2.3 OS TRATADOS INTERNACIONAIS
2.3.1 Tratados Multilaterais
Os tratados multilaterais são uma importante ferramenta para que os países possam exprimir seus interesses e materializá-los através de um documento jurídico internacional, com existência apoiada sob o princípio do pacta sunt servanda, elemento fundamental do direito das gentes. Esses tratados possuem três países partes ou mais. De fato, os tratados multilaterais são uma forma mais ampla de tratar sobre assuntos internacionalmente relevantes, pois admitem mais países como parte, bem como a posterior adesão de outros países, se concordarem com o fora pactuado.
Para Resek (2011, p.49), tratados multilaterais são: “Multilateral ou coletivo em todos os outros casos, ou seja, se igual ou superior a três o número de pactuantes”. Portanto, o tratado multilateral deverá conter no mínimo três pactuantes, caso contrário seria um tratado bilateral.
O Decreto nº 4.975 (BRASIL, 2004), promulga o texto do Acordo de Extradição entre os Estados Partes do Mercosul realizado no Rio de Janeiro, em 10
de dezembro de 1998. O decreto trata sobre o instituto da extradição, mas prevê certos casos em que a mesma é vedada devido à natureza política do crime em tela, conforme exposto:
ARTIGO 5
Dos Delitos Políticos
1. Não se concederá a extradição por delitos que o Estado Parte requerido considere serem políticos ou relacionados a outros delitos de natureza política. A mera alegação de um fim ou motivo político não implicará que o delito deva necessariamente ser qualificado como tal.
2. Para os fins do presente Acordo, não serão considerados delitos políticos, em nenhuma circunstância:
a) atentar contra a vida ou causar a morte de um Chefe de Estado ou de Governo ou de outras autoridades nacionais ou locais ou de seus familiares;
b) genocídio, crimes de guerra ou delitos contra a humanidade, em violação às normas do Direito Internacional;
c) atos de natureza terrorista que, a título exemplificativo, impliquem algumas das seguintes condutas:
i) atentado contra a vida, a integridade física ou a liberdade de pessoas que tenham direito à proteção internacional, aí incluídos os agentes diplomáticos;
ii) tomada de reféns ou seqüestro de pessoas;
iii) atentado contra pessoas ou bens envolvendo o uso de bombas, granadas, rojões, minas, armas de fogo, cartas ou pacotes contendo explosivos ou outros dispositivos capazes de causar perigo comum ou comoção pública;
iv) atos de captura ilícita de embarcações ou aeronaves;
v) em geral, qualquer ato não compreendido nos itens anteriores, cometido com o propósito de atemorizar uma população, classes ou setores da mesma, de atentar contra a economia de um país, seu patrimônio cultural ou ecológico, ou de realizar represálias de caráter político, racial ou religioso;
vi) a tentativa de qualquer dos delitos previstos neste Artigo (BRASIL, 2004).
Existe a previsão da extradição, salvo se o crime for considerado político, porém não contém conceituação do que seria um crime político. Há apenas um rol de crimes que não deverão ser considerados políticos, cabendo à autoridade interpretar a norma por exclusão.
O Decreto prevê que a classificação do crime como político ou não será feita pelo Estado, pois a mera alegação por parte do indivíduo não enseja a vedação da extradição, devendo haver uma investigação caso a caso para verificação da real ocorrência de crime político.
O Decreto nº 18.956 (BRASIL, 1929) promulgou seis convenções de Direito Internacional Público, aprovadas pela Sexta Conferência Internacional Americana, realizada em Havana no dia 20 de fevereiro de 1928, estas convenções trataram
sobre diferentes assuntos, sendo um deles o Asilo Político. A seguir alguns artigos que preveem este benefício:
ARTIGO 1º
Não é licito aos Estados dar asylo em legações, navios de guerra, acampamentos ou aeronaves militares, a pessoas accusadas ou condemnadas por delictos communs, nem a desertores de terra e mar.
As pessoas accusadas ou condemnadas por delictos communs, que se refugiarem nalgum dos lugares assignalados no paragrapho precedente, deverão ser entregues, logo que o requeira o governo local.
Se as ditas pessoas se refugiarem em territorio estrangeiro, a entrega effectuar-se-á mediante extradição, e somente nos casos e na forma que estabeleçam os respectivos tratados e convenções ou a Constituição e leis do paiz de refugio.
ARTIGO 2º
O asylo dos criminosos politicos em legações, navios de guerra, acampamentos ou aeronaves militares, será respeitado na medida em que, como um direito ou por tolerancia humanitaria, o admittirem o uso, as convenções ou as leis do paiz de refugio e de accôrdo com as seguintes disposições:
1º O asylo não poderá ser concedido senão em casos de urgencia e pelo tempo estrictamente indispensavel para que o asylado se ponha, de qualquer outra maneira, em segurança.
2º O agente diplomatico, commandante do navio de guerra, acampamento ou aeronave militar, immediatamente depois de ter concedido o asylo o communicará ao Ministro das Relações Exteriores do Estado do asylado, ou á autoridade administrativa do lugar, se o facto occorrer fora da capital.
3º O Governo do Estado poderá exigir que o asylado seja posto fora do territorio nacional dentro do mais breve prazo; e o agente diplomatico do paiz que tenha concedido o asylo poderá, por sua vez, exigir as garantias necessarias para que o refugiado saia do paiz, respeitando-se a inviolabilidade da sua pessoa.
4º Os asylados não poderão ser desembarcados em ponto algum do territorio nacional, nem em lugar que lhe esteja muito proximo.
5º Emquanto o asylo durar, não se permittirá aos asylados pratiquem actos contrarios á tranquillidade publica.
6º Os Estados não estão obrigados a pagar as despesas effectuadas por aquelle que concede o asylo (BRASIL, 1929).
O texto do Decreto rejeita a possibilidade de conceder asilo político a criminosos comuns, ou seja, para aquelas pessoas que cometeram crimes pertinentes ao direito penal comum, prevendo a imediata extradição dos mesmos. Além disso, elenca-se a possibilidade da ocorrência de asilo diplomático, aquele que ocorre em navios ou acampamentos militares, legações e outros com a devida comunicação ao Estado de origem do indivíduo a ser asilado, além da proibição do asilado praticar atos contrários à paz pública.
O próximo Decreto foi resultado da Sétima Conferência Internacional Americana, realizada em Montividéo em 26 de dezembro de 1933. O Decreto nº 1.570 (BRASIL, 1937), altera alguns dizeres do Decreto nº18.956 de 1929 resultante
do tratado assinado na Convenção de Havana. A seguir os artigos pertinentes ao asilo político:
Artigo 1
O artigo 1 da Convenção de Havana sobre Direito de Asilo, de 20 de fevereiro de 1928, é substituido pelo seguinte: “Não é licito aos Estados dar asilo em legações, navios de guerra, acampamentos ou aeronaves militares, aos inculpados do delitos comuns que se acharem devidamente processados ou tiverem sido condemnados por tribunais ordinarios, assim como aos desertores de terra e mar.
“As pessôas mencionadas no paragrafo precedente que se refugiarem em qualquer dos lugares nele especificados, deverão ser entregues logo que o requeira o Govêrno local.”
Artigo 2
Compete ao Estado que dá asilo a qualificação do delito politico. Artigo 3
O asilo politico, por seu carater de instituição humanitária, não está sujeito a reciprocidade. Todos podem ficar sob a sua proteção, seja qual fôr a nacionalidade que pertençam, sem prejuizo das obrigações que na materia tenha contraído o Estado de que façam parte; mas os Estados que não reconheçam o asilo politico, se não com certas limitações ou modalidades, só poderão exercê-lo em países estrangeiros da maneira e dentro dos limites em que o tiverem reconhecido.
Artigo 4
Quando fôr solicitada a retirada de um agente diplomatico em consequencia das discussões a que tiver dado lugar um caso de asilo politico, o agente diplomatico deverá ser substituido por seu Governo, sem que isso possa determinar a interrupção das relações diplomaticas entre os dois Governos (BRASIL, 1937).
Tal modificação no Artigo 1 da Convenção de Havana (Decreto nº 18.856 de 1929), que originalmente previa a negação de asilo político diplomático a quem fosse acusado ou condenados por crimes comuns, trouxe grande evolução na segurança jurídica e no devido processo legal, considerando-se assim criminoso comum apenas aqueles que já foram devidamente processados e condenados por tribunal ordinário, logicamente excluindo a possibilidade de tribunais de exceção (BRASIL, 1929; 1937).
A partir de então, para a extradição, deveria haver um processo e condenação para crimes comuns devidamente fundados, realizados perante tribunal ordinário situado no país de origem do indivíduo. Permaneceu a prerrogativa de o Estado acolhedor classificar o que seria um crime político, além da previsão da não reciprocidade sobre o instituto, pelo fato de o mesmo ser de caráter humanitário, e não um dever Estatal perante a comunidade internacional.
O Decreto nº 42.628 de 13 de novembro de 1957, contendo o conteúdo da Convenção sobre Asilo Diplomático realizada em Caracas no ano de 1954, trouxe os
requisitos e situações específicas que dão ensejo a ocorrência do instituto do asilo político diplomático. Esse decreto elenca os locais onde são possíveis tais práticas, assim como os requisitos pessoais a serem preenchidos asilado, trazendo também o caráter de urgência como requisito para essa prática. De igual forma, de acordo com este Decreto cabe ao País acolhedor a classificação de crime político e a informação ao país de origem de que o indivíduo asilado está sobre seu domínio. (BRASIL, 1957a)
A Convenção sobre Asilo Territorial, assinada em Caracas, a 28 de março de 1954, por ocasião da 10ª Conferência Interamericana resultou no Decreto nº55.929 (BRASIL, 1965), que anteviu especificamente sobre o asilo político territorial e teve grande importância na tratativa jurídica internacional sobre o instituto, pois trata especificamente do mesmo, elencando normas gerais e requisitos legais. Abaixo os artigos pertinentes:
ARTIGO I
Todo Estado tem direito, no exercício de sua soberania, de admitir dentro, de seu território as pessoas que julgar conveniente, sem que, pelo exercício dêsse direito, nenhum outro Estado possa fazer qualquer reclamação.
ARTIGO II
O respeito que, segundo o Direito Internacional, se deve à jurisdição de cada Estado sôbre os habitantes de seu território, deve-se igualmente, sem nenhuma restrição à jurisdição que tem sôbre as pessoas que nêle entram, procedentes de um Estado, onde sejam perseguidos por suas crenças, opiniões e filiação política ou por atos que possam ser considerados delitos políticos.
Qualquer violação da soberania consistindo em atos de um govêrno ou de seus agentes contra vida ou a segurança de uma pessoa praticados em território de outro Estado não se pode considerar atenuada pelo fato de ter a perseguição começado fora de suas fronteiras ou de obedecer a motivos políticos ou a razões de estados.
ARTIGO III
Nenhum Estado é obrigado a entregar a outro Estado ou a expulsar de seu território pessoas perseguidas por motivos ou delitos políticos.
ARTIGO IV
A extradição não se aplica quando se trate de pessoas que segundo a classificação do Estado suplicado, sejam perseguidas por delitos políticos ou delitos comuns cometidos com fins políticos, nem quando a extradição fôr solicitada obedecendo a motivos predominantemente políticos.
ARTIGO V
O fato de o ingresso de uma pessoa na jurisdição territorial de um Estado se ter efetuado clandestina ou irregularmente não atinge as estipulações desta Convenção (BRASIL, 1965).
A convenção tratou especificamente o instituto do asilo político territorial, no tocante às prerrogativas Estatais e restrições ao Estrangeiro asilado. Prevê inclusive
a não obrigação do Estado extraditar ao Estado de origem o indivíduo perseguido por motivos políticos ou por crimes cometidos com fins políticos, cabendo ao Estado acolhedor definir estes crimes.