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Brown e Levinson publicaram, em 1987, uma revisão de Politeness, obra

que data originalmente de 1978. Nessa nova edição, os pesquisadores apontam

influências sofridas pela interpretação de enunciados advindas da TR – esta última

publicada por Sperber e Wilson em 1986. Brown e Levinson indicam que “a

proposição que expressamos por um enunciado é determinada apenas

parcialmente pelo que é "dito": são necessários os princípios pragmáticos, por

exemplo, para fixar a referência de expressões referenciais”

94

. (BROWN;

LEVINSON, 1987, p. 49).

Sperber e Wilson ponderam que, apesar de a linguagem ser constituída

por um código linguístico, grande parte dela é composta por ostensão e

inferenciação. Assim, Sperber e Wilson, citados por Christie (2007, p. 287), indicam

que “as escolhas linguísticas que o falante faz nunca podem realmente codificar as

informações que um falante pretende transmitir”

95

. Com isso, compreendemos que

o papel do ouvinte durante o ato comunicacional não é apenas o de fazer a

decodificação do significado do enunciado, mas sim o de inferir qual foi a intenção

comunicativa pretendida pelo falante.

A TR desenvolveu uma explicação a respeito do caminho inferencial

percorrido pelo ouvinte para que ele obtenha o significado de um enunciado que

escutou. Para Christie (2007, p. 288), “um ouvinte tirará inferências sobre as

intenções do falante ao mesmo tempo em que está fazendo inferências sobre o

que ela está explicitamente transmitindo”

96

. Para ilustrar esse caminho inferencial,

apresentamos um diálogo de Wilson e Sperber (2002, p. 262):

A: Peter: O John pagou o dinheiro que ele lhe devia?

94 “the proposition we express by an utterance is itself determined only very partially by what is ‘said’: it takes pragmatic principles, for example, to fix the reference of referring expressions”. (BROWN; LEVINSON, 1987, p. 49).

95 “the linguistic choices a speaker makes can never actually encode the information that a speaker

intends her utterance to convey”. (CHRISTIE, 2007, p. 287).

96 “a hearer will draw inferences about the speaker’s intentions at the same time as he is making inferences about what she is explicitly conveying”. (CHRISTIE, 2007, p. 288).

B: Mary: Não. Ele esqueceu de ir ao banco.

97

A fim de compreender o que Mary o informa, Peter deve fazer um caminho

formado por inferências, por meio do qual criará hipóteses a respeito de

explicaturas, que são, de acordo com Wilson e Sperber (2002, p. 260), “proposição

comunicada coberta por uma combinação de decodificação e inferência” e

implicaturas advindas do enunciado dito por Mary.

Primeiramente, Peter deve decodificar a forma lógica do enunciado

proferido por Mary, que é a descrição de seu comportamento ostensivo. Em

segundo lugar, existe a expectativa do que foi proferido em B seja relevante para

Peter. A terceira etapa consiste no fato de o enunciado de Mary atingir uma

relevância ótima, o que ocorrerá se for capaz de responder ao questionamento

feito por Peter, que quer saber qual o motivo de John não ter quitado a dívida.

O quarto passo é composto pela primeira pressuposição feita por Peter,

que indica que o fato de John ter esquecido de ir ao banco o torna incapaz de

quitar sua pendência financeira com Mary. Tal pressuposição feita por Peter é uma

premissa implicada pelo enunciado dito por Mary, que é capaz de satisfazer a

expectativa de relevância mencionada na terceira etapa.

Em quinto lugar, existem processos de enriquecimento, como aqueles de

ordem léxico-pragmática, por exemplo, como os denominados de estreitamento e

afrouxamento. Na conversação em questão, esses processos ajudariam a

compreensão de que o pronome “ele” refere-se a John e também promoveriam a

desambiguação do item lexical “banco”. Aqui, compreendemos esse item como

uma instituição financeira cujos clientes são indivíduos e não grandes corporações

ou países. Wilson e Sperber (2002) citam ainda que é descartado o significado de

“banco” como o fundo de um rio. Adicionamos ainda que, na língua portuguesa,

exclui-se também o significado de “banco” como um item de mobiliário em que se

senta.

97 A: Peter: Did John pay back the money he owed you?

O sexto passo é a inferência advinda dos itens quatro e cinco: John não é

capaz de pagar o montante de dinheiro que deve para Mary porque se esqueceu

de ir ao banco. Por meio dessa inferência, o item três do passo a passo é

satisfeito, com base em uma conclusão implícita do enunciado B. Por fim, há uma

implicatura advinda do background: John só será capaz de pagar Mary quando for

ao banco num momento futuro. Assim, o processo faz uso de um grande trabalho

inferencial para que a relevância ótima seja atingida a fim de que a compreensão

do enunciado ocorra.

Wilson e Sperber (2002) ainda clarificam as diferenças entre explicaturas e

implicaturas. As primeiras resultam de hipóteses feitas com base no conteúdo que

está explícito do enunciado. Já as segundas são as hipóteses a respeito das

explicaturas aliadas às pressuposições contextuais que fazem com que o ouvinte

interprete o enunciado como relevante. Uma explicatura é medida em relação ao

seu nível de explicitação. Quanto menos precisar de dados contextuais, mais

explicita ela é e vice-versa.

A TR auxilia também na compreensão de que algo é comunicado de

maneira forte ou fraca, com base em explicaturas ou implicaturas, dependendo do

uso do contexto. Para Wilson e Sperber (2002, p. 258), a compreensão é composta

dos itens listados na sequência, chamados de subtarefas, que não

necessariamente ocorrem em ordem:

a) Construir uma hipótese apropriada sobre o conteúdo explícito (em termos relevantistas, EXPLICATURAS) via decodificação, desambiguação, resolução de referência e outros processos de enriquecimento pragmático.

b) Construir uma hipótese apropriada sobre os pressupostos contextuais pretendidos (em termos relevantistas, PREMISSAS IMPLICADAS).

c) Construir uma hipótese apropriada sobre as implicações contextuais pretendidas (em termos relevantistas, CONCLUSÕES IMPLICADAS)

98. (WILSON; SPERBER, 2002, p. 258).

Blakemore (2002, p. 3-4) diferencia ainda os significados processual e

conceitual. O primeiro ocorre quando uma expressão linguística codifica uma

restrição sobre inferências pragmáticas. Já o último se dá quando a expressão

linguística codifica um constituinte das representações conceituais que entram em

inferências pragmáticas. Para Christie (2007, p. 290), essa diferenciação é

bastante considerável nas análises de polidez. Ela cita o exemplo em um contexto

em que um professor responde ao questionamento de um aluno com a sentença

“You’ve got that wrong, I think”, que traduzimos para o português como “você

entendeu errado, eu acho”. Aqui, o “eu acho” pode ter um significado conceitual,

caso o professor não tenha plena convicção de que o estudante está errado; ou

ainda processual, em que o falante tem a percepção de que o aluno se equivocou,

mas não quer ferir a face do pupilo.