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CAPÍTULO I – TUBERCULOSE: HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DA DOENÇA 14

CAPÍTULO 2 ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DA TUBERCULOSE 25

2.4. TUBERCULOSE E POBREZA 31

Existem referências da tuberculose, associadas a baixas condições socioeconómicas e elevados níveis de pobreza. A pobreza, tem vindo a aumentar, quer nos países em desenvolvimento, quer nos países industrializados, devido a “ um conjunto de défices económicos, culturais e sociais e exigindo uma abordagem multidimencional e pluridisciplinar”, (RAMOS, 2005: 243).

A pobreza, foi definida nas suas diferentes dimensões, por RAMOS, (2005: 243), ao citar Dubois, (2001), como:

- “A pobreza monetária, resultando de uma insuficiência de recursos que origina um consumo de bens insuficiente;

- A pobreza das condições de vida ou de existência, representando a impossibilidade de satisfazer algumas das necessidades fundamentais e traduzindo-se por um défice, nomeadamente em matéria de alimentação, de saúde, de escolarização, de alojamento”.

Certos indicadores, como a desvantagem social e económica e a degradação das condições habitacionais das famílias, têm influência na sua saúde e no aparecimento de algumas patologias.

Um estudo efectuado por Baxer e Hopper (1981-1982), nas ruas de Nova Iorque, concluiu que “mais de 50% dos sem-abrigo, apresentavam perturbações psiquiátricas significativas, para além das situações graves do ponto de vista físico” (BENTO e BARRETO, 2002: 81) São exemplo destas, a depressão psicológica, que segundo ANTUNES e RIBEIRO (2000: 644), citando Justo (1994), “constitui de uma forma indirecta, o facilitador para o aparecimento/ desenvolvimento de doenças”.

Nos países industrializados, o decréscimo do número de casos de tuberculose, deve-se essencialmente a uma melhoria significativa da pobreza, das condições sociais e habitacionais das famílias.

Com a descoberta da terapêutica antibacilar, “a comunidade científica desviou a sua atenção da directriz inicial de melhorar as condições de vida e alterar o ambiente, para soluções puramente antimicrobianas”, (VALENTE, 2000: 565).

Existem factores de risco, que parecem estar relacionados com o aumento da incidência da tuberculose, segundo FERREIRA e FERREIRA (2000: 41):

¾ “Condições promíscuas de vida, ¾ Má nutrição;

¾ Baixa resistência devido ao alcoolismo; ¾ Baixo nível socio-económico

¾ Condições habitacionais precárias ¾ Cuidados de saúde inadequados

¾ Grandes aglomerados populacionais (transportes públicos, discotecas...); ¾ Exposição a bacilos activos”.

Estudos efectuados pela OMS (1985), mostram-nos que, “cerca de 30% e 25%, respectivamente, da população sem-abrigo de São Francisco e Londres, estava infectada com tuberculose”, (VALENTE, 2000: 566), resultados que parecem estar

relacionados com o facto desta população se concentrar em habitações superlotadas e com pouca ventilação para o exterior.

Também a elevada incidência da tuberculose nos reclusos (15 a 20 vezes maior do que a população geral), deve-se à concentração de grandes grupos populacionais, com deficientes condições de vida e de saúde, aumentando o risco de transmissão da doença (DGS, 2002).

Vários autores são unânimes, em considerar que, os idosos a viver em áreas degradadas, têm um risco acrescido de contraírem a doença.

A má nutrição, “ é outra componente da pobreza humana”, (RAMOS, 2005: 246), que pode ocorrer, e inibir o sistema imunitário, aumentando as hipóteses da infecção evoluir para a doença.

“Na Etiópia, uma das nações mais pobres do mundo, onde existe apenas um médico e sete enfermeiros para 100.000 pessoas e onde mais de metade da população não tem acesso a cuidados de saúde, estima-se que ocorram mais de 80.000 novos casos de tuberculose por ano”(VALENTE, 2000: 567).

A falta ou défice de acesso aos serviços e cuidados de saúde, é considerado também um factor de risco significativo para a propagação da infecção, visto que o atraso no tratamento aumenta o risco de mortalidade, grave morbilidade e desenvolvimento da tuberculose multiresistente.

A multiresistência na tuberculose, está relacionada com “esquemas terapêuticos incorrectos, quer por erros de aplicação dos programas de controlo da tuberculose, quer por falência do doente na aderência à medicação prescrita, sendo o alcoolismo crónico, a toxicodependência e a indigência, os factores sociais que mais têm contribuído para a não aderência à terapêutica antibacilar”, (VALENTE, 2000: 566). A migração das populações dos países mais pobres, com altas taxas de incidência de tuberculose, para os países mais ricos, favorece também a propagação da doença.

RAMOS (2004: 283) ao citar a OMS – Organização Mundial de Saúde (1983), refere que “um estudo efectuado na Holanda sobre a população migrante, mostra que a pobreza das

condições de vida, as condições de trabalho e habitação, geralmente precárias, os hábitos alimentares, os problemas culturais e comunicacionais, o acesso inadequado aos cuidados de saúde, a ansiedade e a depressão, as dificuldades de integração, os problemas de identidade, constituem para a população migrante factores que influenciam a saúde física e psíquica”.

Os refugiados e os deslocados, oriundos de países subdesenvolvidos, sujeitos a factores de risco, como a insegurança e instabilidade por colapso das infra-estruturas,

apresentam altas taxas de incidência de tuberculose, constituem um perigo para a Saúde Pública. Constatou-se que, a maioria de casos de tuberculose activa na população migrante, em países com taxas de incidência baixas, se deve a uma reactivação de uma infecção latente, adquirida antes migração do país de origem (em que as taxas de incidência da tuberculose são elevadas).

O impacto da infecção pelo VIH, associado aos problemas da pobreza e da falta de condições sociais, tem sido responsável pelo aumento da tuberculose nos últimos anos. Apesar do tratamento da tuberculose ser gratuito e acessível a toda a população, esta doença continua a ser um grave problema de saúde pública, principalmente nos países em desenvolvimento.

A associação entre a tuberculose e a pobreza, ilustra a importância do desenvolvimento de estratégias dirigidas às populações socialmente desfavorecidas, com a finalidade de ajudar a reduzir as desigualdades na saúde e no acesso aos serviços de saúde.

No âmbito do programa de luta contra a tuberculose, “é fundamental ter em conta os contextos e as condições em que vivem (…) as famílias, analisar e compreender o modo como essas condições, nomeadamente a pobreza, a violência e a exclusão, afectam a saúde, o desenvolvimento do indivíduo e a sua capacidade de adaptação (…)” (RAMOS, 2005: 258) e implementar estratégias que favoreçam a saúde e a qualidade de vida, do indivíduo e das famílias.