CAPÍTULO I. FORMAÇÃO DE PROFESSORES: REFLEXÕES SOBRE AS ABORDAGENS CONCEITUAIS E O CONTEXTO DA FORMAÇÃO
1.3 UM OLHAR SOBRE A LEGISLAÇÃO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO BRASIL
Seguindo o curso do movimento das reformas educacionais, o Brasil a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) - Lei 9394/96, de 24/12/1996 começa então a alavancar alguns avanços em relação à educação, trazendo algumas alterações no trato com as questões educacionais, sobretudo na maneira de conceber a formação. Mediante as suas disposições aparecem políticas públicas voltadas para a valorização da carreira docente, no entanto, na contramão das inovações na formação de professores a nível mundial, aceita-se ainda a formação de professores em nível médio.
A partir da publicação da LDB foram estabelecidas novas diretrizes para a Formação de Professores. Surge nesse âmbito a Resolução CNE/CP Nº 1 de 2002 que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de professores da Educação Básica em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. Tais diretrizes, compreendem um conjunto de princípios, fundamentos e procedimentos a serem seguidos pelas instituições de ensino que oferecem formação de professores, aplicando-se a todas as etapas e modalidades da educação básica. Muitos desses princípios norteadores estão baseados na articulação entre teoria e prática, no exercício da profissão docente, na pesquisa como construção do conhecimento, no processo de ensino e aprendizagem, dentre outras coisas.
Acompanhando a tendência de redefinição nos moldes do processo de formação de professores no Brasil, destacamos o surgimento do PIBID como um programa de incentivo à formação e a valorização docente. Foi a partir do Decreto nº 7.219 (2010) que foi institucionalizado esse programa com a finalidade principal de promover a iniciação à docência e o aperfeiçoamento da formação docente em nível superior.
No entanto, é importante analisar que o alcance do PIBID ainda é muito limitado porque não atinge a totalidade dos estudantes das licenciaturas, deixando alguns às
margens desse processo. Trata-se na realidade de um programa de caráter complementar que “tem como finalidade fomentar a iniciação à docência, contribuindo para o aperfeiçoamento da formação docente em nível superior e para a melhoria da qualidade da educação básica pública brasileira” (BRASIL, 2010, p. 4). Consideramos que apesar do seu alcance ser limitado, o programa sinaliza um avanço na formação e no desenvolvimento profissional de professores.
Entretanto, consideramos importante abrimos um parênteses para discutir um pouco a problemática que envolve a continuação do programa. Lidamos na atualidade com a possibilidade de cortes no orçamento do programa para o ano de 2016, o que impede a sua abrangência. Apesar de negar os cortes, a Capes admitiu recentemente que o PIBID poderá passar por uma reavaliação. Com o objetivo de adequar o custeio do PIBID mediante a política de cortes, o que ficou claro é que algumas medidas serão adotadas imediatamente pela CAPES. Uma das ações podem ser excluir os bolsistas que têm mais de 48 meses no Programa e a outra não abrir temporariamente vagas para novos bolsistas, conforme informações da própria instituição.
Nesse cenário, por entender que o PIBID desempenha papel estruturante na formação de professores para a Educação Básica, consideramos que a redução do programa indica o enfraquecimento de uma proposta que tinha como uma de suas principais metas revitalizar os cursos de licenciatura e melhorar alguns índices da escola pública, isso significa que os cortes podem significar um retrocesso no campo da formação dos professores e na melhoria da qualidade na Educação do Brasil.
Retomando a nossa discussão anterior, ressaltamos que os pressupostos do PIBID têm muito a ver com a maneira que Nóvoa (2009) pensa a formação, principalmente no que se refere a inserção dos licenciandos em seu próprio campo de atuação profissional, onde os mesmos terão a oportunidade de refletir na prática e sobre a prática, estando integrados na cultura profissional docente, tanto de forma individual quanto coletiva, sendo acompanhados de perto por profissionais mais experientes, desenvolvendo uma aprendizagem mais significativa para o exercício da docência.
Na última década, alguns movimentos foram direcionados a repensar sobre a formação de professores da educação básica, incluindo proposições pertinentes à valorização desses profissionais. Na esfera do Conselho Nacional de Educação
(CNE), houve discussões em direção à busca de maior organização no processo de formação de profissionais do magistério da educação básica, o que provocou a rediscussão das Diretrizes e outros instrumentos normativos acerca da formação inicial e continuada.
De acordo com Dourado (2015) o Conselho Nacional de Educação designou uma Comissão Bicameral de Formação de Professores, formada por conselheiros da Câmara de Educação Superior e da Câmara de Educação Básica. O autor destaca que esse foi um processo muito lento ressaltando que essa Comissão, tendo em vista a renovação periódica dos membros do CNE, foi recomposta diversas vezes, contribuindo para que o processo de estudo e aprofundamento da temática se arrastasse por cerca de uma década, considerando que esta teve início em 2004 a partir da Portaria CNE/CP nº 2, e só em 2014, a Comissão Bicameral foi recomposta novamente por meio da Portaria CNE/CP nº 1, quando, enfim, foram concluídos os trabalhos.
Dourado (2015) assegura que essa comissão que retomou os trabalhos em 2014, aprofundou os estudos e as discussões sobre as normas gerais e as práticas curriculares vigentes nos cursos de licenciaturas, assim como sobre a situação dos profissionais do magistério diante das questões de profissionalização, com destaque para a formação inicial e continuada, além disso definiu como horizonte propositivo de sua atuação a discussão e a proposição de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial e Continuada dos Profissionais do Magistério da Educação Básica.
Com a intensificação dos trabalhos da comissão a proposta foi aprovada a partir do Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014), no entanto, o processo suscitou a realização de várias reuniões e discussões onde houve a participação de membros da Comissão nas conferências municipais, estaduais e nacional, para discutir a temática da formação. Além dessas atividades, houveram reuniões com instituições de educação superior, conselhos estaduais de educação em que foram discutidas as demandas da comunidade educacional para discussão das novas DCN. Toda essa dinâmica demonstrou um longo processo participativo que resultou na consolidação do documento final.
As novas DCN aprovadas pelo CP/CNE, em 09.6.15, foram sancionadas pelo MEC, em 24.6.15, apresentam concepções para a melhoria da formação inicial e continuada
e suas dinâmicas formativas. Esse processo culminou na RESOLUÇÃO Nº 2, DE 1º DE JULHO DE 2015 que define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos para graduados e cursos de segunda licenciatura).
De acordo com Dourado (2015)
Na busca de maior organicidade das políticas, as novas DCN enfatizam que estes processos implicam o repensar e o avançar nos marcos referenciais atuais para a formação inicial e continuada por meio de ações mais orgânicas entre as políticas e gestão para a educação básica e a educação superior, incluindo a pós-graduação e, nesse contexto, para as políticas direcionadas à valorização dos profissionais da educação (DOURADO, 2015, p. 306).
Parece evidente que as novas DCN deliberam princípios que apontam na direção de uma nova perspectiva para a formação inicial e continuada de professores da educação básica sinalizando para um formato diferenciado de projetos formativos, que privilegiem uma maior articulação entre as instituições de educação superior e de educação básica, para tanto, definem que a formação inicial e continuada precisa contemplar basicamente seis aspectos:
I. Sólida formação teórica e interdisciplinar dos profissionais;
II. A inserção dos estudantes de licenciatura nas instituições de educação básica da rede pública de ensino, espaço privilegiado da práxis docente; III. O contexto educacional da região onde será desenvolvido;
IV. Atividades de socialização e avaliação dos impactos;
V. Aspectos relacionados à ampliação e ao aperfeiçoamento do uso da língua portuguesa e à capacidade comunicativa, oral e escrita, como elementos fundamentais da formação dos professores e à aprendizagem de Libras; VI. Questões socioambientais, éticas, estéticas e relativas a diversidade étnico--racial, de gênero, sexual, religiosa, de faixa geracional e sociocultural como princípios de equidade (DOURADO, 2015, p. 306).
Ao analisarmos as novas DCN é possível depreender que o documento visa garantir uma melhoria significativa na formação dos profissionais da educação, à medida que
procura garantir uma base comum nacional sem prejuízo de base diversificada, além de propor uma maior articulação entre teoria e prática que seria consolidada no exercício profissional. Desse modo, entendemos que a formação inicial se destina a privilegiar articulação entre estudos teórico-práticos, a investigação e a reflexão crítica, a partir das experiências vivenciadas nas instituições de ensino.
Nessa direção as novas DCN definem que os cursos de formação precisam garantir em seus currículos conteúdos específicos da respectiva área de conhecimento ou interdisciplinares, seus fundamentos e metodologias, assim como conteúdos relacionados aos fundamentos da educação, formação relacionada a área de políticas públicas e gestão da educação, direitos humanos, diversidades étnico-racial, de gênero, sexual, religiosa, de faixa geracional, Língua Brasileira de Sinais (Libras) e direitos educacionais de adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas ( BRASIL, 2015).
Dentro dessa proposta as DCN sugerem ainda cursos de formação pedagógica para graduados não licenciados, de caráter emergencial e provisório, além de oferecer cursos de uma segunda licenciatura direcionados a profissionais já licenciados.
Em relação a formação continuada observamos que o documento prioriza a compreensão das dimensões coletivas, organizacionais e profissionais, além de estimular o repensar do processo pedagógico dos saberes, abrange atividades de extensão, grupos de estudos, reuniões pedagógicas, cursos. A proposta tem como finalidade básica a reflexão sobre a prática educacional e a busca de aperfeiçoamento profissional que envolve questões de cunho ético, pedagógico, técnico etc.
E nessa perspectiva, a formação continuada precisa proporcionar processos formativos diversos abrangendo cursos de extensão, de aperfeiçoamento, de especialização, além dos cursos de mestrado e doutorado que oportunizem aquisição de novos saberes e práticas. Em outras palavras, essa formação continuada deve priorizar a reflexão crítica sobre as práticas vivenciadas ao longo do exercício profissional buscando, sobretudo, consolidar a construção de uma nova identidade do professor.
Em estudo recente realizado por Dourado (2015) sobre os reflexos das novas DCN para a formação inicial e continuada de professores no Brasil, o autor considera que
“as novas diretrizes curriculares ratificam princípios e buscam contribuir para a melhoria da formação inicial e continuada dos profissionais do magistério ao definir a base comum nacional”, além disso, o referido autor destaca ainda que as diretrizes recém-aprovadas destacam a indispensável articulação entre educação básica e superior, assim como, a institucionalização de uma proposta de formação inicial e continuada dos profissionais do magistério da educação básica que redimensione a formação desses profissionais a partir de uma concepção de docência, a qual inclui o exercício articulado nos processos ensino e aprendizagem e na organização e gestão da educação básica.
Neste sentido, consideramos que para atingir as propostas definidas pelas novas DCN muitos desafios se colocam ao campo da formação, desafios que envolvem os sistemas de ensino, mas principalmente as instituições que são responsáveis pelos processos formativos. Do mesmo modo, articulado ao processo, se faz necessária a garantia de novos recursos no sentido de viabilizar uma melhor organização para as políticas e para a gestão da educação.
Um outro documento está em processo de discussão e pode trazer contribuições importantes para mudanças no cenário da educação nacional trazendo impactos positivos, trata-se de uma versão preliminar da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Recentemente, o debate sobre currículo tomou uma dimensão maior com o novo Plano Nacional de Educação promulgado por meio da Lei nº.13.005/2014, o documento apresenta metas e estratégias para a institucionalização efetiva do Sistema Nacional de Educação (SNE). Nesse contexto, o documento preliminar da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), construído na Secretaria de Educação Básica do MEC por uma Comissão de Especialistas das áreas do conhecimento convidados individualmente e oriundos de universidades e institutos federais de educação, ciência e tecnologia, como também professores e gestores das secretarias estaduais indicados foi submetido à consulta pública.
Ressaltamos que a BNCC é uma parte importante da construção do currículo escolar da educação básica brasileira, está no centro da discussão o projeto sobre a nação atual, assim como discussões sobre as questões atuais relativas ao desenvolvimento e inclusão social.
A proposta do MEC é que a partir da proposta inicial da BNCC construída em setembro de 2015, a sociedade possa enviar suas propostas pelo portal, essas propostas podem ser de escolas, de movimentos sociais e diversas entidades pública e privadas. Após o período de consulta pública, as sugestões serão articuladas à proposta inicial. A previsão é que em 2016 se tenha um documento mais amplo para ser entregue para a apreciação do Fórum Nacional de Educação (FNE) e, posteriormente, ao Conselho Nacional de Educação (CNE).
É importante destacar a necessidade da relação da BNCC com a formação dos professores deverá refletir as orientações da RESOLUÇÃO CNE/CEP Nº 1/ 2015, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial e Continuada em Nível Superior de Profissionais do Magistério para a Educação Básica. Uma questão primordial, que precisa estar presente nesta discussão da BNCC é a da formação e valorização de professores, que permeia a relação essencial da educação básica com a educação superior.
Além disso, a BNCC, precisa incluir as discussões sobre as modificações nos currículos dos cursos de licenciatura e demais atividades de formação de professores. Isso deve implicar numa ampliação do debate, de modo a envolver os agentes educativos diversos, sobretudo das instituições formadoras e contratantes dos profissionais da educação básica.
1.4 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO CENÁRIO DO SISTEMA EDUCATIVO