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2 CORPO ENUNCIADO: das manifestações dos saberes

2.1 Um convite complexo e indisciplinar aos “partners”

“No fim das contas tudo é solidário” 11

Para começar, existe um fim que é o princípio. E nessa origem há nenhuma verdade. Há tantas incertezas quanto aquelas a que nos condena o pensamento. Nossa porta de entrada é um mergulho sem saída, de fôlego vacilante e que não encontra tradução na lógica. Com ânimo vertiginoso, percorreremos o labirinto do conhecimento e, no final como no começo, o que saberemos é que nos faltam certezas. Esta é uma tese complexa do tipo em que a ciência transborda, do tipo que é construída na aceitação do drama que é a vaga condição humana - aquela que não se sabe bem qual é - mas que ainda se pode experimentar.

A solidariedade, como anunciada por Morin (2006), pertence ao senso da complexidade, ao caráter multidimensional que é inegável e próprio à nossa realidade, mesmo a cotidiana. Por isso, quando há o intuito de compreender qualquer dimensão do real, não é possível tomá-la isoladamente, simplificá-la, perdendo de vista seu caráter de multiplicidade. É preciso haver metapontos de vistas, nos quais o observador se integre à sua concepção. Para o autor, a história ocidental teria herdado de Descartes o paradigma simplificador que, ainda hoje, prevalece em nossa cultura. Com ele, houve a divisão entre o campo do sujeito e o do objeto e, com isso, o princípio das disjunções. Separou-se a ciência da filosofia, o saber objetivo do reflexivo, do artístico e do literário. O paradigma simplificador impõe ordem ao universo e, para tanto, tem como outro princípio a redução. Assim, ou ele separa o que está ligado ou unifica o que é diverso e não é capaz de pensar que o uno e o múltiplo, a ordem e a desordem coexistem e são, inclusive, codependentes. Estamos ainda, tentando juntar o que Descartes separou. E essa é uma tarefa nada simples.

Vejamos o exemplo de Morin (2006), que versa sobre o homem, que, como sabemos, é um ser, necessariamente, biológico e cultural. Contudo, essas duas realidades foram separadas e passaram a ser estudadas de maneiras distintas, segundo os princípios de simplificação. Ficou a cargo da biologia e das áreas da saúde em geral compreender o ser anatômico, fisiológico, enquanto coube às ciências humanas e sociais vê-lo sob o ponto de vista cultural. Mas, o fato é que um não existe sem o outro, e que por mais que o conhecimento científico busque

recortar um ponto de análise com a intenção de desvendar a ordem e a simplicidade por trás da aparente desordem dos fenômenos, é preciso compreender e sempre relembrar que o corpo, bem como a menor partícula até hoje descoberta no universo físico-químico, é e faz parte de um todo complexo. Assim, concordamoscom a afirmação do autor de que “a aceitação da complexidade é a aceitação de uma contradição e da ideia de que não podemos escamotear as contradições numa visão eufórica do mundo” (MORIN, 2005, p.86-87, tradução nossa)12.

Contudo, Morin (2006) não foge as raias da razão. Ao contrário, ele a defende como ferramenta de acesso ao universo complexo, a única confiável, desde que haja nela uma autocrítica. Diante disso, a razão vagueia na ausência de fronteiras entre a racionalidade e a racionalização que, ainda sob o ponto de vista do autor, são dois distintos modos de apreensão da realidade. Assim, a racionalidade corresponde ao jogo entre a mente e o mundo, no qual criamos estruturas lógicas para apreender a realidade e com ela dialogar.

No entanto, em dado momento, entende-se que tais estruturas são insuficientes para lidar com o todo e, então, escolhemos dialogar com o que resiste, com a parcela do real que constitui nossa própria perspectiva da realidade. Já a racionalização, justamente empregada no campo das patologias psíquicas, busca prender a realidade em um sistema coerente e dele afastar tudo que possa o contradizer, tendo a paranoia como sua forma delirante. Em certa medida, a racionalização acaba sendo um exercício do cientista que procura recortar seu objeto investigativo, para observá-lo “fora” do que lhe é ordinário, isolado de sua realidade.

Racionalidade e racionalização têm, portanto, o mesmo princípio, que é aquele de compreender o real e, nossa razão anda vacilante entre esses dois polos. Preterimos o que nos desvaforece, selecionamos o que nos convém: é uma espécie de tendência inconsciente humana, talvez um recurso mesmo de sobrevivência. Ter consciência desses processos em nossas escolhas racionais é o que constitui a autocrítica necessária, inclusive e essencialmente às questões científicas. Aliás, para nosso autor, a contradição e a inovação são como virtudes da ciência que a protegem de um delírio lógico do saber, fazendo como que ela esteja,

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L´acceptation de la complexité, c´est l´acceptation d´une contradiction, et l´idée que l´on ne peut pás escamoter les contradictions dans une vison euphorique du monde.

correntemente, em “ajustes”. O mundo empírico é assim o que preserva a racionalidade autocrítica tanto dos desatinos da incoerência quanto das ilusões de total coerência.

O homem tem dois tipos de delírio. Um evidentemente é muito visível, é o da incoerência absoluta, das onomatopeias, das palavras pronunciadas ao acaso. O outro bem menos visível, é o delírio da coerência absoluta. Contra esse segundo delírio, o recurso é a racionalidade autocrítica e o apelo à experiência. (MORIN, 2006, p.72)

Rumo ao paradigma da complexidade que começa a ser desenhado, como possibilidade de enfrentamento de questões que, aliás, nosso próprio período histórico nos impõe - afinal, vivemos a era da rede, da conectividade e da intensidade dos fluxos informacionais, fenômenos que mal começamos a compreender -, Morin aponta nossa necessidade de macroconceitos, que não devem ser definidos jamais por fronteiras. Devemos pensar, segundo o autor, por constelações e solidariedade de conceitos. Nesse contexto de multiplicidades, ele propõe três princípios para refletirmos sobre a complexidade do real: o dialógico, o da recursão organizacional e o hologramático.

O princípio dialógico diz respeito ao fato de que dualidades podem corresponder a uma unidade, sendo possível a associação de temas antagônicos e complementares. Desse modo, ordem e desordem cooperam na organização do universo, e a própria organização viva progride diante da morte dos indivíduos e espécies. A dicotomia não é mais crível, há interação entre sistemas que, portanto, dialogam.

Por recursão organizacional entende-se “um processo onde os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores do que se produz” (MORIN, 2006, p.74), o que faz romper o vínculo linear e previsível entre causa e efeito. Exemplificando de maneira sucinta, temos o indivíduo que produz a sociedade e, ao mesmo tempo, é produzido por ela. Da mesma forma, a própria sociedade produzida nas interações entre os indivíduos retroage sobre eles, produzindo-os. Ou seja, a recursividade subentende, como quer Morin (2006), um ciclo autoconstitutivo, auto-organizador e autoprodutor, no qual se emaranham e se compõem produtos e produtores.

O terceiro princípio, o hologramático, já diz muito de si pela forma como foi nomeado. Lembremos que, em um holograma, a menor parte da imagem contém a maior parte das informações do todo representado. Assim é, por exemplo, nosso mundo biológico, no qual,

cada célula contém a totalidade da informação genética do organismo do qual faz parte. Mais uma vez, o espírito linear da causalidade se quebra diante do princípio sugerido. Podemos resumir esta ideia remarcando o fato da parte estar no todo, o todo estar na parte, e um não poder ser concebido sem o outro. Se a parte e o todo igualmente se conectam, elas se reconstituem uma à outra e ao mesmo tempo dialogam entre si, o que faz Morin (2006) concluir que os três princípios integram uma só trama. Trata-se, portanto, de uma constelação de princípios na qual as fronteiras estão diluídas, fato esse que nos faz seguir em direção ao próximo panorama, a partir do qual esta pesquisa deve ser compreendida. A própria noção de indisciplinaridade é exemplar do que acabamos de discutir. Vejamos como.

No decorrer da investigação que se fez para caracterizar o estudo aqui apresentado, chamou- nos atenção o termo “indisciplinar” utilizado por Greiner (2008) no subtítulo de um de seus livros - O Corpo: Pistas para estudos indisciplinares. A autora diz ter tomado a palavra, emprestada, de Sodré (2002)13, no ponto em que ela afirma que “quando a estratégia de pesquisa é da ordem da radicalidade do trans (referindo-se às famosas redes transdisciplinares), acaba virando indisciplinar” (GREINER, 2008, p.11).

Mas, a indisciplinaridade sugerida por Greiner (2008) nada tem a ver com o senso comum de desordem que pode vir associado ao termo, aproximando-se, contudo, dos desafios enfrentados em prol da negação de dualismos e hegemonias epistemológicas. Estratégias indisciplinares, ainda na trilha da autora, são construtoras de pontes entre saberes; geradoras de interlocuções outras; auxiliares na compreensão e no reconhecimento da diversidade de estados corporais.

Neste ensejo, a pesquisa aqui apresentada reflete características que poderíamos vislumbrar como indisciplinares, a partir de sua própria construção que se faz em diferentes campos de conhecimento, países e línguas, como destacamos na introdução deste trabalho. Condizente com as questões manifestas está o nosso desejo de apreender o corpo em pleno movimento e, para tanto, olhá-lo desta forma indisciplinada nos parece fundamental. Isso diz respeito a contemplá-lo de diferentes pontos de vista teóricos, por alguns dos distintos ângulos possíveis, movimentando também as perspectivas de aproximação em torno do corpo

13 SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho, uma teoría da comunicação linear em rede. Petrópolis: Editora

enquanto objeto científico. Cabe a este movimento a provocação e o convite a outras disciplinas enquanto partners.

É certo que os padrões da ciência circunscrevem nossa pesquisa que, embora transite pelas bordas de grandes áreas, tem seus passos firmados pela imprescindível estrutura acadêmica. Diríamos que, em algum sentido, o que aqui praticamos é uma espécie de indisciplina

calculada e complexidade inadiável. A primeira, no momento onde nos arriscamos na

expansão do conteúdo sem nos desfazermos da forma e provocando um enfrentamento teórico e metodológico - digamos - pouco habitual. A segunda, pela insistência em perscrutar um objeto tão insolúvel quanto o corpo e por cumprir essa incerta tentativa sem fugir de um arranjo reflexivo que não pode ganhar outro nome senão: complexo. Assim, consideramos que é, sem dúvida, indispensável ao nosso estudo esta postura científica - que estamos classificando como indisciplinada e complexa - para efetivar o trânsito pretendido entre o corpo, a informação e a gestualidade, por via da improvisação em dança.

Diante do que foi exposto e como já parece sinalizado, evocaremos a seguir a filosofia enquanto área de conhecimento inaugural para as discussões aqui propostas. Comecemos pelo corpo nosso objeto-sujeito.