou-a a buscar informações em fontes tais como a televisão e o guia de profissões. Ao saber que o curso de turismo pedia profissionais com perfil comunicativo, reconheceu-se nele, o que a ajudou a decidir que prestaria o vestibular assim que finalizasse o ensino médio. A aproximação de Sofia com o grupo de jovens universitários da UFPE ajudou-a, em sua avaliação, a expandir sua personalidade comunicativa e, ao mesmo tempo, alimentava a sua decisão em tornar-se universitária, lugar este valorizado por ela, como podemos ver no trecho abaixo:
Foi legal porque eu acho que me tornei mais comunicativa do que eu já era, fiquei com menos medo de me expressar. Eu acho que quando eu entrei na faculdade, eu tava assim, todo mundo dizia que eu não era tímida pra apresentar trabalho, e acho que foram esses cursos. E foi a partir desse curso que eu conheci a federal, e eu lembro que quando vocês falavam da federal meus olhos brilhavam, eu dizia: eu vou estudar lá, porque eu achava bonito ver vocês na federal, até que eu entrei.
Da mesma forma que os dois outros jovens sujeitos da pesquisa, Sofia também participou da oficina de Memoriais no curso de Agentes de Comunicação
Solidária, mas não pode finalizá-la devido ao vestibular. A produção do seu memorial foi realizado, no entanto, após a finalização da oficina, quando a jovem, junto aos outros sujeitos da pesquisa e à pesquisadora, organizavam a publicação do livro no qual se encontram os textos dos jovens. O texto de Sofia foi disponibilizado abaixo:
Figura 13: Texto memorialístico de Sofia. Fonte: Livro “Coque Vive: Exercícios do Olhar”.
No último parágrafo de seu texto, Sofia cita uma pesquisa que estava realizando em seu bairro. Esta refere-se à clipagem de notícias sobre o Coque no Diario de Pernambuco, já mencionada nos perfis de Tyler e Sandokan uma vez que os três participaram enquanto jovens pesquisadores.
Desde que entrou no curso de Turismo, Sofia tem procurado se inserir em experiências de estágio em sua área. A primeira delas foi em uma empresa júnior de turismo chamada Plantur JR, formada e gerenciada por graduandos do Núcleo de Hotelaria e Turismo da Universidade Federal de Pernambuco. Ao entrar na empresa, Sofia assumiu o cargo de treinee no departamento de eventos. Nessa experiência, passou para o cargo de diretora. Segundo a jovem, foi nesse período que aperfeiçoou suas habilidades de escrita e leitura de relatórios, emails, entre outros textos da área administrativa. Embora o cargo proporcionasse a Sofia uma
experiência grandiosa para a sua área, não era remunerado o que a fez procurar outras experiências, mas agora remuneradas.
Na coleta de dados, Sofia já atuava em outro estágio, o qual era parte de um projeto chamado “Circuito nas Igrejas”. A jovem tomou conhecimento sobre o cargo através da internet, por meio de um e-mail enviado pelos professores a sua turma. Para entrar no projeto, realizou uma prova e, posteriormente, o treinamento de uma semana, com pessoas da área de turismo, arquitetura, história, artes e patrimônio histórico. Para realizar a prova, fazia pesquisa na internet sobre os assuntos mais importantes.
Nesse trabalho, Sofia atendia aos visitantes da Igreja onde atuava, repassando-lhes informações sobre a instituição e entregando-lhe panfletos sobre possíveis eventos. Embora gostasse do estágio, Sofia pensava em procurar outras experiências, que se aproximassem da área de gestão de projetos, área de seu interesse.
No período em que acompanhamos Sofia, entre março e abril, sua rotina configurava-se da seguinte forma: durante as manhãs ia ao estágio, no projeto Circuito das Igrejas, no qual era responsável por apresentar a Igreja aos seus visitantes, explicitando sua história e sua importância; à tarde, ia para a universidade; e às noites, realizava os afazeres da faculdade, assistia uma pouco de tevê e descansava. Nos fins de semana, Sofia ia para o curso de inglês. Nas próximas seções, delinearemos os eventos de letramento mapeados durante esse período que acompanhamos Sofia.