2 O OBJETO DE ESTUDO: ASPECTOS TEÓRICOS
2.3 Discutindo os Conceitos de Complexidade, Transdisciplinaridade e
2.3.2 Transdisciplinaridade
O mundo da Ciência e o mundo acadêmico, em pleno século XXI, são o mundo das disciplinas. O avanço da Ciência e o progresso tecnológico deste século foram devidos em boa parte à verdadeira explosão da pesquisa interdisciplinar.
A complexificação dos problemas tornou necessária a aproximação e associação gradual das disciplinas em diferentes graus, do mais simples, o da multidisciplinaridade, ao mais completo, o da transdisciplinaridade.
Convém definir os referidos termos, pois, conforme alguns autores podem ser quatro até seis os níveis no espectro, que vai da disciplina até a transdisciplinaridade. Nesse sentido, faz-se necessário descrever explicativamente os termos disciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade.
No que se refere à disciplina, cabe salientar que ela se constitui num corpo específico de conhecimento ensinável, com seus próprios antecedentes de educação, capacitação, procedimentos, métodos e áreas de conhecimento. Segundo Piaget,3 a multidisciplinaridade ocorre quando a solução de um problema torna necessário obter informação de duas ou mais Ciências ou setores do conhecimento sem que as disciplinas envolvidas no processo sejam elas mesmas modificadas ou enriquecidas.
2.3.3 Interdisciplinaridade
A interdisciplinaridade advoga, para si, a intencionalidade de reunião de conhecimentos, onde a troca de informações é necessária e relevante para a produção do conhecimento. Não se espera uma profunda mudança, uma revolução de paradigmas, mas sim um trafegar tranqüilo, paulatino e constante. Hoje o professor deve entender
que sua disciplina não é, isolada, a mais importante. Deve, pelo contrário, pressupor que as disciplinas são formativas em seu conjunto, que a epistemologia flui na interlinearidade.
Toda e qualquer disciplina, em algum momento, relaciona-se com outra. O professor deverá estar aberto para esse entendimento, para que mostre as correlações existentes na construção do conhecimento. Essa complementaridade, esse alicerce é proposto dentro da interdisciplinaridade, e trabalhar com essas possibilidades é um verdadeiro desafio.
Ao fixar-se com atenção, para os conteúdos da disciplina de Matemática no contexto da Educação Ambiental crítica, enxergar-se-á mesmo nas entrelinhas uma relação entre elas, que abre a possibilidade para um trabalho em conjunto. Reformulando-se os conteúdos dos cursos de Ensino Médio, por exemplo, há possibilidades de inter-relação de conhecimentos, cristalinamente as possibilidades de trabalhos grupais, sem deformar uma ou outra disciplina. Entende-se perfeitamente que as possibilidades do trabalho em equipe estão abertas para incursões. Consagrar a prática da interdisciplinaridade é uma tarefa das mais elevadas nas instituições de ensino, nos tempos atuais.
Existem temas que convergem entre as disciplinas e cada professor deve trabalhar, com clareza, tais abordagens. Fatos convergentes devem ser discutidos e esclarecidos, criando, na interdisciplinaridade, a formação generalista com qualidade. Não se deve subtrair as responsabilidades nas disciplinas. Cada professor deve ser conhecedor do seu assunto com profundidade, e a possibilidade das interações não dará lugar a devaneios no fazer pedagógico.
A interdisciplinaridade deve ser reservada para designar “o nível em que a interação entre várias disciplinas ou setores heterogêneos de uma mesma ciência conduz a interações reais, a certa reciprocidade no intercâmbio levando a um enriquecimento mútuo”. Leff (1998, p. 302).
A interdisciplinaridade implica assim um processo de inter-relação de processos, conhecimentos e práticas que transborda e transcende o campo da pesquisa e do ensino no que se refere estritamente às disciplinas científicas e a suas possíveis articulações.
Dessa maneira, o termo interdisciplinaridade vem sendo usado como sinônimo e metáfora de toda interconexão e colaboração entre diversos campos do conhecimento dentro de projetos que envolvem tanto as diferentes disciplinas acadêmicas como as práticas não científicas que incluem as instituições e atores sociais diversos.
Nesse contexto, a noção de interdisciplinaridade se aplica tanto a uma prática multidisciplinar (colaboração de profissionais com diferentes formações disciplinares), assim como ao diálogo de saberes que funciona em suas práticas.
De algum modo, a interdisciplinariadade e a trandisciplinaridade implicam diversas disciplinas, formas e modalidades de trabalho, que não se esgotam em uma relação entre disciplinas científicas, por sinal campo que originalmente requer a interdisciplinaridade para enfrentar o fracionamento e a especialização do conhecimento.
Essas considerações colocam a necessidade de voltar a uma reflexão crítica sobre os marcos conceituais e as bases epistemológicas que podem impulsionar uma prática da interdisciplinaridade mais aprofundada e fundamentada em seus princípios teóricos e metodológicos, orientada ao manejo, gestão e apropriação dos recursos ambientais.
O conceito de transdisciplinaridade envolve não apenas as interações ou reciprocidade entre projetos especializados de pesquisa, mas a colocação dessas relações dentro de um sistema total, sem quaisquer limites rígidos entre as disciplinas.
Há quase três décadas, Morin (1990, p. 86) considerou que a transdisciplinaridade ainda era um sonho. Todavia, ela é hoje uma realidade em construção aliada à complexidade, mas ainda a “passos lentos”.
Há três características essenciais da atitude transdisciplinar: o rigor, a abertura e a tolerância, possibilitando a perspectiva metodológica. O rigor significa o uso da linguagem como principal elemento mediador da dialógica do transdisciplinar, dando qualidade à relação entre os sujeitos e seus contextos. A abertura diz respeito à possibilidade do inesperado na construção do conhecimento advindo das zonas de resistência entre sujeito e objeto. A tolerância significa o reconhecimento das posições contrárias, que podem avançar ou não no campo epigênico das idéias.
O futuro, do ponto de vista transdisciplinar, não está determinado nem construído a
priori. Há que se decidir pelo futuro no presente. O avanço da pesquisa disciplinar
reforça a necessidade de estudo da complexidade.
Como diz Nicolescu (1996, p. 58), “a complexidade se nutre da explosão da pesquisa disciplinar e, por sua vez, a complexidade determina a aceleração da multiplicação das disciplinas”. O mesmo autor evidencia que a transdisciplinaridade é muitas vezes confundida com a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade, uma vez que as duas primeiras continuam inscritas no quadro da pesquisa disciplinar. O autor afirma que “a transdisciplinaridade, como o prefixo trans indica, lida com o que está ao
Sua finalidade é a compreensão do mundo atual, para o que um dos imperativos é a unidade do conhecimento”. Nicolescu (1996, p. 60), afirma ainda que “mesmo reconhecendo o caráter radicalmente distinto da transdisciplinaridade, com relação à disciplinaridade, multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, seria extremamente perigoso tomar a diferença em forma absoluta, pois desse modo a transdisciplinaridade seria esvaziada de todo o seu conteúdo. Sua eficácia, como instrumento de ação, seria reduzida a nada”.
Uma outra abordagem que vem ao encontro da transdisciplinaridade é o pensamento complexo, como forma de buscar a unidade na diversidade do conhecimento.