2 R EVISTA DA L ITERATURA
2.1 Tratamento Restaurador Atraumático (ART)
2.1.6 Utilização do ART em Programas e Estudos em Campo
Desde a divulgação pela OMS, têm sido realizados vários estudos sobre a utilização do ART no atendimento a comunidades de áreas carentes. Entre as regiões vinculadas à OMS, que iniciaram este tipo de conduta destacam-se: AFRO (Regional Office for África), MRO (Regional Office for the Américas), EMRO (Regional Office for the Eastern-Mediterranean), EURO (Regional Office for Europe) e WPRO (Regional Office for the Western Pacific) (PAKHOMOV, FRENCKEN & HOLMGREN, 1998-2000).
A taxa de sobrevivência das restaurações realizadas com a técnica do ART varia de estudo para estudo, dependendo da localidade em que o programa está
sendo desenvolvido, do tipo de dentição tratada (decídua ou permanente), do material restaurador utilizado, do tipo de cavidade envolvida e também do tempo de acompanhamento e do critério empregado neste (SMALES & YIP, 2000; LO et al., 2001; SMALES & YIP, 2002), como se pode observar no Quadro 1 (página 25) para dentição permanente e no Quadro 2 (página 27), para a decídua.
Frencken et al. (1994) constataram, em uma área rural da Tailândia, taxa de sucesso, na dentição decídua, de 79,0% para restaurações de uma face, após 1 ano, e 55,0%, após 2 anos, com o emprego do Chemfil™. Em relação aos dentes permanentes, 93,0% das restaurações envolvendo uma face encontravam-se satisfatórias, em 1 ano.
Com respeito à dentição permanente, também após 1 ano de estudo e com o emprego do mesmo material restaurador, Frencken, Makoni & Sithole (1996) encontraram índice de êxito de 93,4% para cavidades de uma face, destacando não ter sido detectata a presença de lesões de cárie primária ou recorrente em todos os dentes permanentes restaurados pela técnica do ART no Zimbábue. Frencken et al. (1996), avaliando restaurações de ART também realizadas com Chemfil™, observaram que, após 2 anos, 82,2% das obturações permaneciam clinicamente satisfatórias, com apenas um caso, dentre os 186 examinados em que ocorreram sinais de lesão de cárie ao longo das margens. Esses achados vão ao encontro do publicado por Phantumvanit et al. (1996) e Frencken, Makoni & Sithole (1998), que, tendo utilizado o ChemFil™ e Fuji IX®, respectivamente, em dentes permanentes, diagnosticaram a recidiva de cárie em apenas 3,0% e 0,5% da amostra, referente ao ART, após avaliação de 3 anos.
No Camboja, um projeto para o atendimento de escolares, com base na filosofia do ART, apresentou, ao final de 1 ano, taxa de êxito de 76,3%, na dentição permanente, e, após 3 anos, de 57,9% (MALLOW, DURWARD & KLAIPO, 1998). Com referência a acompanhamentos de 3 anos, as taxas de sucesso de restaurações de uma face em estudos subseqüentes foram mais promissoras: cerca de 88,3% e 92,0% em investigações realizadas no Zimbábue e na China, respectivamente (FRENCKEN, MAKONI & SITHOLE, 1998; HOMLGREN et al., 2000). Entretanto a taxa de êxito, ao final de 3 anos, de restaurações com múltiplas faces foi de apenas 57,0% para cavidades do tipo Classe II (HOLMGREN et al., 2000) e 25,0% para Classe III (MALLOW, DURWARD & KLAIPO, 1998). Nesses estudos, empregaram-se materiais ionoméricos especificamente desenvolvidos para o ART (Fuji IX® e Ketac Molar®). Há pouquíssimas informações sobre restaurações Classe III e IV em dentes permanentes (SMALES & YIP, 2002).
Sucesso (%)
Autor Local Material Dentição Número de faces
1 ano 2 anos 3 anos
1 93,0
FRENCKEN et al. (1994) Tailândia Chemfill Superior Permanente
+ de 1 67,0 FRENCKEN, MAKONI
& SITHOLE (1996) Zimbábue Chemfill superior Permanente 1 93,4
FRENCKEN et al. (1996) Tailândia ChemFil Permanente 1 82,2
FRENCKEN, MAKONI &
SITHOLE (1998) Zimbábue Fuji IX Permanente 1 98,6 93,8 88,3
MALLOW, DURWARD &
KLAIPO (1998) Camboja Fuji II Permanente 1 76,3 57,9
MICKENAUTSCH et al.
(1999) África do Sul Ketac Molar Fuji IX e Permanente 1 93,5
Fuji IX Permanente 1 96,4
Chemflex Permanente 1 94,6
LUO et al.(1999) China
+ de 1 55,0
1 (peq) 99,0 96,0 92,0 1 (grande) 90,0 83,0 77,0 HOLMGREN et al.
(2000) China Ketac Molar Permanente
2 75,0 70,0 57,0 Vidrion R 1 50,0 1 36,7 OLIVEIRA (2000) Brasil IRM Permanente + de 1 0,0
Quadro 1 – Estudos sobre a taxa de sucesso de restaurações de ART realizadas em dentes permanentes.
Com enfoque na dentição decídua, a maioria da literatura disponível consiste em pesquisas com acompanhamentos de apenas 12 meses (SMALES & YIP, 2000; SMALES & YIP, 2002), com a taxa de sucesso aproximada que varia entre 80,0 e 96,0% para restaurações simples (Classe I e V), 46,0 e 75,0% para cavidades do tipo Classe II e 32,0 e 55,0% para restaurações Classe III e IV (FRENCKEN et al., 1994; HO, SMALES & FANG, 1999; LUO et al., 1999; LO & HOLMGREN, 2001; YIP et al., 2002b).
Ao final de 2 anos, Lo et al. (2001) verificaram que, na dentição decídua, 93,0% das restaurações, do tipo Classe I realizadas com o uso do ChemFlex® se encontravam clinicamente satisfatórias. Daquelas executadas com o Fuji IX GP®, cerca de 90,0% haviam tido êxito. Já para restaurações de molares com envolvimento de superfície proximal, os índices foram de 40,0% e 46,0% para o ChemFlex® e o Fuji IX GP®, respectivamente.
O mais longo acompanhamento de restaurações de ART em dentes decíduos reportado é de 30 meses (LO & HOLMGREN, 2001). Nesse estudo, realizado na China, com crianças em idade pré-escolar e utilização do Ketac Molar®, os autores encontraram taxa de sobrevivência de 79,0% para restaurações Classe I, 70,0% para Classe V, ao passo que, para restaurações posteriores com o envolvimento da face proximal (Classe II) esse índice foi de apenas 51,0%. Ainda foi avaliada a utilização do ART em dentes decíduos anteriores, porém as falhas foram altas, sendo que mais da metade das restaurações Classe III e IV estavam ausentes após 12 meses.
Sucesso (%)
Autor Local Material Dentição Número de faces
1 ano 2 anos 30 meses
FRENCKEN et al. (1994) Tailândia Chemfill Superior Decídua 1 79,0 55,0
1 96,6
Chemflex Decídua
+ de 1 46,2
1 89,7
LUO et al. (1999) China
Fuji IX Decídua + de 1 61,5 1 48,3 Vidrion R Decídua + de 1 34,8 1 53,3 OLIVEIRA (2000)) Brazil IRM Decídua + de 1 16,1 1 93,0 Chemflex Decídua + de 1 40,0 1 90,0 LO et al. (2001) China Fuji IX Decídua + de 1 46,0 1 79,0 LO & HOLMGREN
(2001) China Ketac Molar Decídua
+ de 1 51,0
1 93,7
HONKALA et al.
(2003) Kuwait Chemflex Decídua
+ de 1 83,3
Quadro 2 – Estudos sobre a taxa de sucesso de restaurações de ART realizadas em dentes decíduos.
Mickenautsch et al. (1999), trabalhando com Fuji IX® e Ketac Molar®, apuraram alta taxa de sucesso (93,5%) para restaurações realizadas com essa técnica, após 1 ano, tanto na dentição decídua quanto na permanente, não havendo diferença significativa entre os 2 materiais empregados. Nessa investigação, efetuada a partir da adoção do ART pelo Programa Odontológico da Universidade de Witwatersrand, também foi constatada diminuição significativa do emprego de outros tipos de tratamentos, como restaurações de amálgama e de compósitos e, principalmente, de extrações que envolviam a dentição decídua.
Alguns estudos incluem a opinião dos pacientes frente ao ART e vêm demonstrando que a maioria dos indivíduos submetidos à terapia atraumática se diz satisfeita com o resultado, não hesitando em repeti-la, caso necessário (FRENCKEN et al., 1994; FRENCKEN et al., 1996; HOLMGREN et al., 2000; SILVA FILHO et al., 2000; CHEVITARESE et al., 2002; YIP et al., 2002a), inclusive quando se tratava de crianças em idade pré-escolar (LO & HOLMGREN, 2001). A sensibilidade pós-operatória, reportada por alguns pacientes, foi verificada por Frencken et al. (1994) e Frencken et al. (1996), variando entre 1,6 e 6,0%. Já no estudo de Frencken, Makoni & Sithole (1998), 5,0% dos pacientes referiram a presença de sensibilidade nos elementos tratados pelo ART.
Ainda no tocante a relatos dos pacientes, comprovou-se que, quando comparados os instrumentos manuais com os rotatórios, há menor desconforto por parte daqueles tratados apenas com instrumentos manuais, sendo o operador envolvido no tratamento uma variável importante (van AMERONGEN & RAHIMTOOLA, 1999; RAHIMTOOLA et al., 2000; SCHRIKS et al., 2003). O
tamanho da cavidade influencia a queixa, sendo esta maior no grupo de técnica convencional, ou seja, com o emprego de instrumentos rotatórios (van AMERONGEN & RAHIMTOOLA, 1999).
Uma das vantagens descritas pelos idealizadores do ART seria a boa relação custo efetividade (FRENCKEN, PHANTUMVANIT & PILOT, 1993; FRENCKEN et al., 1996). Com relação a esse aspecto, Lo & Holmgren (2001) comprovaram que uma restauração de ART custava cerca de US$ 0.40 e que praticamente metade desse valor derivava do custo do material ionomérico. A título de comparação, os autores identificaram que a taxa habitual de uma restauração de amálgama em dente decíduo equivalia a US$ 2.50 em uma clínica mantida pelo governo chinês. Em levantamento sobre os custos do ART e do tratamento convencional, com a utilização do amálgama de prata ou compósitos, Mickenautsch, Munshi & Grossman (2002) demonstraram que restaurações de ART são cerca de 50,0% mais baratas do que os procedimentos convencionais, em decorrência da utilização de instrumentos manuais e da não necessidade de equipamentos caros. A terapia atraumática é, pois, custo-efetiva, podendo ser considerada alternativa economicamente viável.