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Sofrimento de Maria após o seu consentimento na morte do Filho

CAPÍTULO II: Certeza da Imaculada Conceição

PONTO SEGUNDO A exaltação de Maria por Deus

VI. DA PURIFICAÇÃO DE MARIA Resumo histórico.

2. Sofrimento de Maria após o seu consentimento na morte do Filho

Sim, Maria sofreu o martírio no coração, porque somente a compaixão com os sofrimentos de seu amado Filho era a espada de dor, que havia de transpassar-lhe o coração de Mãe, conforme a profecia de Simeão. “E uma espada transpassará até a tua alma” (Lc 2,35). Já a Santíssima Virgem sabia pelas divinas Escrituras as penas que devia padecer o Redentor em toda a sua vida, e muito mais no tempo de sua morte. Compreendia bem os profetas, que anunciavam que ele devia ser atraiçoado por um seu familiar. “Até o homem de minha estima, que comia o meu pão, urdiu grande traição contra mim” (Sl 40,10). Bem sabia dos desprezos, escarros, das bofetadas e zombarias que devia sofrer. “Aos que me feriram, entreguei o meu corpo, e as minhas faces aos que me arrancavam os cabelos da barba” (Is 50,6). Estava ciente de que ele havia de se tornar o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe mais vil, a ponto de ser saturado de injúrias e vilanias: “Eu sou um verme e não um homem; o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe” (Sl 21,7). Sabia que no fim da vida as suas carnes sacrossantas deviam ser todas laceradas e rotas pelos açoites, de modo a ficar seu corpo todo desfigurado, semelhante a um leproso, todo chagado, deixando aparecer os ossos descobertos. “Mas ele foi ferido pelas nossas iniquidades, foi quebrantado pelos nossos crimes (Is 53,5). Não tem beleza, nem formosura... e o reputamos como um leproso (53, 2 e 44). Contaram todos os seus ossos” (Sl 21,18). Sabia que o Filho devia ser transpassados pelos cravos, colocado entre malfeitores, pregado finalmente à cruz, na qual morreria pela salvação dos homens. “Transpassaram minhas mãos e meus pés (Sl 21,17). Ele foi posto no número dos malfeitores (Is 53,12). E eles porão os olhos em mim, a quem transpassaram” (Zc 12,10).

Todas essas penas de seu Filho eram conhecidas a Maria. Mas, nas palavras que lhe disse S. Simeão, lhe foram descobertas, como o Senhor revelou a S. Teresa, todas as circunstâncias, em particular, das dores assim externas como internas, que deviam atormentar o seu Jesus na Paixão. E ela em tudo consente, e com uma constância que faz admirar os anjos pronuncia a sentença que vota seu Filho a uma tão cruel e ignominiosa morte. Pai Eterno — diz ela —, já que vós assim o quereis, uno a minha vontade à vossa, e sacrifico-vos este meu Filho; contento-me que perca a vida pela vossa glória e salvação do mundo. Sacrifico-vos também com isto o meu coração; transpasse-o a dor, quando vos agradar; basta-me que vós, ó meu Deus,

sejais com isso glorificado e satisfeito. Faça-se não a minha, mas a vossa vontade. — Ó constância sem exemplo! ó vitória digna da perene admiração do céu e da terra!

Compreensível nos é agora o silêncio de Maria na Paixão de Jesus, quando o acusam injustamente. Eis a razão por que nada absolutamente diz a Pilatos, que, conhecendo a inocência do acusado, estava inclinado a dar-lhe a liberdade. Ela só apareceu em público para assistir o grandioso sacrifício do Calvário. Acompanha Jesus ao lugar do suplício e lhe está ao lado, desde que é pregado na cruz até o que o vê expirar e consumar o sacrifício. “Estava em pé, junto à cruz de Jesus, sua mãe” (Jo 19,25). Assim procedeu em cumprimento da oferta que dela fizera outrora no templo.

Para fazer ideia da violência que Maria teve de fazer a si mesma neste sacrifício, seria necessário compreender o amor que ela tinha a Jesus. Como é, em geral, terno o amor das mães aos filhos, principalmente quando os ameaçam perigos de morte e elas temem perdê-los! Esquecem então todos os defeitos, todas as deformidades deles, e ainda as injúrias que a elas fizeram. Entretanto padecem de um modo inexplicável. Contudo o amor das mães está repartido com outros filhos ou com outras criaturas. Maria tem um único Filho, e este é belíssimo, sobre todos os outros filhos de Adão. É amabilíssimo, pois tem todas as qualidades para ser amado; é obediente, virtuoso, inocente e santo, basta dizer, é Deus. O amor desta Mãe não é repartido com outras criaturas. Ela tem colocado todo o seu amor neste único Filho, e não teme ser excessiva em o amar, porquanto ele é Deus, que merece um amor infinito. E é este Filho a vítima por ela entregue voluntariamente à morte.

Por aí veja cada um, pois, quanto deve ter custado a Maria, e que fortaleza de ânimo teve de exercitar neste ato de sacrificar à cruz a vida de um Filho tão amável. Eis aqui por que Maria é a Mãe mais afortunada, por ser Mãe de um Deus. Porém foi ao mesmo tempo a mais angustiada de todas, por ser Mãe de um Filho que via destinado ao patíbulo, desde a hora em que o concebeu. Que mãe aceitaria um filho, sabendo que depois havia de vê-lo padecer e morrer entre tormentos e opróbrios? Maria, sim, aceita de bom grado este Filho, sujeitando-se a tão dura condição. Mais. Não só aceita, mas neste dia ela mesma, com as próprias mãos, imola-o à justiça divina. Diz D. Boaventura que a Santíssima Virgem preferia aceitar para si os tormentos e a morte do Filho. Para obedecer, contudo, a Deus, lhe fez a grande oferta de vida divina de seu amado Jesus, vencendo, embora com suma dor, toda a ternura do amor que lhe devotava. Assim, pois, nessa oferta Maria precisou fazer-se mais violência, e foi mais generosa, do que se tivesse oferecido a si própria para sofrer os padecimentos de seu Filho. Superou então a generosidade de todos os mártires, pois que eles ofereceram as suas vidas, enquanto a Virgem ofereceu a vida do Filho, por ela amado e estimado imensamente mais que a própria vida.

Nem aqui acabou a pena desta dolorosa oferta, antes começou. Pois que, de então em diante, por toda a vida do Filho, Maria sempre teve presente a morte de todas as dores que ele devia padecer. Quanto mais Jesus se ia revelando belo,

gracioso e amável, tanto mais por isso aumentava a angústia de seu coração. Ah! Mãe dolorosa, se vós fôsseis menos amante de vosso Filho, ou se vosso Filho fosse menos amável, ou não vos tivesse amado tanto, menor de certo teria sido a vossa pena em o oferecer à morte. Mas nunca houve, nem haverá, mãe mais amante de um filho, que vós. Isso porque jamais existiu, nem existirá, filho mais amável e amante de sua Mãe, que o vosso Jesus. Ó Deus, se tivéssemos visto a beleza e majestade do semblante daquele divino menino, teríamos tido porventura ânimo para sacrificar a sua vida pela nossa salvação? E vós, ó Maria, que lhe sois Mãe amantíssima, pudestes oferecer o vosso Filho inocente, pela salvação dos homens, a uma morte, a mais dolorosa e horrível das mortes, que jamais padeceu algum réu sobre a terra?

E que cena funesta, depois disto, devia o amor continuamente pôr diante dos olhos de Maria, representando-lhe todos os tormentos e desprezos, que haviam de fazer-se ao pobre Filho! Eis que o amor lho mostra agonizante de tristeza no jardim das Oliveiras; dilacerado pelos açoites e coroado de espinhos no pretório, pendente por fim do madeiro de opróbrio sobre o Calvário. Vede, ó Mãe, dizia-lhe o amor, que o Filho amável e inocente oferecestes a tantas dores, a uma morte tão horrível! De que serve subtraí-lo às mãos de Herodes, para o reservar depois a tão lastimoso fim?

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