Capítulo I – RECONHECENDO O AMBIENTE
5 A VIDA NA PERIFERIA
5.1 TUDO JUNTO E MISTURADO
Um olhar mais atento à cena em bairros periféricos nos leva a refletir sobre as mudanças que estão ocorrendo. Em suas ruas estreitas, ao lado de casas semiacabadas, de tijolos aparentes, sem uma preocupação arquitetônica, é possível ver um vizinho com a casa pintada em cores claras, branco ou bege, com revestimento cerâmico e um acabamento caprichado, com carro na garagem. É um fenômeno explicado pelo aumento do poder aquisitivo das classes mais baixas e nos revela um cenário que ainda temos de conhecer. Na
verdade, conhecer a nós mesmos, pois cerca de 80 % da população brasileira faz parte das classes CDE. Ainda ―não conhecemos o Brasil. Não é raro encontrarmos profissionais no mercado que tentam entender a Nova Classe Média a partir da babá de seus filhos, da diarista que limpa suas casas ou do zelador do condomínio nobre onde moram‖ (BORGES, 2011, p.34).
Os estudos em relação ao estilo de vida na periferia ou de hábitos da Nova Classe Média têm de ser vistos com atenção. Segundo o professor da ESPM – Escola superior de Propaganda e Marketing e especialista no tema ―Nova Classe Média‖, Fabio Mariano Borges, vários pesquisadores afirmam que ―ainda estamos carentes de estudos sobre as classes populares nos mais diversos aspectos – comportamento do consumidor, hábitos de consumo, valores, barreiras de consumo, aspiracionais‖ (2011, p.34).
Assim como a massa de trabalhadores, sai da periferia e atravessa a cidade para trabalhar, as pessoas das classes mais altas convivem com as pessoas com menor poder aquisitivo, uns influenciam os outros e mudam à realidade à sua volta. Há uma espécie de transição de valores:
Uma massa deixou as classes baixas e migrou para a nova classe média. Nesse processo migratório não existe o abandono total de valores pela assimilação completa dos valores da nova classe. A sociedade é viva e dinâmica, portanto alguns valores são mantidos, outros assimilados, outros transmitidos para quem chega e absorvidos por quem já estava nesse grupo. Assim como alguns valores nem são abandonados, nem assimilados, mas transformados. Passam por uma releitura (BORGES, 2011, p.38).
Isso significa que a Nova Classe Média não está simplesmente imitando o consumo das classes maiores ou conservam seus valores básicos. Estão em transformação e ―construindo novos valores e uma forma própria de consumir e ver a vida‖ (BORGES, 2011, p.38).
Há muito para se conhecer e refletir sobre esse ponto de vista. Essa é a sensação que temos ao lermos o capítulo 8 do livro "Mergulho na Base da Pirâmide", de André Torretta. O título do capítulo é "O que eu acho bonito", em referência ao que é belo para os cidadãos da periferia não necessariamente é igual aos referenciais de beleza das classes sociais com maior poder aquisitivo. Na conclusão, o autor menciona que "o padrão de beleza estética da população da BoP5 inclui tipos sociais da sua própria classe, e não apenas modelos, top
5 ―BoP‖ é a sigla em inglês para ―Base of the Pyramid”, ou "Base da Pirâmide”, a expressão cunhada por C. H. Prahalad para a camada social com menor poder aquisitivo, entre 4 e 5 bilhões de pessoas no mundo.
models, cabelos loiros e olhos azuis. Esse padrão de beleza é efetivamente distante deles" (TORRETTA, 2009, p.189, grifo meu).
O autor traz à tona uma reflexão sobre a forma com que os meios de comunicação e a sociedade brasileira estabelecem valores e padrões de beleza, aspiração e consumo baseados na agenda e no pensamento das classes mais altas, das pessoas com maior poder de consumo. Esse assunto por si só já seria suficiente para páginas e páginas de reflexão sobre as relações de consumo e poder na sociedade. As ideias em alguns pontos reforçam os argumentos apresentados por Fabio Mariano, em outros os contradizem, o que reforça a percepção de que ainda há muito a ser estudado, explorado e concluído sobre o tema.
O foco de Torreta é no conceito de "estética", relacionado ao nível do que o senso comum nos remete à beleza. Ou seja, como os meios de comunicação produzem o que é belo, o que é lindo do ponto de vista do interesse comercial e de audiência. E curiosamente esse aspecto está muito mais relacionado à poiesis, ou poética, no sentido da produção de mensagens e estímulos de comunicação, do que à aisthesis, ou estética, que compreende o processo de recepção de uma mensagem no contexto em que ela está inserida (BARROS, 2009). O ponto de vista da estética na concepção mais profunda do termo amplifica o campo de observação. O ambiente, os referenciais culturais, a educação, os amigos, a família, o lazer, o trabalho, o fragmento do tempo, tudo influencia na recepção da mensagem, na forma com que ela frui pelo público e se resignifica. É um espectro de análise maior e mais complexo, de relações pragmáticas dos signos:
Enquanto o nível sintático estuda a relação dos signos entre si, o nível semântico se ocupa das relações do signo com seu referente, em um plano denotativo. Já no nível pragmático, a operação implica as relações do signo com o seu intérprete, em um diversificado leque de conotações. Neste último caso é que se inscrevem os estudos de recepção, marcados, segundo Martín- Barbero, por um complexo jogo de mediações. Importa, no entanto que esse processo de produção de sentidos e de apropriação da mensagem por parte do receptor não fique limitada ao texto, mas se desdobre em ações no contexto no qual ele está inserido (BARROS, 2009, p.4).
―A população da BoP não acha feio o que é espelho. Ao contrário do que nós imaginamos, o mundo da BoP – majoritariamente na periferia – vê beleza onde mora, onde vive‖ (TORRETTA, 2009, p.163). Os cidadãos de baixa renda têm como referência o mundo em que ele vive e o mundo dos brasileiros das classes altas. Eles veem beleza naquilo que podem ter.