2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS
2.1 LÍNGUA E VARIAÇÃO LINGUÍSTICA
2.1.3 Standard e substandard no contínuo linguístico
Segundo Weisgerber (1996, p. 259), o dialeto é diferenciado principalmente pela sua abrangência regional: o dialeto da comunidade rural, da cidade ou da região. Contrariamente, o conceito de ‘linguagem coloquial’ serve para designar a linguagem do dia-a-dia em duas dimensões diferentes: horizontalmente, como uma língua coloquial regional e, verticalmente, como uma linguagem do dia-a-dia, localizada entre os extremos do dialeto e da língua-padrão. No que se refere à língua-padrão, existe um leque de conceitos, os quais em parte já carregam valorações, ou melhor, marcam determinadas posições, como língua-padrão, língua oficial, língua escrita ou da literatura e língua culta.
Historicamente, os dialetos formam o fundamento para a formação de todas as outras variedades linguísticas. Por dialeto entende-se, em primeira instância, uma língua falada, ou seja, oral, com características específicas da região (Weisgerber, 1996, p. 259). Segundo Riehl (2009, p. 134), dialeto pode ser definido como “uma determinada variedade regional de uma língua, a qual tem como teto uma variedade sociologicamente considerada de nível mais elevado”. Algumas vezes, se agrega a questão da intercompreensão, como no caso de Mattheier (1983, p.138), quando define dialeto como “uma variedade que pode trazer dificuldades de compreensão para todo aquele que não é nascido na mesma localidade”, ou então, como uma “variedade linguística com inúmeras características extensíveis”.
Contudo, as dificuldades para uma definição justificável, levaram Löffler (1974) a fazer a seguinte constatação pragmática: ”Dialeto é o que as pessoas falantes de dialeto compreendem que seja”89. A tentativa de definir dialeto conduziu o autor para o seguinte “miniconceito universal”, em que elenca uma série de traços que caracterizam um dialeto:
“Dialekt setzt eine irgendwie geartete Zweisprachigkeit voraus, die historisch, politisch oder linguistisch eine gemeinsame Basis hat. Alle weiteren Merkmale wie: räumliche Erstreckung, geringe Reichweite, soziale Zuordnung, sprachliche Ausstattung, pragmatischer Status, informatorische und kommunikative Leistungsfähigkeit oder Bewertungen müssen einzelsprachlich innerhalb einer bestimmten Sprachgemeinschaft oder Nationalsprache und bezogen auf ein bestimmtes gesellschaftliches System kleinräumlich ermittelt und festgelegt werden. Nicht einmal ein anscheinend universelles Merkmal, dass Dialekt in der Zweierskala die niedrigere Stufe darstelle, ist übereinzelsprachlich gültig” (LÖFFLER, 1982, p.458).
Nesta definição, Löffler enfatiza principalmente o equívoco linguístico que existe sobre o aparente conceito universal de que o dialeto toma a posição inferior ao considerarmos uma escala de dois intervalos. Trata-se, aqui, de atributos como “uma língua pertencente à classe social de nível inferior”, que não raramente são mencionados ao se referir a um dialeto. No entanto, linguisticamente, não há diferença sistêmica entre língua e dialeto. Dialeto é dialeto em relação a uma língua maior, ou seja, um substandard de um standard. Todavia, a variedade substandard comporta-se, sistematicamente, de forma idêntica ao da variedade standard, pois, como mencionamos acima, não há diferença de status sistêmico entre ambas as variedades. O que é diferente é seu status social, político e histórico. O dialeto nada mais é do que uma língua com sistema gramatical e léxico, como afirma Coseriu (1982, p. 10-11),
“entre dialecto y lengua no hay diferencia de naturaleza o ‘sustancial’. Intrínsecamente, un dialecto es simplesmente una lengua: um sistema fônico, gramatical y léxico. (...) Así, pues, en sentido ‘objetivo’ [...], el término dialecto [...] no significa otra cosa que el término lengua” (COSERIU, 1982, p.10-11).
Contudo, nos estudos dialetológicos o termo língua é empregado para referir-se à língua histórica, constituída por um conjunto de diferentes modos de falar, designados “dialetos”. Essa afirmação é justificada por Coseriu (1982, p. 11): “si todo ‘dialecto’ es una lengua, no toda ‘lengua es un dialecto.”
Apesar das dificuldades terminológicas, a ciência da dialetologia produziu resultados de toda ordem, pautados em aspectos históricos, geográficos e sociolinguísticos. Na visão de Mattheier (1980, p. 199 apud WEISGERBER, 1996, p. 260), os dialetos atualmente “são variedades não necessariamente ligadas a um espaço territorial”. Para ele, os dialetos são formas linguísticas existentes, as quais envolvem aspectos sociais e situacionais.90
Weisgerber (1996, p. 260) chama adicionalmente atenção para os seguintes pontos de vista: a) dialetos devem necessariamente ser vistos a partir das suas relações e realizações
linguísticas num todo;
b) a pesquisa histórica deve incluir o desenvolvimento atual dos dialetos, como também a amplitude e a função dos mesmos;
90“Dialekte sind heute keine ausschließlich raumgebundenen Varietäten mehr, wenn sie es überhaupt jemals waren. Dialekte sind sprachliche Existenzformen, die eingebunden sind in vielfältige und verschiedenartige gesellschaftliche und situative Bezüge, die nicht ihren Randbereich bilden, sondern das Phänomen der Dialektalität heute zentral prägen” (MATTHEIER, 1980, p. 199 apud WEISGERBER, 1996, p. 260).
c) a pesquisa empírica deve, sobretudo, além do ponto de vista geográfico, considerar as condições sociais e situativas do uso dos dialetos.
A partir dessas considerações de Weisgerber, o presente estudo pretende analisar o uso da variedade dialetal Plautdietsch como uma variedade substandard em relação a seu contraponto, a língua-padrão. Contudo, em função do contexto em que é falado, que inclui uma posição de marginalidade em relação a uma língua oficial majoritária, usada pelas instituições que regulam o funcionamento da máquina social no contexto em que se insere, é preciso analisar o Plautdietsch sob outros parâmetros, como se verá a seguir.
2.1.2 Língua materna, língua de imigração e língua minoritária
Segundo Romaine (1995, p. 19), o termo língua materna muitas vezes tem sido usado por linguistas no sentido técnico, referindo-se à primeira língua aprendida ou à língua primária de um indivíduo. No entanto, trata-se antes de uma conotação popular. Muitos pesquisadores preferem termos como a primeira ou segunda língua ou a língua da comunidade (language community). Grupos étnicos, por exemplo, em muitos casos, têm-se definido como pertencentes a uma minoria linguística com base na língua materna. Outras definições de língua materna têm como referência a competência; ou seja, a língua materna é aquela língua que “melhor sabemos”. Em alguns casos, no entanto, determinados indivíduos possuem competência em duas línguas, de tal modo a admitirem a possibilidade de possuírem duas línguas maternas.
Enfim, podemos constatar que o conceito ‘língua materna’ carrega uma polissemia de sentidos. Historicamente, ela tem assumido uma ligação forte como ‘língua nacional’ e, na visão da linguística tradicional, como “a primeira língua aprendida no lar”. Altenhofen (2002) define o conceito de língua materna como segue:
“[...] como um conceito dinâmico que varia conforme um conjunto de traços relevantes que engloba, em uma situação normal, válida para um determinado momento da vida do falante, a) a primeira língua aprendida pelo falante, b) em alguns casos, simultaneamente com outra língua, com a qual c) compartilha usos e funções específicas, e) apresentando-se porém geralmente como a língua dominante, f) fortemente identificada com a língua da mãe e do pai, por isso, d) provida de um valor afetivo próprio” (ALTENHOFEN, 2002, p. 159).
Do mesmo modo, Skutnabb-Kangas (1988, p. 16), reúne para o conceito de ‘língua materna’ critérios que em grande parte se identificam com os de Altenhofen: a) ordem de aprendizagem; b) usos e funções; c) grau de proficiência; d) identidade; e) afetividade.
Considerando minha situação particular, como descendente de imigrantes menonitas russo-alemães, tive desde o meu nascimento contato com o Plautdietsch (uma variedade do baixo-alemão) e que é a língua que ainda falo com meus pais e irmãos e com diversos parentes que também vivem em comunidades menonitas. Através da igreja, tive o primeiro contato com o Hochdeutsch (alemão standard), pois, na época, todo ensinamento religioso na comunidade era realizado nesta língua, tanto os cânticos como a leitura bíblica, a pregação e a oração.
Ingressei na escola sabendo falar bem o Plautdietsch e um pouco de Hochdeutsch. Recordo que nem sempre conseguia falar tão bem o Hochdeutsch quanto aqueles colegas que eram monolíngues em Hochdeutsch. Como a língua usada no jardim de infância era predominantemente o Hochdeutsch, o meu vocabulário ampliou-se rapidamente, e eu me senti mais segura para falar este idioma. O primeiro contato com a língua portuguesa foi na pré-escola (aos cinco anos), onde fui alfabetizada simultaneamente em português e em Hochdeutsch. A partir daí, as três línguas sempre me acompanharam: o Plautdietsch para uso no contato com os familiares; o Hochdeutsch, na Igreja e na atuação profissional como professora de alemão; o português, nos estudos, amizades e demais contatos. Através da convivência com estas três línguas tive o privilégio de me tornar plurilíngue.
Cabe acrescentar que minha língua materna também se constitui em língua de imigração dos meus antepassados, visto que foi trazida pelos primeiros imigrantes de outro país. Segundo Oliveira (2003, p. 7), existem, no Brasil, por volta de 210 idiomas; sendo que, destes, 180 são línguas autóctones (faladas pelas nações indígenas) e 30 são línguas alóctones (faladas nas comunidades de descendentes de imigrantes). Dentre essas línguas alóctones, temos, no Brasil: o alemão,91 o italiano, o japonês, o árabe, o polonês, entre outras. Como língua de imigração, entendemos: aquela utilizada por um grupo de indivíduos que imigra para outras terras e possui uma língua que é diferente daquela do país anfitrião mesmo depois de várias gerações.
91 Sob esta designação, como das demais, subsomem diferentes variedades que podem, a seu termo, constituírem
Altenhofen e Margotti (2011, p. 2), em uma perspectiva político-linguística, definem línguas de imigração como “línguas92 1) originárias de fora do país (alóctones) que, no novo meio; 2) compartilham o status de língua minoritária”. A língua de imigração, em muitos casos, constitui-se em uma língua minoritária, levando em consideração que o grupo de falantes é relativamente pequeno e que tem pouco poder (político e econômico) em relação ao grupo majoritário com o qual está em contato.Kaufmann (2006) define língua minoritária
“[...] as a language (which might or might not exist in other parts of the world) of an ethnic group (indigenous or immigrant) whose speakers are in direct and frequent contact with a (normally) different ethnic group which is more numerous and more powerful and whose members speak a different language” (KAUFMANN, 2006, p. 2433).93
Ainda segundo Kaufmann (2006, p. 2433), uma comunidade minoritária pode ser definida a partir de duas vias: considerando o número de membros ou o poder que ela detém. A maioria das comunidades minoritárias, no entanto, não possui ambos: nem poder, nem habitantes suficientes, e correm grande risco de perder a sua língua. Numa visão sociolinguística, costuma- se afirmar que, em condições iguais, línguas de imigração desaparecem mais rapidamente que línguas indígenas, talvez pela atitude diferente por parte dos imigrantes. Estes não podem afirmar que sua língua é a língua original da região e, na maioria dos casos, têm a escolha de entrar em contato com um outro grupo e com outra língua voluntariamente. Por outro lado, imigrantes podem achar um suporte positivo da sua língua no país de origem.
Por muito tempo, as línguas de imigração faladas nas diferentes regiões do sul do Brasil eram conhecidas como variedades dialetais, submissas à língua oficial, e de pouca importância política, faladas por grupos minoritários; consequentemente também chamadas de línguas minoritárias. Esses juízos de valor depreciativos sobre as línguas minoritárias não fazem apenas parte da população em geral, mas também são encontrados entre os descendentes de imigrantes menonitas, falantes do Plautdietsch e do Hochdeutsch.
92 Em termos político-linguísticos, Altenhofen e Margotti falam de línguas e não de dialetos, a exemplo do que
observam Skuttnab-Kangas & Phillipson (1996, p. 667-675).
93 Tradução: “[...] como uma língua (que pode ou não existir em outras partes do mundo) de um grupo étnico
(indígena ou imigrante) cujos falantes estão em contato direto e frequente com um (normalmente) diferente grupo étnico que é mais numeroso e com mais poder, cujos membros falam uma linguagem diferente” (KAUFMANN, 2006, p. 2433).
2.1.3 Standard e substandard no contínuo linguístico
Para melhor caracterizarmos as variedades linguísticas usadas pelos menonitas no Brasil em standard e substandard, é imprescendível levar em conta, como acentua Lameli (2005, p. 495), que os estudos linguísticos internacionais dos últimos anos não mais restringem seu interesse apenas às variedades dialetais básicas (Dialekttiefe), mas sim ampliou-se, para abarcar todo o eixo entre o standard e o dialeto”, (Standard-Dialekt-Achse). Neste eixo entre o standard e o dialeto, o interesse linguístico focaliza-se tanto na estrutura, como também nos aspectos extralinguísticos respectivamentedas variedades standard e substandard.
A variedade substandard é compreendida por Lenz (2005, p. 229) como uma área na qual estão inseridas todas as variedades linguísticas que estão abaixo da variedade nomeada como standard, ou melhor, como língua-padrão. Diante dessa nova perspectiva, o “leque” das variedades substandard aumenta consideravelmente, pois inclui toda a área linguística que está acima dos dialetos básicos e que estão abaixo da variedade standard ou padrão. Tendo em vista essa nova estrutura da variedade substandard, Bellman (1983) propõe um modelo linguístico, na qual a variedade substandard faz parte de um “contínuo linguístico”. Este continuum sobre a estrutura da variedade substandard é representado por Bellmann (1983) da seguinte forma:
Standardsprechsprache (Língua-padrão)* S u Neuer Substandard b (novo Substandard)* s t a n d Basisdialekte a (Dialeto base)* r d * Tradução da pesquisadora desta tese
Quadro 1 - Estrutura do substandard de Bellmann (1983 apud LENZ, 2005, p. 231)
Levando em consideração o contexto linguístico dos menonitas, é inevitável falar somente da variedade standard ou da variedade substandard, uma vez que há uma coexistência
entre ambas as variedades. No presente estudo, a variedade standard ou a língua-padrão é equivalente ao “Hochdeutsch”; no entanto, trata-se de uma variedade standard local, ou seja, é equivalente ao alemão-padrão local, usado em situações formais na igreja, na escola, assim como também para a escrita. Para a leitura, a comunidade menonita baseia-se nas normas do alemão- padrão usado na Alemanha, conhecido também como neuhochdeutsche Standardsprache (nhd.). Na comunicação do dia-a-dia, muitas famílias menonitas ainda fazem uso da variedade substandard Plautdietsch, ou seja, usam o dialeto-base. Outras já adotaram a variedade Hochdeutsch, mesmo para falar com os seus familiares mais próximos. Todavia, ao levarmos em conta o modelo sobre o contínuo linguístico de Bellmann, esse Hochdeutsch falado pelos menonitas em situações informais, como nas famílias, deve antes ser considerado pertencente ao campo do novo substandard da língua alemã, ou seja, localizado na parte superior da área dialetal. Diante desse quadro linguístico complexo, verificamos que há uma coexistência do uso da variedade standard e substandard da língua alemã nas comunidades menonitas brasileiras. Consequentemente, propomos para o presente estudo abarcar ambas as variedades pertencentes ao contínuo linguístico: o standard e o substandard.
Adaptando o modelo do substandard para a realidade menonita brasileira, temos a seguinte representação gráfica:
Língua standard / padrão
neuhochdeutsche Standardsprache (nhd.) a) não encontrado na comunidade de fala menonita; b) usado na leitura;
Novo substandard
Hochdeutsch menonita a) usado em situações formais: na igreja e na escola; b) usado na escrita;
Hochdeutsch menonita
a) usado em situações informais: com familiares e amigos
Dialeto-base
Plautdietsch a) usado apenas em situações informais; b) pouco usado na leitura e na escrita;
Quadro 2 - Estrutura do substandard dos menonitas no Brasil
S u b s t a n d a r d