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3 SÍNTESE TEÓRICA

3.3 O SEGUNDO WITTGENSTEIN

3.3.6 Uma terapia filosófica

Wittgenstein concebe todo seu trabalho filosófico a partir dos problemas da filosofia. Esta libertação, por sua vez, se dará através da tomada de consciência da gramática

de nossas palavras, das regras do seu emprego. Devido à natureza específica destes problemas, a filosofia terá uma função, quase que exclusivamente, terapêutica, ou seja, trata- se de libertar o filósofo de seus problemas. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste a nós (HALL, 2005).

A concepção da natureza humana que dominava a tradição filosófica cartesiana era distorcida. Ela foi distorcida não pela loucura ou pela cegueira, mas pela pressão exercida por questões filosóficas que diziam respeitos à essência do eu, à natureza da mente, à possibilidade de conhecermos outras mentes. Assim, a filosofia terapêutica de Wittgenstein pode nos auxiliar a alcançar uma perspectiva humana correta e olhar para nós mesmos da maneira apropriada. Foi lutando para responder a questões como estas, que pareciam exigir um determinado tipo de resposta, que cartesianos e empiristas foram sutilmente distorcendo nossas concepções de pessoa, ser humano, mente, pensamento, corpo, comportamento, ação e vontade, até tornarem estas concepções irreconhecíveis. (HACKER, 2000).

A descrição que Wittgenstein qualifica de “gramatical” não corresponde a um projeto epistemológico, está próxima a uma semântica pragmática que não é transcendental, nem tampouco empírica: não procura princípios a priori assim como não se detém em fatos linguísticos. O domínio da gramática seria o domínio das relações entre diversos jogos de linguagem, isto é, o das relações entre as palavras e as diferentes práticas linguísticas que com elas estão interligadas. São as “vizinhanças”, os contextos institucionais, que permitirão compreender a aplicação dos conceitos, por exemplo, de “vontade”, “intenção”, “aprendizagem” etc., de tal maneira que esses comportamentos passem a ser considerado um agir voluntário, intencional, enfim, um lance em um jogo. Para entendermos melhor a explicação dos problemas filosóficos como mal-entendidos gramaticais, podemos observar o que Spaniol diz a respeito deste tema. Ele argumenta que se palavras em nossa linguagem cotidiana apresentam gramáticas análogas, somos inclinados a interpretá-las analogamente. Ele diz:

Aqui é importante observar que os problemas filosóficos, enquanto mal-entendidos gramaticais, não residem num uso errôneo da linguagem, como se poderia pensar, e muitas vezes se tem afirmado. Semelhante interpretação não só falsifica a concepção de Wittgenstein, mas tem importantes consequências para um juízo a respeito do valor ou do significado de seu trabalho. Uma das consequências, decorrentes do fato de atribuir os problemas ao mau uso da linguagem, é que Wittgenstein estaria apresentando o uso ordinário das palavras como algo sacrossanto, em que não poderia tocar. Tal consequência não segue no caso de os problemas serem meras ilusões, mal-entendidos. Assim, na interpretação do termo “ter em mente” (meinen)

como designação de um ato mental, não se trata de um erro, que, portanto, seria preciso corrigir. Mas temos um simples mal entendido, uma ilusão, que deve “desaparecer completamente” (SPANIOL, 1989, p. 89).

Spaniol argumenta que o método e o próprio conceito de filosofia são determinados pelos problemas filosóficos, compreender a natureza destes últimos é uma condição para entender o método e o conceito de filosofia de Wittgenstein. As questões filosóficas surgem porque temos a impressão de não compreender algo, como por exemplo, o tempo. Se nos perguntarmos “o que é tempo?” essa pergunta é uma expressão de um incômodo mental e não necessariamente uma pergunta pela causa ou motivo de algo. Pode ser comparada com a pergunta “por quê?”, tal como é feita muitas vezes por crianças. O característico de um problema filosófico está em que aqui se externa uma confusão em forma de pergunta que não reconhece esta confusão. Os problemas filosóficos consistem, portanto, numa espécie de confusão. E a dificuldade reside, precisamente, no fato de não reconhecermos a confusão como tal. Por conseguinte, o problema consiste no fato de confundirmos a pergunta pelo conceito com uma pergunta pela coisa (SPANIOL, 1989).

Assim, Wittgenstein assumiu o risco de destruir tudo o que é grande e importante na filosofia do a priori. Na sua visão filosófica existe uma doença do entendimento a curar por uma longa análise, uma obsessão de que é preciso se livrar por um trabalho de clarificações oriundas de um uso perverso da linguagem. O comportamento verbal é um fenômeno social, não se tratando somente de como usamos a palavra “língua”. Não poderia haver nada como uma língua se não existisse mais de uma pessoa. Sem um ambiente social nada poderia ser considerado como um mal emprego de palavras em um discurso.

A terapia filosófica consiste então em reconduzir a linguagem ao trabalho, uma vez que não é reforma, nem explicação, nem busca ilegítima da essência da linguagem ou de paradigmas sedutores. O tema da transitividade da linguagem é tipicamente instrumentalista, exatamente como o tema da “linguagem em férias”, que se furta à sua função legítima Apresentando-se como terapia da “doença filosófica”, a filosofia das Investigações remete sua própria anulação, pois seu intuito terapêutico encerrava a cultura que secretou desejável essa metamorfose. Percebemos que Wittgenstein desenvolveu o tema de que a filosofia tendia por si mesma a se anular ou a se superar, tornando-se outra coisa, seu trabalho, questiona o próprio questionamento filosófico. Wittgenstein sem dúvida pôs em prática essa ideia. Metamorfose que depende, aliás, de fatores sobre os quais, como Wittgenstein reconhecia, a filosofia não tem poder algum. O trabalho gramatical com fins terapêuticos consiste simplesmente em dispor fatos que todo mundo conhece num novo agenciamento em que os problemas filosóficos não poderão mais surgir. Da mesma maneira, as questões filosóficas

surgem apenas quando há, por assim dizer, um “congelamento da linguagem”, ao perder sua transitividade, a linguagem perde sua transparência normal para adquirir opacidade e mistério. (CHAUVIRÉ, 1991).

Para o autor das Investigações, a maneira de resolver as questões filosóficas não constitui em responder perguntas formuladas, mas sim em dissolver o problema apresentando um modelo de expressão modificado. Essas confusões surgem, constantemente, devido à inadvertência do filósofo em tratar das questões do uso da linguagem. A resolução de problemas em filosofia acontecerá quando mostrarmos os usos corretos das palavras. A chamada de atenção de Wittgenstein para a atitude filosófica diante dos problemas advindos do desconhecimento da lógica da linguagem, mesmo em sua segunda fase, perpassa toda sua filosofia. No caso da questão levantada por Santo Agostinho sobre “medir um espaço de tempo”, a gramática da palavra “medir”, quando aplicada à medida do tempo, se diferencia da aplicação da mesma palavra medir quando se fala em medir o comprimento (SIMÕES, 2008). A terapia de Wittgenstein consegue evitar as quimeras filosóficas ao colocar as formas de vida entre o transcendente e o empírico. Uma vez que a terapia filosófica rompe com o projeto de fundamentação, torna-se impertinente a pergunta a respeito das condições de possibilidade do conhecimento. A pergunta pelo fundamento dessa possibilidade de organização supõe respostas metafísicas, idealistas ou empiristas. Os fatos gerais da natureza, que estão na base das proposições gramaticais, são pertinentes para a significação dos conceitos apenas à medida que são organizados por nossas formas de vida. A descrição dos usos não se lança aquém das formas de vida, parte delas e descreve seu funcionamento efetivo e possível. Isso implica, simplesmente, que não podemos encontrar fundamentos fixos e inalteráveis para eles aquém das formas de vida sem adentrar nos confusos caminhos de jogos de linguagem que operam com conceitos epistemológicos (MORENO, 1993).

Com isso, terminamos esta seção dedicada a mostrar as características gerais da tese dos jogos de linguagem. Vimos que a harmonia entre a linguagem e a realidade é, de certo modo, pré-estabelecida pelas regras de gramática que estabelecemos para nós e que a realidade não pode nem corroborar, nem validar, porque só apreendemos o real através dessa gramática. A solução que Wittgenstein propõe para a cura da doença da filosofia consiste em dispor os fatos observados numa organização apropriada, que torne visível a gramática de nossa linguagem. A seguir, iniciaremos a parte desse trabalho, dedicada ao pragmatismo, relacionando a tese dos jogos de linguagem com o viés pragmatista.