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Transformações recentes no setor de comunicação

A partir da década de 1990 já foi possível observar um processo de transformação que lançou as sementes de um novo padrão de organização no setor de comunicação.

Trata-se de um momento que envolve não só a chegada de novas tecnologias, como as de TV por assinatura, mas também o ingresso de outros agentes, em grande parte não advindos da área comunicacional (capitais de ramos industriais tradicionais e financeiros, preferencialmente), que passam a investir em mídia, não raro em busca de resultados rápidos, o que nem sempre se concretiza (BRITTOS, 2005, p. 68)

Se o mercado de TV aberta saiu relativamente “intocado” por essas modificações mais profundas por um longo tempo, a Globo e a RBS, por outro lado, se imbricaram diretamente no processo. Associando-se com representantes do capital monopolista internacional de comunicação como a Televisa, do mexicano Azcárraga, a News Corporation, do australiano Rupert Murdoch, e a TCI, corporação americana de TV à cabo, criaram um serviço de TV por assinatura para transmissão Direct-To-Home (DTH), a SKY. A Globo associou-se ainda com o milionário mexicano Carlos Slim na gestão da Net, serviço de distribuição de TV à cabo.

Outra novidade foi a separação desde 1997 no plano regulatório do que se definiu como telecomunicações de um lado e comunicação de massa de outro, até então sujeitos aos mesmos instrumentos legais. A nova legislação veio no mesmo pacote da privatização das empresas de telefonia que eram monopólio do Estado e que foi efetivada pelo governo FHC, assim como acompanhada de um novo instrumento regulador que é a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Empresas como a Globo e a RBS se envolveram no processo de privatização, buscando crescer no mercado de telefonia (BOLAÑO; MASSAE, 2000), embora não tenham conseguido se colocar no patamar do grande oligopólio do setor.

É compreensível, então, que (além de por motivos mais gerais da burguesia brasileira já considerados anteriormente) algumas empresas de comunicação encampem na década de 1990 o discurso do neoliberalismo, haja vista se verem beneficiadas com a privatização do setor de telecomunicações, com a abertura ao capital estrangeiro do setor de TV por assinatura e com a não-regulamentação do mercado de TV aberta. Porém, com a virada do milênio, a pressão do capital estrangeiro pela ampliação legal do seu espaço para investimento em comunicação vai aparecer como uma ameaça ao capital nacional que oligopoliza o setor. Isso vai se tornar patente nas disputas pela definição de um padrão de exploração da tecnologia de TV digital, nas disputas da ABERT com empresas estrangeiras de internet que produzem conteúdo jornalístico e com a alteração do artigo 220 da Constituição, que permitiu a abertura do setor de comunicação para o capital estrangeiro. Além de outros agentes passarem a participar da disputa pelo mercado de comunicação, as transformações apontam também para uma reestruturação do setor, com uma

modificação no peso relativo das frações de capital componentes desse mercado, inclusive com alterações na estrutura de administração e diluição da propriedade nas mãos de sociedades anônimas, fundos de pensão e instituições financeiras69

Até mesmo a representação dos empresários de comunicação vem se alterando nos últimos anos. Além do destaque que já foi dado aqui ao papel da profissionalização desse serviço é possível perceber a divergência de interesses (de projetos?) no meio empresarial, como a que gerou a saída do SBT, Record e Bandeirantes da ABERT em fevereiro de 2002 para fundar uma nova entidade (a UneTV) ou a que fez com que todas as grandes televisões se retirassem da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), permanecendo apenas a Bandeirantes e a Rede TV.

Surgiram ainda no período novos concorrentes, alguns com bastante força, no mercado de TV aberta, como as igrejas, destacando-se a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que conseguiu alçar-se à posição de segunda emissora nacional no mercado com a TV Record. A iniciativa do governo Lula de estruturar uma Empresa Brasileira de Comunicação também aparece como um componente importante, rompendo com um histórico absenteísmo do Estado nesse setor e com os princípios do neoliberalismo que vetaram a participação do Estado como agente empresarial participante direto no setor produtivo (o que amaeça fazer atualmente também com a internet, por meio da Telebrás). Tudo isso contribui para o abalo das barreiras à entrada estabelecidas pelo oligopólio que perdura no mercado brasileiro de televisão.

A efetivação do Conselho Nacional de Comunicação, a criação de uma Confecom e a tentativa de implementar um Conselho Federal de Jornalismo nos últimos oito anos demonstram uma tentativa de mudança na postura do Estado em relação às forças sociais que prevaleceu durante os anos 90, com a ampliação dos agentes da sociedade civil que participam da regulação das políticas de comunicação. No entanto, a criação de uma Agência Nacional de Cinema (Ancine) (ainda durante a vigência do governo FHC) e a tentativa de criar uma Agência Nacional de Audiovisual (Ancinav) (já durante o governo Lula) expressam a consolidação de alguns padrões de regulação que se estabeleceram nos marcos das políticas neoliberais, em que o Estado concebe um órgão autárquico-burocrático para regular determinado setor, um tipo de “desestatização do Estado” (ainda que não haja nesses casos “privatização” no sentido estrito do

69 A Oi Telemar, por exemplo, que tem interesse em maior abertura do mercado possui em seu quadro acionário

termo), afastando a função reguladora do Poder Executivo sem significar em contrapartida alguma democratização. Mesmo que a criação desses órgãos traga algumas contradições em relação ao corolário neoliberal (como a taxação do mercado para financiar o seu funcionamento), nesses mesmos pontos em que poderiam expressar contradição são reincorporados como fortalecimento da política (no caso da Anatel, por exemplo, os fundos criados para financiar as suas atividades são utilizados não mais que para o incremento da política de superavit primário que financia a dívida internacional do Estado junto aos bancos, enquanto a sua função fiscalizadora não se cumpre).

Esses desafios se apresentam aos fundadores de algumas empresas de comunicação, mas também às novas gerações, seus herdeiros, que com a morte de figuras importantes (como Roberto Marinho, Antônio Carlos Magalhães) precisam dar novas respostas a novos problemas. Para se saber quem é o empresário de comunicação no Brasil hoje e como ele tem se inserido nos processos sociais em andamento é preciso articular uma série de fatores, passando pela propriedade, padrão de gestão, dominação, (re)produção de valores e (re)configuração do capitalismo no Brasil, o que buscamos fazer aqui, percebendo a comunicação como uma das dimensões fundamentais da práxis em uma sociedade em que o capitalismo tomou conta do espaço de produção cultural.

CAPÍTULO 4–EMERGÊNCIA DE UMA FRAÇÃO DE CLASSE

A forma como se consolidou a indústria cultural no Brasil durante e após a Ditadura Militar demonstrou bastante solidez, com uma distribuição bastante estável das posições das grandes empresas de radiodifusão nos mercados nacional e locais. Consideramos que boa parte das mudanças de posições dos atores ocorridas no período fazem parte ainda dos últimos resquícios do processo de superação do “antigo modelo” de se fazer comunicação de massa e da estabilização do emergente. Excetuam-se, nesse sentido, o caso da Record, que como hipóteses pode-se considerar que representa sinais intestinais do esgotamento do atual modelo ou uma reorganização interna70, e o da Manchete, que não conseguiu se estabilizar, revelando-se incompatível com aquilo que foi estabelecido (não se encontrando entre os casos selecionados para análise neste trabalho).

A estruturação da atual indústria cultural brasileira não se deu automaticamente, mas a partir de um complexo processo de conjugação entre fatores políticos, econômicos, culturais e sociais do capitalismo em desenvolvimento e a ação de agentes sociais constituídos por esses mesmos condicionantes. Dentre esses atores, interessam-nos aqueles que ocupam posição privilegiada no sistema constituído e que possuem, assim, a prerrogativa da apropriação privada do valor excedente produzido, assim como a legitimidade e o poder para exercer o comando de um considerável volume de meios de produção cultural.

Dito isto, apresentamos abaixo cinco casos considerados expressivos (embora não proponhamos neste estudo uma generalização à população de radiodifusores) desse modelo de funcionamento da indústria cultural para que se possa, seguindo as suas trajetórias, interpretar as formas particulares em que o ethos dessa fração de classe se relaciona com o sistema social. Utilizamo-nos basicamente das versões oficiais (entrevistas e biografias autorizadas) dos relatos (a não ser para complementar informações quando considerado necessário), selecionando aspectos da prática econômica, política, ideológica e social já problematizados no capítulo teórico desta pesquisa. Compreendemos também que polêmicas que venham a existir em torno da precisão e viés das informações aqui apresentadas, haja vista a “parcialidade” do corpus selecionado, são de pouca importância para os objetivos desta investigação, pois nossa busca consiste mais em desenvolver a percepção sobre a práxis desses indivíduos/grupos investigados

que se consubstancia também na forma em que interpretam ou optam para contar a própria história.