O ser humano se constitui a partir de sua atuação no mundo, das experiências que desenvolve em conjunto com os seus pares. Acerca desse particular, Luckesi (1992) compreende que a prática educativa em geral e aquela desenvolvida no âmbito escolar, em particular as práticas de aprendizagem e avaliação que aí se desenrolam, sistematicamente, podem auxiliar no desenvolvimento global do educando.
Nesse sentido, a educação é compreendida como um processo de aprendizagem que acontece no meio social, visto que é em contato com os seres que já apreenderam os padrões culturais que cada indivíduo se constitui enquanto sujeito singular. A educação é entendida, pois, como um processo pelo qual a cultura de uma sociedade é transmitida de geração em geração. Por meio da mediação de outros indivíduos, cada um recebe a herança social e cultural de sua sociedade e cria o seu próprio modo de pensar e agir.
Para Freire (1996), a educação está para além da simples transmissão de saberes, mas, a partir do que se aprende, cada um deve construir um conhecimento autêntico e uma consciência crítica, considerando a realidade em que vive. Nessa perspectiva, o ser humano deve ser capaz de modificar a sua realidade, visto que Freire (1983) compreendia que refletir sobre a educação é pensar sobre o ser humano e educar é gerar a capacidade de interpretar o mundo e agir com o intuito de transformá-lo.
Como parte das relações que se desenvolvem no meio social, a educação escolar consiste em uma forma de educação intencional e sistematizada. Esta pode colaborar para a democratização do saber construído pelos diversos grupos sociais, a partir da qual cada sujeito se torna um melhor partícipe da própria sociedade. Nesse caso, a escola desempenha uma função social, que, segundo Vieira (2001), compreende as atribuições que a instituição escolar cumpre em uma determinada sociedade, ao possibilitar a aquisição de saberes e valores, que colaboram para modelar comportamentos, gradativamente.
Nesse sentido, a escola, conforme Vieira (2001), constitui-se em um espaço importante para formar o aluno para a cidadania, mediante as diretrizes definidas nos quatro pilares básicos de aprendizagem, apresentados no Relatório de Delors, que são: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a conviver; aprender a ser. Ainda na visão da autora, a escola cumpre sua função social se for capaz de possibilitar que todos desenvolvam esses aprenderes.
O desenvolvimento da educação escolar não ocorre de forma isolada, mas de acordo com as necessidades sociais. Segundo Luckesi (1992), o trabalho escolar é influenciado pelas relações de produção, o que o leva a reproduzir as relações que servem à manutenção da estrutura econômica e política dominante. Conforme essa lógica, a educação escolar distancia-
se do ideal da transformação social, mas colabora para reproduzir a sociedade de classe. No entanto, na visão do autor, essa educação também gera, em seu interior, as condições para a sua própria negação, na medida em que ajuda na formação de um coletivo modificado, capaz de transformar a sociedade. Nesse sentido, o autor compreende a educação como um fenômeno social em movimento permanente, por meio da qual se transmite a herança cultural, que pode tanto servir para reproduzir a herança social e cultural como para transformá-la.
É por meio da aprendizagem que acontece o desenvolvimento intelectual tanto em uma direção como na outra. O processo de aprendizagem que ocorre no meio social, conforme Vygotsky (1984), fornece os instrumentos e símbolos que medeiam a relação do indivíduo com o mundo, que possibilitam o desenvolvimento dos mecanismos psicológicos e a compreensão das formas de agir nesse mundo. Essa consiste em uma visão dialética acerca do ensino-aprendizagem, pois o aprendizado é considerado como fundamental no processo de desenvolvimento das funções psicológicas superiores.
Os estudos de Vygotsky (1991) admitem que o desenvolvimento é sempre pré- requisito para que o aprendizado aconteça, pois, em seu entendimento, se as funções intelectuais, em especial da criança, não amadureceram a ponto de ela aprender um determinado assunto, então, esse ensinamento não terá proveito. Nessa concepção, o desenvolvimento e a maturação são compreendidos como pré-condição do aprendizado, e não o resultado deste.
Assim, entendemos que, de acordo com Vygotsky (1991), o desenvolvimento do ser humano depende do aprendizado que este adquiriu em suas interações com o grupo cultural. O aprendizado em geral e o escolar, em particular, estimulam os processos de desenvolvimento humano. A escola, por conseguinte, na perspectiva vygotskiana, consiste em um meio capaz de propiciar situações favoráveis à formação e à ampliação de conceitos e do conhecimento sistemático. Para tanto, é necessário desafiar, estimular e possibilitar o desenvolvimento intelectual do aluno. Nessa visão do processo de ensino-aprendizagem, o pensamento conceitual depende dos seguintes fatores para obter bom êxito: esforço individual e contexto em que o indivíduo está inserido.
Ensino e aprendizagem constituem-se como partes de processos complementares. Na escola, a aprendizagem é antecedida pelo processo de ensino, que, para Rabelo (2009), constitui-se em ação sistemática que envolve a realização de atividades de instrução para a apropriação do conhecimento. A tarefa principal do ensino é garantir a aprendizagem e, na escola, ela cabe ao professor, que deve ser capaz de organizar o processo de ensino de forma significativa para o educando. Nesse particular, Castro e Carvalho (2001) consideram que
ensinar é ter presente os elementos que constituem a prática do ensino, visto que o professor deve estar atento aos fatores que constituem o ato de ensinar para que, de fato, a aprendizagem aconteça.
Como parte do processo de ensino-aprendizagem, a avaliação cumpre tarefa importante na orientação desse processo. Avaliar, assim como ensinar, consiste em um procedimento político. Para que cumpra esse papel, Rabelo (2009) explica que é necessário que o conhecimento sirva de instrumento, pois é impossível exercer a cidadania sem articular e conceber o conhecimento, oportunizando o desenvolvimento nas escolas do saber pensar e do aprender a aprender.
De acordo com essa compreensão, será apresentado no próximo tópico o enfoque acerca da trajetória histórica da avaliação da aprendizagem, bem como as concepções, funções e tipos de avaliação da aprendizagem, difundidas historicamente nas escolas e na atual política brasileira de educação.