1. Direitos da personalidade 4
1.8. Titularidade dos direitos da personalidade 34
Conforme examinado, a personalidade é um atributo do ser humano. Os direitos da personalidade nascem com a pessoa e a acompanham por toda a sua existência132. Logo, por tudo que foi mencionado, parece óbvio que o principal titular dos direitos da personalidade é o ser humano, a pessoa natural. No entanto, não podem ser desprezadas as figuras do nascituro, da pessoa já falecida e também No mesmo sentido, Francisco Amaral. Direito, cit., p. 295.
Carlos Alberto Bittar (Os direitos, cit., p. 115) também classifica os direitos da personalidade em três grupos, mas fez uma pequena alteração e os divide em direitos físicos, psíquicos e morais. 130
Silmara Juny de Abreu Chinellato, Código Civil interpretado, cit., p. 68. 131
Sobre a classificação de direitos da personalidade de caráter moral. Carlos Alberto Bittar, Os direitos, cit., p. 115.
132
da pessoa jurídica.
O nascituro tem os seus direitos assegurados, nos termos do artigo 2º do Código Civil, o que não implica em que ele tenha personalidade jurídica, mas admite a expectativa de seu nascimento com vida. Assim, o nascituro também é considerado titular dos direitos da personalidade. E mais, é possível afirmar que há direito da personalidade desde a concepção, seja natural ou até mesmo a assistida, em razão do primado direito à vida133.
Cabe destacar também que alguns direitos da personalidade podem ultrapassar a vida da pessoa natural, pois a pessoa já falecida ainda mantém alguns destes direitos. É o que acontece com o direito ao corpo, à imagem, à honra e o direito moral do autor. São os chamados direitos da personalidade post mortem134.
Com relação à pessoa jurídica, é importante observar que a doutrina há muito tempo já admite a atribuição de alguns dos direitos da personalidade a ela – outros são compatíveis apenas com as pessoas naturais, tais como a vida, a integridade física e o corpo. O Código Civil brasileiro, em seu artigo 52, previu a aplicação dos direitos da personalidade, no que couber, às pessoas jurídicas135, tais como o direito ao nome, à imagem ou à honra.
Veremos oportunamente que o direito ao esquecimento pode ser atribuído também às pessoas jurídicas.
133
Francisco Amaral, Direito, cit., p. 287. 134
Francisco Amaral, Direito, cit., p. 287. 135
Segundo Sílvio de Salvo Venosa (Código Civil interpretado, São Paulo: Atlas, 2010, p. 24), a equiparação feita pelo artigo 52 do Código Civil deve ser analisada apenas sob o prisma indenizatório, uma vez que "a pureza dos direitos da personalidade não se adapta a quem não é pessoa natural".
2. Relação dos direitos da personalidade, previstos na Constituição Federal de 1988, com o direito ao esquecimento.
A Constituição Federal de 1988 tem como um de seus princípios basilares a dignidade da pessoa humana, prestigiada em seu art. 1º, III:
"A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
(...)
III - a dignidade da pessoa humana; (...)".
Logo, percebe-se que o respeito à dignidade da pessoa humana está atrelado ao Estado Democrático de Direito.
Conceituar a dignidade da pessoa humana136 é tarefa por demais árdua. De acordo com Ingo Wolfgang Sarlet137, trata-se de um conceito em constante reconstrução. Afirma o autor que a dignidade é:
"(...) a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além
136
Na lição de Luís Roberto Barroso (A dignidade, cit., p. 72), a dignidade da pessoa humana é consenso ético existencial no mundo ocidental, sendo o seu significado intuitivo. Para expressá- la, traçou uma definição minimalista com as seguintes características: "o valor intrínseco de todos os seres humanos; a autonomia de cada indivíduo; e, limitada por algumas restrições legítimas impostas a ela em nome de valores sociais ou interesses estatais".
Flavia Piovesan (Temas, cit., p. 548) sintetiza, afirmando que a dignidade da pessoa humana é um legítimo "superprincípio" constitucional, e conferindo-lhe racionalidade, unidade e sentido. Francisco Amaral (Direito, cit., p. 287) entende que o princípio da dignidade da pessoa humana é um marco jurídico no sistema brasileiro dos direitos da personalidade e é a sua base legítima. 137
Ingo Wolfgang Sarlet, Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988, 9ª ed., Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012, p. 73.
de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos, mediante o devido respeito aos demais seres que integram a rede da vida".
A dignidade da pessoa humana é o reconhecimento do indivíduo no limite e fundamento do domínio político da República, que ganha força após experiências históricas de opressão ao ser humano, como a inquisição, a escravidão, o nazismo, genocídios étnicos, entre outros, conforme preceitua José Joaquim Gomes Canotilho138.
Se a dignidade da pessoa humana está atrelada ao Estado Democrático de Direito, então também podemos afirmar que é no âmbito deste que os direitos da personalidade encontram sua real dimensão, ainda que tenham sido previstos em alguns diplomas legais ou constitucionais autoritários139.
Percebe-se que em todos os posicionamentos citados acima há uma relação com os direitos fundamentais, razão pela qual se pode afirmar que os direitos da personalidade previstos na Constituição Federal estão intimamente conectados com a dignidade da pessoa humana140.
A dignidade da pessoa humana é o fundamento dos direitos da personalidade e implica na atribuição de diversos direitos a cada homem, e estes direitos devem representar um mínimo e um máximo, na medida em que desenvolvam a sua personalidade e também pela intensidade da tutela que
138
José Joaquim Gomes Canotilho, Direito, cit., p. 225. 139
Antonio Carlos Morato (Quadro geral, cit., p. 141) menciona que é muito conhecida a passagem em que Adriano de Cupis dedicou sua obra Direitos da Personalidade a Mussolini para que ela não fosse censurada.
140
Para Luís Roberto Barroso (A dignidade, cit., p. 64), a dignidade da pessoa humana funciona como justificativa moral e como fundamento jurídico-normativo dos direitos fundamentais. Segundo Ingo Wolfgang Sarlet (Dignidade, cit., p. 80), a dignidade da pessoa humana, fundamento do estado democrático de direito, foi embasada no direito natural, mas de qualquer forma dotada de total eficácia normativa.
recebem141.
Neste mesmo sentido, podemos afirmar que a dignidade da pessoa humana possui valor universal, em razão da afirmação histórica dos direitos humanos142. Ou, conforme a lição de Maria Helena Diniz143, "os direitos humanos, decorrentes da condição humana e das necessidades fundamentais de toda pessoa humana, referem-se à preservação da integridade e da dignidade dos seres humanos e à plena realização de sua personalidade".
Assim, é possível concluir que os direitos da personalidade são a concretização da dignidade da pessoa humana e podem ser reconduzidos a tanto, uma vez que têm origem na ideia de proteção das pessoas144.
Serão destacados, a seguir, alguns direitos da personalidade positivados na Constituição Federal de 1988, além de outros direitos fundamentais que se relacionam com o direito ao esquecimento.