2. REVISÃO DA LITERATURA
2.4. ASPECTOS TÉCNICOS DA ESCALADA
2.4.2. Tipos de escalada
Em geral, o termo “escalada” refere-se a um vasto campo de actividades, todas elas relacionadas com ascensão vertical em superfícies que podem ser rocha natural, gelo, neve ou estrutura artificial (madeira ou resina). Normalmente, ao termo “escalada” adiciona-se uma palavra para fazer referência específica do tipo de escalada, por exemplo “escalada em rocha”. Apesar de partilharem a mesma característica, a ascensão vertical, as habilidades e o equipamento são bem diferentes nos vários tipos de escalada.
A escalada em rocha pode-se subdividir em dois tipos: a escalada “livre” e a escalada “artificial”. Entende-se por escalada livre a escalada realizada em progressão sem a utilização de ajudas artificiais que só serão utilizados como meios de segurança. Em contraposição, a escalada artificial envolve meios de progressão que recorrem ao uso de material que é aplicado na parede (Navarrete, 2002); considera-se artificial toda a escalada que utiliza para progredir, e não somente para assegurar, meios artificiais como pitões, entaladores ou seguros de expansão14, entre outros. A história
da escalada artificial é comum à história do alpinismo porque muitas das ascensões realizadas nos séculos XIX e XX foram realizadas com a utilização de meios artificiais (Navarrete, 2002).
No início do século XX o objectivo primordial era chegar ao cume, independentemente de como se fazia. Desde então até aos nossos dias têm havido defensores e detractores das técnicas
14 E n t a l a d o r e s c l á s s i c o s d o t i p o “ f r i e n d ” , u t i l i z a d o e m f i s s u r a s , c o n s i s t i n d o n u m s i s t e m a m e c â n i c o d e v á r i a s p e ç a s m ó v e i s r e t r á c t e i s .
artificiais. Nomes como Hans Dülfer e Tita Piaz defendiam o uso de qualquer material para poder chegar ao cume. Só Paul Preuss era, naquela época, dos poucos que se opunha à utilização destes métodos (Navarrete, 2002).
No entanto, ambos os tipos de escalada, a “livre” e a “artificial,” eram utilizadas pelos montanhistas e escaladores nas conquistas pelas paredes e cumes.
Considera-se que foi pela mão de Tita Piaz, em 1906, que nasce a escalada artificial, sendo o primeiro a usar meios artificiais numa ascensão ao Campanile Toro (Dolomitas, Itália). Todavia, a técnica da escalada artificial não foi do agrado de um grande número de escaladores, que defendiam a escalada livre como sendo a mais “pura”, pelo que em 1947, em Chamonix, decorreu uma reunião internacional de escaladores decidindo-se a separação das escalas de graduação de dificuldade em “artificial” (A1, A2, A3) e “livre” (Iº a VIº grau) (Navarrete, 2002).
Com o surgimento do estilo de escalada “rotpunkt”15 este tipo de
escalada técnica passou para segundo plano. Hoje em dia o que está generalizado é a escalada em “livre”, utilizando as ancoragens só para o asseguramento. Ainda que a escalada artificial tenha o seu lugar demarcado com adeptos e leais seguidores, o usual é encontrar-se passos de artificial em vias de escalada clássica. Contudo um escalador nunca poderá renegar por completo as técnicas de escalada artificial por várias razões; por exemplo, um agravamento meteorológico durante uma escalada poderá obrigar o recurso a essas técnicas para abandono.
Quanto à escalada “livre”, esta pode subdividir-se em três modalidades com bastantes similitudes e algumas diferenças (Stûckel
15 E s t e e s t i l o d e e s c a l a d a s e r á d e s c r i t o n o p o n t o r e l a t i v o a o s e s t i l o s d e e s c a l a d a .
e Sojer, 1996): a Escalada “Clássica”, o Big Wall e a Escalada
Desportiva. A Escalada “Clássica” consiste em superar paredes
rochosas de longitude variada – em geral mais de 100 metros - normalmente sem meios auxiliares de progressão16. À medida que vai progredindo, o escalador vai escolhendo e colocando os seus pontos intermédios de segurança. Este tipo de escalada apela ao espírito de descoberta e à capacidade de improvisação técnica do escalador, pois cabe a ele “construir” a sua própria progressão aferindo os pontos intermédios de segurança. O Big-Wall trata-se de escalada clássica realizada em grandes paredes, de extrema verticalidade e dificuldade. Neste tipo de escalada a ascensão pode demorar vários dias, havendo recurso a sofisticadas técnicas. O Big Wall nasceu no Vale Californiano de Yosemite e não há regra quanto à sua definição. Literalmente significa “grande parede”, considerando-se acima dos 500 metros de altura. As escaladas em Big W all não têm que ser escaladas com técnica artificial. Existem itinerários de Big W all realizados com o estilo “rotpunkt” (Navarrete, 2002). A Escalada
Desportiva pode ser considerada como uma variante da escalada livre
na qual o objectivo de escalar é a dificuldade, ficando de parte a ideia de ascensão a uma montanha (Navarrete, 2002); é a evolução lógica do «Free-Climbing» (escalada livre de alta dificuldade) para uma actividade mais segura e competitiva. O elemento “perigo”, bastante acentuado na escalada clássica, é reduzido na escalada desportiva pela pré-colocação de pontos de protecção na rocha ou em parede artificial. Devido à eliminação desse elemento (perigo), a dificuldade em termos físicos e técnicos pode ser elevada. De igual modo o factor “descoberta” é relegado para segundo plano, pois ao serem previamente colocados pontos de protecção ao longo da
16 E v e n t u a l m e n t e , e m p a s s o s d e e l e v a d o s g r a u s d e d i f i c u l d a d e , p o d e m s e r u t i l i z a d a s t é c n i c a s d e e s c a l a d a a r t i f i c i a l .
parede, a rota que vai ser feita pelo escalador fica semi-definida. Na escalada desportiva o escalador sente-se com maior segurança, logo mais confiante para tentar passos muito arrojados, com grande grau de dificuldade, como por exemplo vencer tectos e extraprumos17. A escalada desportiva exige por isso ao escalador uma superação diferente de si próprio, solicitando muita destreza no uso do corpo. As quedas são comuns e de uma relativa segurança (Sheel, 2004).
Ainda podemos falar de um outro tipo de escalada - a escalada em Top Rope - que se define basicamente por “escalar com segurança por cima”: o escalador está “encordado” numa corda de segurança que passa no topo da via a escalar. Este tipo de escalada é extremamente seguro sendo o risco de escalar minimizado e geralmente é utilizado em situações de aprendizagem.
A escalada nasceu com o montanhismo mas separou-se dele, originando modalidades que por sua vez de distanciam da escalada. É o caso do Boulder18 que se pode definir como um tipo de “escalada”
realizada a pouca altura, sem a utilização de meios de asseguramento (Sherman, 1998). Esta actividade nasceu no bosque de Fontainebleau, próximo de Paris, e era usada como exercício de treino para montanhistas/escaladores. O Boulder é a essência da escalada desportiva, em que se joga sem medo com a dificuldade, podendo assim chegar ao limite das possibilidades (Arocena, 1997).