Capítulo IV: Exemplaridade Punitiva e Efeito Público
2. Uma nova hierarquia
Os castigos públicos jogaram com a posição social ocupada pelos condenados no mundo indígena. A punição pública e a detração subsequente à finalização dos inquéritos contribuíram para a fragilização da imagem das elites indígenas com relação às demais parcelas da sociedade.
Na região do Vale do México e em suas imediações, os indivíduos envolvidos na venda e troca de produtos básicos ou de luxo eram, em sua maioria, pertencentes a grupos alheios às elites governantes. Diferente da região maia, onde constata-se um vínculo mais estrito entre a nobreza e as atividades comerciais diretas.441 Grande parte dos responsáveis pelo funcionamento dos tianguis, no
Centro do México, era macehualtin, ainda que regulamentados e controlados pelos pipiltin governantes. Mesmo aqueles que alcançavam um status quo elevado – fruto das bem-sucedidas caravanas comerciais – não se equiparavam aos nobres indígenas; posição esta intermediária e ocupada por uma parcela significativa dos comerciantes de longa distância, os chamados pochtecas. Eles eram responsáveis por percorrer os extensos trechos que compunham as redes de intercâmbio de mercadoria na mesoamericana; eram negociantes de tempo integral e proporcionavam o intermédio dos itens de escassa oferta nas regiões das quais eram provenientes e para aquelas às quais se destinavam.442
440 BANNASSAR, Bartolomé. La Inquisición o la pedagogía del miedo. In: _________________. Inquisición Española: poder político y control social. Barcelona: Editorial Crítica, 1984, pp. 94-125. 441 LÓPEZ LUJÁN, L; MANZANILLA, L. op. cit., 2014, vol. IV, p. 111.
Esses especialistas no comércio de longa distância gozaram, muitas vezes, de notável prestígio. Alguns chegaram a ser mais abastados do que muitos pipiltin e não hesitavam em demonstrar sua riqueza por meio de ostentosos banquetes. Frei Bernardino de Sahagún denotou o especial caráter que os eventos assumiam para o grupo de comerciantes:
Cuando alguno de los mercaderes y tratantes tenía ya caudal y presumía de ser rico, hacía una fiesta o banquete a todos los mercaderes, principales y señores, porque tenían por cosa de menos valer morirse sin hacer algún espléndido gasto para dar lustre a su persona (…)443
Os pochtecas concorriam e se arriscavam, antes da conquista, no intuito de alcançarem o prestígio social dos indivíduos nascidos no seio da nobreza indígena. Não lhes era incomum enfrentar caminhos tortuosos e estar constantemente expostos às ameaças de regiões hostis.
A exibição de seus êxitos comerciais diante dos nobres ou das parcelas mais pobres da população, que tudo observava, era arriscado. Os mercadores enalteciam os nobres, presenteando-os e atentando ao rigor hierárquico que separava esses indivíduos. O intuito era evitar qualquer tipo de ofensa para os pipiltin perante os requintes dos banquetes oferecidos, pois tentar fazer concorrência com a nobreza e abusar dos frutos conquistados podiam incitar graves retaliações.
Diante dos olhares dos comerciantes abastados e daqueles menos privilegiados que comercializavam alimentos cotidianos, a Inquisição episcopal exibiu seus condenados. Sob acusações de difícil inteligibilidade para o público indígena, o atributo que marcava as punições era, sobretudo, a subjugação dos nobres, antes imaculados. Por usufruírem de um estatuto de superioridade, a apresentação dos penitenciados pesava de forma marcadamente vexatória. Os pipiltin desfrutavam, antes da invasão espanhola, de privilégios inerentes –
controlavam os regimentos de justiça, governavam e arrecadavam tributos em suas zonas de direito, além de exercitarem por excelência as funções de guerra e conquista.444 Em um ambiente onde a presença deles estava associada ao mando,
gerência e consumo de itens valiosos, o uso dos mercados como palcos punitivos atentava, estreitamente, contra a imagem e a autoridade dos condenados.
O alvo fundamental do procedimento inquisitorial era o público que se aglomerava nos espaços escolhidos para o cumprimento dos castigos. Os espectadores eram os personagens centrais da montagem do Santo Ofício e a ausência deles deixaria a exibição dos condenados desprovida de significado. Tampouco o mero anúncio dos delitos satisfaria à procedura do Santo Ofício. Declamar ao público os crimes não era tão eficaz quanto exibir o réu enquanto eram anunciados seus crimes.445 Fazia-se necessário, dentro da dinâmica inquisitorial,
que todos observassem de perto, com proximidade suficiente para marcar os pensamentos e, não menos importante, temer por sua própria integridade. Mas, não bastava a simples humilhação do condenado, era preciso dar algo com vigor suficiente para imprimir nas mentes através dos olhares.
Ainda que constituísse uma penalidade independente, a pena de humilhação pública raramente era administrada de forma isolada; não sendo diferente na atuação de frei Juan de Zumárraga.446 O caminho percorrido nas
“bestias de albarda” preludiou nos processos contra indígenas os castigos mais severos. O clímax do ritual punitivo era alcançado por meio de açoites e finalizado pelas abjurações dos condenados em praça pública ou em meio às celebrações das missas. Tal destino foi protagonizado por cinco indígenas da região de Azcapotzalco. Eles foram condenados a receber cada um “cien azotes por los
444 MENEGUS, Margarita. La nobleza indígena em la Nueva España: circunstancias, costumbres y
actitudes. In: ESCALANTE GONZALBO, Pablo. (coord.). Historia de la Vida Cotidiana en México: Mesoamérica y los ámbitos de la Nueva España. México: FCE, 2004, vol. I, p. 501.
445 FOUCAULT, op. cit., 2007, p. 49.
446 Sobre o caráter da administração da pena de humilhação pública pelo Santo Ofício, conferir:
GARCÍA-MOLINA RIQUELME, Antonio M. El Régimen de Penas y Penitencias en el Tribunal de
tianguis desta ciudad de México”447. Ademais, deveriam permanecer “en pie a la
misa que se dijere, y les sean predicado y dado a entender sus errores e falsedad e idolatría, e las abjuren e aborrezcan y detesten públicamente”448.
O inquisidor procurou unir os açoites aos ritos de humilhação pública, concedendo maior apelo à cena punitiva. Outro exemplo pode ser demonstrado na condenação de Francisco de Coyoacán por bigamia, em novembro de 1538:
(…) Condenamos, al dicho Francisco, indio, que de la prisión e cárcel donde está, sea sacado caballero en una bestia de albarda, atados los pies y las manos, con voz de pregón, y en las espaldas desnudas le sean dados cien azotes (…)449
Os açoites comportavam um caráter punitivo e penitencial, vinculando-se às práticas da Igreja em busca da perfeição espiritual (flagelar o corpo e limpar o espírito do penitente). Ademais, o sofrimento de penas corporais estava vinculado às concepções penais do Antigo Regime, associado ao castigo dos mais pobres. A nobreza espanhola estava acostumada a receber penas pecuniárias ou que não atentassem contra sua reputação (“fama”). Assim como os clérigos, a elite peninsular raramente era açoitada ou escarnecida em público pela Inquisição espanhola.450
Claramente, a humilhação afetava mais alguns indivíduos que outros, devido à imediata detração da imagem pessoal. O escarnecimento de clérigos e nobres era desvantajoso, ainda que eles fossem considerados culpados. A Inquisição levou em conta o reconhecimento do prestígio social e buscou evitar a fragilização de figuras da nobreza espanhola e do clero diante as demais parcelas da sociedade.451 E, nesse sentido, pode-se falar de uma inversão estratégica no
proceder inquisitorial com relação aos “naturales” convertidos.
447 AGN, Inquisición, vol. 37, exp. 2, f. 16. 448 Ibidem
449 AGN, Inquisición, vol. 23, exp. 1, f. 6v.
450 GARCIA-MOLINA RIQUELME, op. cit., 1999, pp. 435-437. 451 Ibidem, pp. 511-512.
Como ressaltado, os indígenas processados pelo bispo Juan de Zumárraga eram pertencentes às elites locais ou vinculados a elas. A humilhação e o açoitamento dos nobres indígenas deixavam implícito um duplo caráter de tratamentos. Por um lado, foi reconhecido o distanciamento entre os macehultin e os pipiltin, sendo esses últimos destacados como nobreza ou elite governante, deixando clara a exemplaridade almejada pela Inquisição em sua punição. Por outro lado, o estatuto de “noble indígena” não foi verdadeiramente reconhecido no âmbito jurídico do Santo Ofício. E o tratamento punitivo concedido aos réus não demonstrou qualquer reconhecimento de privilégio nobiliário.
Tal caráter duplo acima citado e reconhecível no tratamento junto aos condenados alargava o alcance do público, que devia testemunhar e, em certo sentido, fazer parte da punição em maior quantidade possível. O que estava em jogo era o alcance edificador aspirado pelos castigos. Punir os condenados e educar os demais eram os auspícios das sentenças, expressos nas prescrições do próprio bispo inquisidor: “por las calles acostumbradas en forma, les sean dados (…) azotes, manifestando su delito porque a ellos sean castigo y a los que vieren y oyeren ejemplo”452. Resultado que podia ser pretendido apenas mediante a
participação das comunidades locais.
Em meio ao temor de sofrer os mesmos rigores, os espectadores também figuravam em um novo papel, qual seja, o pertencimento à comunidade que expurgava o herege indesejado – função implícita na participação e cada vez mais importante na formação cristã das comunidades indígenas convertidas. Em resumo, existiu uma pedagogia tripartida expressa na Inquisição de frei Juan de Zumárraga. Tratava-se de causar temor pelo que padecia o condenado; ao mesmo tempo, introduzia-se os indígenas nos novos cerimoniais de justiça, e, não menos importante, criavam-se novos sentimentos de pertencimento social.
As obrigações que recaíam sobre indígenas convertidos não passavam apenas pelos cumprimentos de uma postura litúrgica. A formação dos novos
cristãos demandava a construção de uma ética frente às práticas tidas como heréticas e abomináveis. Era preciso romper com o passado e cultivar novos valores. Recaía sobre os neófitos, conjuntamente, o pressuposto de expurgar os elementos heréticos do interior de suas comunidades.
A queima das efígies divinas e apetrechos rituais confiscados constituíram um dos lados mais apelativos desse movimento de extirpação, tão característico nas primeiras décadas da evangelização no México. Tal recurso incrementou as insígnias da Inquisição episcopal do primeiro bispo do México. Para além dos castigos impostos, o extermínio das efígies de divindades indígenas também aparece como um distintivo na cena pública. Lado a lado os condenados foram incinerados “los idolos que les fueron tomados”453 e qualquer atributo
vinculado aos ritos devocionais indígenas.
Não obstante, apesar da violência que caracterizava o ato, o espetáculo de destruição das efígies não invalidava a existência das divindades indígenas. Como ressaltado pelo historiador Serge Gruzinski, as destruições promovidas pelos primeiros evangelizadores delimitavam um estatuto ambíguo entre as efígies e as novas imagens cristãs. A queima dos “ídolos” efetivava mais uma concorrência com as imagens cristãs que, propriamente, uma aniquilação dos deuses. A busca e eliminação dos “ídolos” sobrepunha a autoridade do cristianismo sem, no entanto, subentender a inexistência dos deuses autóctones. A destruição deixa subsistir uma ambiguidade, uma margem de crença. Ora, combatia-se algo que, bem ou mal, tinha sua existência reafirmada nas próprias perseguições – operação que consistiu mais em “uma mutilação do que um aniquilamento”, resguardando um certo caráter apreciável das efígies indígenas.454
Tal raciocínio encontra ainda maior sustentação ao se cotejar as concepções formuladas pelo pensamento nahua em sua cosmologia e formulação dos seres divinos.
453 AGN, Inquisición, vol. 37, exp. 1, f. 9v.
454 GRUZINSKI, Serge. A Guerra das Imagens: de Cristóvão Colombo a Blade Runner (1492-2019).
Segundo Alfredo López-Austin, as complexas formulações dos antigos nahuas, com relação à substancialidade que compunha as divindades, pressupunham a existência de quatro características fundamentais: a substância divina era passível de divisão, reintegração à sua fonte original, separação de seus múltiplos componentes e, até mesmo, podendo-se agrupar de formas distintas, formando um novo ser divino. A divisão permitia que a mesma divindade estivesse em vários lugares de forma simultânea. A título de exemplo, uma divindade podia habitar o mundo dos deuses e, ao mesmo tempo, ter sua essência presente em indivíduos mundanos, tal como no caso dos homens-deuses, destacados anteriormente. O mesmo ocorria com as efígies indígenas, pois as essências das divindades ocupavam as formas talhadas e modeladas, sem, no entanto, estarem restritas ao objeto. Uma vez rompidas as efígies divinas, a substância retornava a sua fonte original.455
Ainda assim, parece verossímil cogitar um certo alarde que pode ter tomado conta de muitos espectadores indígenas ao verem as destruições performatizadas pelos evangelizadores e seus apoiadores.456 Ainda que tomados
por um medo inicial de retaliação por parte dos deuses ofendidos, os indígenas seriam pouco a pouco – segundo Gruzinski – obrigados a admitir a não reação de suas divindades. Isso pode ter contribuído para ver na “agressão dos espanhóis” a consagração da “impotência das divindades locais”.457
Tomando as linhas de pensamento desse historiador francês, é possível enxergar na punição de membros das elites indígenas juntamente à destruição dos “ídolos” um jogo de remontagem das linhas hierárquicas. Uma verdadeira reconstrução das dinâmicas de poder. Não se tratava de uma completa perda de autoridade por parte das elites autóctones ou das divindades, mas sim, uma ação reedificadora, e uma nova hierarquia se impunha. O primeiro plano passava a ser ocupado pelos espanhóis, as imagens cristãs e o Deus cristão; e, em segundo lugar,
455 LÓPEZ-AUSTIN, Alfredo. Tamoachan y Tlalocan. México: Fondo de Cultura Económica, 1994,
pp. 25-28.
456 Ibidem, p. 61. 457 Idem.
os nobres e as devoções pré-hispânicas. Em outras palavras, efetivava-se por meio das ações inquisitoriais contra os indígenas uma sobreposição da autoridade do cristianismo ao subjugar os pipiltin e as divindades autóctones em praça pública. Portanto, ocorriam mutilação das divindades, sobreposição da autoridade do cristianismo e ressignificação do sagrado em seus espaços e fundamentos.